Leo Akira é eleito o Padeiro do Ano pelo Prêmio Paladar 2026
A mente e as mãos por trás da Mirá apostam no koji, fungo usado na produção do saquê, como ferramenta para transformar pães, croissants, doces e muito mais. Crédito: Fel Meireles/Estadão
“Costumo dizer que a fermentação está na moda há uns 10 mil anos”, brinca Fernando Goldenstein, especialista no assunto e sócio da Cia. dos Fermentados. Não à toa. Os produtos da fermentação – não apenas os mais óbvios, como o picles, o pão, a cerveja e o vinho, mas também o queijo, o chocolate, o café, o shoyu, que nem sempre são mencionados como produtos fermentados – sempre tiveram lugar de destaque na história das civilizações e na dieta de muitas famílias.
Um saber ancestral e empírico, presente na maioria das tradições culinárias do mundo, que, a partir do século 20, extrapola a produção artesanal comunitária, de pequena escala, para ganhar as fábricas. As tradicionais culturas starter de fermentos, até então transmitidas de geração em geração, passam a ser substituídas por culturas criadas em laboratório, “com cepas modificadas em nome de uma melhor higiene, segurança alimentar, nutrição e eficiência”, como explica o americano Sandor Katz, o guru dos fermentados, em seu famoso livro A Arte da Fermentação.
Se alguém, porventura, ousou imaginar que todos os conceitos e processos sobre fermentação já estariam postos e que todas as suas possibilidades enquanto ferramenta culinária estariam esgotadas, chefs e entusiastas das transformações de alimentos pelas enzimas produzidas por bactérias e fungos entram em cena para mostrar que não. A busca incessante por novidades – também guiada por questões de saúde e sustentabilidade – coloca, mais uma vez, a fermentação na crista da onda, não apenas nas cozinhas de endereços gastronômicos, mas também em centros de pesquisa de vanguarda culinária.

No bar Fermenta, fermentação é o foco do cardápio; nem a coxinha escapa: é feita com massa de puba e recheada com frango e chucrute. Foto: Isabella Finholdt/Estadão
“Já inventaram tanta moda na cozinha, fizeram tantas coisas, que, hoje, inovar é justamente fazer o caminho de volta. Voltar os olhos ao conhecimento ancestral e descobrir o que ainda pode ser feito”, acredita Leonardo Andrade, sócio da Cia. dos Fermentados, marca artesanal de bebidas e outros fermentados artesanais que acaba de abrir seu próprio bar, o Fermenta, na Vila Madalena.
No bar, tudo, absolutamente tudo, tem pelo menos um dedinho de fermentação em alguma parte do preparo. Nem a coxinha escapa, ou melhor, a chucruxinha, que ganha esse nome por conta do recheio de frango com chucrute (conserva de repolho fermentado), que é feito na casa. Não bastasse, a massa do salgado é, ainda, feita com puba, massa de mandioca fermentada, que no processo ganha uma textura lisa e elástica, perfeita para modelar o salgado. Já o kimcheese é um “sandubão”, como eles mesmos descrevem, de queijo derretido, kimchi (conserva coreana de acelga e outros vegetais) e maionese verde no pão schiacciata.
Entre os drinques da caprichada carta, um dos destaques é o Yuzuzu Sanju, que combina a geleia e o licor de yuzu da marca com gim, limão e cachaça de jambu. “O yuzu é um dos nossos melhores exemplos de aproveitamento total de ingredientes. Dele, a gente só descarta as sementes”, conta Fernando. “Fazemos o yuzushu [licor japonês] com a casca, extremamente aromática, e a polpa do yuzu. O que sobra vira geleia ou molho de pimenta fermentado com koji”, explica.

Fernando Goldenstein e Leonardo Andrade, à frente da Cia. do Fermentados e do bar Fermenta. Foto: Tiago Queiroz/Estadão
De vermutes a molho inglês, a Cia. do Fermentados – que nasceu no quintal da casa Fernando e Leonardo e, hoje, ocupa uma fábrica de 1.200 metros quadrados em Barueri – fornece seus produtos a cerca de 450 restaurantes e bares por todo o País, fora as consultorias e elaboração de cartas. “A gastronomia está redescobrindo a fermentação e suas possibilidades, que são infinitas. Quem antes só marinava vegetais, hoje, já pensa em formas de fermentá-los para ganhar complexidade”, conta Leonardo. Na mixologia, o movimento também é forte. “É quase um crime um balcão que não tem um fermentado próprio”, brinca.
“As pessoas estão percebendo que a fermentação é um tema central na alimentação, comum em diversas culturas. Existem mil tipos de fermentados, que são maneiras que a humanidade encontrou de conservar alimentos. E essas maneiras de conservação são também maneiras de criar sabores”, acredita Leonardo Akira, padeiro obcecado por fermentação à frente da Mirá.

Processos: o koji, que vira missô, que, por sua vez, vira camarelo para lambuzar a Miso Honey Butter Toast, da Mirá. Foto: Felipe Rau/Estadão
Por lá, fermenta tudo o que pode com um tal de koji, fungo milenar usado, por exemplo, na fermentação de saquês. Pães, missô, shoyu, picles e até o croissant. “É uma forma de fermentar o croissant naturalmente sem demorar uma eternidade e sem precisar fazer um controle muito minucioso de pH. Um atalho que ainda acrescenta sabor”, explica.
No cardápio da padaria, o missô vira o caramelo que lambuza a torrada de shokupan e o shoyu vira um xarope que estrela a versão de mocha da casa. Leite (que pode ser vegetal), espresso, mel e açúcar complementam a bebida, que é uma das queridinhas da clientela.
Vanguarda culinária
“Ainda temos muito o que aprender com esses seres microscópicos que sempre estiveram aqui”, afirma Joxe Mari Aizega, diretor-geral do Basque Culinary Center, em Donostia-San Sebastián, sobre as bactérias e fungos que transformam alimentos através da fermentação. Num dos mais importantes centros de conhecimento, pesquisa e inovação ligada à cozinha do mundo, a fermentação, que deve ganhar em breve um laboratório todinho dedicado à ela, é, hoje, tema de pesquisa e especialização na instituição.
“Faz uns três, quatro anos que a fermentação como conceito e técnica está adquirindo uma relevância importante na evolução da gastronomia e, por isso, ela é um dos focos do BCC”, explica Aizega. “Como uma instituição dedicada ao conhecimento, o que fazemos é decifrar a ciência por trás de um determinado processo de fermentação para que se possa replicá-lo com ingredientes diferentes.”

Eneko Izkue, coordenador da área de Vanguarda no BCC e coautor do livro “Fermentos: a gastronomia dos microrganismos e das enzimas” Foto: Basque Culinary Center/Divulgação
Junto do do professor Eneko Izkue, coordenador da área de Vanguarda no BCC e coautor do livro Fermentos: a gastronomia dos microrganismos e das enzimas, Aizega desembarca em novembro em São Paulo para uma aula magna na Universidade Anhembi-Morumbi sobre criatividade e fermentação. Entre as receitas que vão ensinar, a picanha curada com shiokoji de feijão carioca é um dos destaques.
A aula magna antecede o XVI Encontro Anual do Conselho Internacional do Basque Culinary Center, conhecido como “G20 da Gastronomia”, que ocorre pela primeira vez no Brasil entre os dias 7 e 10 de novembro.
Fermentação é o futuro?
Saborosa, saudável e sustentável. Para Aizega, esses três predicados vãos definir a alimentação do futuro. “E, por isso, acredito que o fermentação estará no centro das inovações gastronômicas nos próximos dez anos.”
Como diz Michael Pollan no prefácio do livro A Arte da Fermentação: “Fermentar sua própria comida significa fazer um eloquente protesto – dos sentidos – contra a homogeneização dos sabores e das experiências alimentares que hoje como uma vasta planície indiferenciada por todo o nosso planeta. O ato também é uma declaração de independência a uma economia que prefere que sejamos todos consumidores passivos de suas commodities em vez de criadores de produtos originais que expressem nós mesmos e os lugares e os lugares onde vivemos.”
