Dia do Chocolate: quais receitas tem gosto de memória afetiva para chocolateiros e confeiteiros?
Karê com chocolate, bolo de mãe e a primeira barra própria estão entre os destaques. Crédito: Giulia Howard/Estadão
“Você precisa, para ontem, conhecer esse bolo. É o melhor que eu já comi.” Foi essa a frase mandatória para que a reportagem de Paladar se deslocasse até um sobrado na zona oeste da capital. Era uma quarta-feira, às 9 horas, ocasião perfeita para uma reunião online acompanhada de uma degustação. Bastou subir alguns degraus, encontrar uma mesa, ligar o computador e pedir o doce.
Antes de servir, porém, o atendente fez um pedido gentil: que a máquina fosse desligada. O bolo divino, estrela do cardápio, foi feito para ser consumido de forma analógica. A companhia ideal? Um livro. É só escolher.

Bolo Divino da livraria Bibla Foto: Divulgação
Isso porque a massa de chocolate, pão de mel e especiarias — que conquistou o público e soma cerca de 1.000 fatias vendidas por mês — “mora” dentro de uma livraria que se propõe a ser um espaço de leitura e de conversa, e não de coworking. Ali, não há nem wi-fi.
Talvez essa experiência vivida na Bibla — único lugar onde o bolo divino pode ser encontrado — componha o segredo do sucesso da receita. O espaço tem pouco mais de dois anos de vida e, por lá, a fatia generosa parece atrair tantos clientes quanto os livros que ocupam as prateleiras ao redor.
“Ele é mesmo um fenômeno”, diz Isadora Peruch, que fundou a Bibla ao lado das sócias Alessandra Effori e Luciana Gil. “Nós sempre desejamos que a livraria tivesse a comida como um dos pilares da hospitalidade, para fazer do nosso espaço mais do que um ponto de venda: um ponto de encontro. Mas, de fato, o bolo se tornar uma estrela desse tamanho nos surpreendeu.”
Hoje, a Bibla é uma das livrarias que apostam no combo “livros + comida” como estratégia de posicionamento. E pensar que o bolo divino que conduz o cardápio nasceu justamente no aniversário de Isadora, quase por acaso.
A história do bolo da Dona Divina
Dona Divina Correia era famosa por ser uma boleira de mão cheia, embora esse nem fosse seu principal ofício. Ela trabalhava com Isadora que, na época, estava mergulhada na correria de transformar um prédio vazio em uma livraria de rua. Tão envolvida com a obra que sequer havia lembrado de comemorar os próprios 32 anos.
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Mas Dona Divina quis fazer um carinho para Isa e preparou um bolo alto, pomposo, de várias camadas e muito molhadinho. Na primeira mordida, Isadora sentiu que havia ali um verdadeiro borogodó. Saiu de casa deixando sobre a mesa um bolo do qual já faltavam duas fatias.
Por coincidência, suas sócias, Alê e Lu — que também estavam envolvidas nos preparativos finais da obra — passaram pela casa naquele dia. Não encontraram a aniversariante, mas encontraram o bolo. Experimentaram uma fatia e, imediatamente, fizeram um telefonema.
“Isadora, o bolo divino precisa estar na nossa Bibla.”
Todo mundo que provava confirmava que ele tinha protagonismo. A escolha foi se consolidando até virar slogan da livraria. A Bibla abriu as portas como a casa da “literatura, ficção & bolo divino”.

Bolo Divino da livraria Bibla Foto: Divulgação
A autora da receita, Dona Divina, ficou responsável por produzir os bolos que abasteciam a casa que ganhou o nome em sua homenagem. O sucesso veio, a fama também, até chegar o momento em que a mãe do bolo decidiu se aposentar e descansar. Era hora de ensinar o confeiteiro da casa a dar continuidade ao legado.
Ricardo Oliveira recebeu a missão. Não bastava reproduzir o sabor criado por Dona Divina. Os bolos precisavam continuar fresquinhos, preparados diariamente na pequena cozinha da Bibla, onde trabalham seis pessoas.
Tentativas e tentativas até o ponto ideal
Segundo Isadora, a receita de Dona Divina tinha algo de místico. As medidas eram feitas no olhômetro, na intuição, do jeito que tantas mães cozinham. Não foi fácil reproduzir o resultado. Às vezes o bolo não crescia; em outras, não alcançava a textura ideal. Foram cerca de seis meses de tentativa e erro até chegar ao ponto certo e incorporar a receita à rotina da casa.
Viu essa?
O segredo estava, principalmente, no ponto da calda de cravo e canela, que ganha uma coloração semelhante à de guaraná e umedece toda a massa, garantindo a constância da textura. Os chocolates também têm diferentes teores de cacau para equilibrar o dulçor.
A reportagem só conseguiu avançar até aí nos segredos da receita de Dona Divina, mantida em sigilo justamente para que o bolo continue sendo divino.
Ainda assim, as sócias da Bibla compartilham uma espécie de manual de consumo, que cada freguês pode seguir da maneira que preferir.
Isadora, por exemplo, acredita que o bolo merece sempre ser dividido com outra pessoa. Afinal, a proposta da casa sem wi-fi também é incentivar as conversas, e o bolo pode ser um excelente fio condutor do encontro. Se a companhia escolhida for um livro, sua indicação é Se Deus me Chamar Não Vou, de Mariana Carrara, romance sobre uma menina de 11 anos que constrói suas memórias afetivas — da mesma forma que um bolo divino ajuda a construir as suas.

Bolo Divino da livraria Bibla Foto: Divul
Já Alessandra Effori faz outra harmonização literária. Ela sugere acompanhar o Divino com Os Imortais, de Paulliny Tort.
“Complexidade, muitas camadas para saborear e a sensação de surpresa. No final você termina e sabe que é muito bom”, diz, comparando a experiência de ler o livro à de provar o bolo.
Luciana Gil, por sua vez, recomenda qualquer obra de Elena Ferrante. “São tão boas que dão vontade de economizar e não devorar tudo de uma vez, para saborear até a última garfada — ou página.”
Livraria Bibla
Onde é? Pça. Professora Emilia Barbosa Lima 58 – V. Madalena SP
Valor do Bolo Divino – R$ 28 a fatia
Terça a sexta | 08h às 21h
Sábados | 09h às 19h
