Antonio Fagundes e Tony Ramos falam sobre a novela ‘Quem Ama Cuida’
Os atores, que estarão juntos na TV, batem um papo descontraído com o ‘Estadão’. Crédito: Danilo Casaletti
Você percebe que Adriana tem toda a pinta de mocinha de novela porque, logo nos primeiros capítulos, divide uma coxinha com um desconhecido sem dinheiro, mesmo varada de fome. Também entende que Pilar reúne todos os traços de vilã: entre caras e bocas, está sempre com uma taça de champanhe na mão, mesmo em pleno dia. Já Pedro flerta com o papel de herói inofensivo, com uma leve aura de filhinho de papai, pois aparece em cena quase sempre bebendo Toddynho.
São exemplos reais selecionados pela pesquisadora de gastronomia Cintia Marcucci na fictícia teledramaturgia Quem Ama Cuida, atualmente no ar na Globo, na faixa das 21 horas. Há seis anos, Cintia dedica seu tempo a pesquisar o papel da comida nas novelas da emissora e afirma que, na obra atual, a função narrativa da gastronomia se confirma mais uma vez.

Comida na novela: Café marca cena de Adriana Foto: Montagem Beatriz Tavares
“Em todas as novelas que estudei, a comida sempre se mostra uma excelente ferramenta narrativa. Ela dá o tom dos personagens, constrói intimidade e fortalece as relações”, diz a pesquisadora, destacando esse efeito nas atuações de Letícia Colin (Adriana), Isabel Teixeira (Pilar) e Chay Suede (Pedro).
“Mas, especialmente, é a comida que confere identidade cultural e social à trama e às personagens. Não são escolhas aleatórias. Sempre que pratos aparecem em cena, eles refletem padrões comportamentais ou inspiram comportamentos”, afirma, com uma coleção de exemplos na ponta da língua para ilustrar a força simbólica da gastronomia nas novelas.
Basta lembrar de alguns casos clássicos:
1) O sanduíche de Raquel, em Vale Tudo (1988 e 2025);

Comida na novela: sanduíche Vale Tudo Foto: MOntagem Beatriz Tavares
- O pastel da Dona Jura, em O Clone (2001);

Dona Jura (Solange Couto) ficou famosa pelo pastel e o bordão: né brinquedo não Foto: TV Globo
- O bolo de Maria da Paz, em A Dona do Pedaço (2019).

Juliana Paes dá vida à protagonista de ‘A Dona do Pedaço’, Maria da Paz, que tinha a fama de fazer bolos mágicos Foto: João Miguel Júnior / Globo / Divulgação
Quando a comida é protagonista da trama
Esses três ícones são classificados por Cintia Marcucci como exemplos de “comida protagonista”.
“Isso acontece quando a comida é a definidora absoluta da trama, a ponto de a história se desenrolar a partir dela”, explica.
De fato, alguns quitutes conquistam status de popstar. Em resposta a esse interesse do público, a própria Globo criou um portal dedicado a reunir receitas que fizeram sucesso nas novelas, aproximando ainda mais a ficção da audiência.
Além desse papel de protagonista, Cintia identifica outras duas funções recorrentes da comida na teledramaturgia.
A segunda é a chamada “comida de ambientação”, como ocorre nas fazendas de cacau de Renascer (1993/2024). “Ela vai muito além de um elemento cenográfico. É a comida que ajuda a desenhar aquele universo. Isso acontece também em Chocolate com Pimenta (2003) e O Cravo e a Rosa (2000)”, explica.
Já a terceira categoria é a “comida coadjuvante”. Nesse caso, a gastronomia funciona como uma espécie de escada para o ator, ajudando a conduzir diálogos e relações entre os personagens. Um dos melhores exemplos, segundo Cintia, é Avenida Brasil (2012).

Duelo entre Carminha e Nina: me serve, vadia Foto: Reprodução de ‘Avenida Brasil’ (2012) / Globo
Primeiro porque as conversas da família de Tufão quase sempre aconteciam ao redor da mesa. Em uma das cenas, Nina e o ex-jogador chegam a comentar o clássico Fisiologia do Gosto, considerado uma das obras mais importantes da gastronomia e publicado em 1825, cujo bicentenário foi celebrado em 2025.
A pesquisadora também observou que toda a rivalidade entre Carminha e Nina se manifesta por meio do ato de servir — servir comida, no caso.
Novela velha é que faz comida boa
O interesse de Cintia pelo papel da comida nas novelas surgiu durante a pós-graduação em Gastronomia que cursou no Senac. Foi ali que decidiu colocar uma lupa sobre ingredientes, pratos e preparos que marcaram cinco novelas da Globo exibidas nas décadas de 1980 e 1990.
Ela escolheu analisar Roda de Fogo (1986), Que Rei Sou Eu? (1989), Vale Tudo (1988), Meu Bem, Meu Mal (1990) e Fera Radical (1988).
No trabalho, intitulado Novela Velha é que Faz Comida Boa, Cintia identificou um padrão que voltaria a encontrar em todas as pesquisas realizadas posteriormente.
“A comida é o que chamamos de ferramenta de suspensão da descrença. É também por meio dela que a verossimilhança da novela se legitima. Ela aproxima os personagens entre si e também aproxima o público da história”, explica.
“O título do trabalho não faz referência à qualidade gastronômica do que aparece nas novelas. A ideia é mostrar que, quando analisamos uma obra com certo distanciamento histórico, conseguimos compreender melhor as escolhas alimentares daquele período.”
Após a publicação da pesquisa, Cintia não parou mais de estudar o tema nem de promover eventos sobre gastronomia e teledramaturgia.
Ela identificou desde pequenos flagrantes históricos — como o kiwi surgindo como uma “fruta novidade” em Quatro por Quatro (1994), justamente quando começava a ganhar espaço no mercado brasileiro — até aquilo que define como uma verdadeira gramática da comida nas novelas.
“Todo mundo sabe o que é um ‘café da manhã de novela’. O assunto é tão marcante na cultura brasileira que a própria dramaturgia acaba pautando esse imaginário. Poderia, inclusive, virar um verbete de dicionário”, brinca, fazendo referência especialmente aos famosos cafés da manhã das novelas de Manoel Carlos.
Naturalmente, também existem novelas que se tornaram memoráveis justamente por suas cenas envolvendo comida.
É o caso da clássica sequência protagonizada por Fernanda Montenegro e Paulo Autran em Guerra dos Sexos (1983), posteriormente refeita por Irene Ravache e Tony Ramos no remake de 2012.

Comida na novela: guerra dos sexos Foto: Montagem Beatriz Tavares
Ou ainda da interpretação de Lima Duarte como Dom Lázaro, em Meu Bem, Meu Mal (1990). O personagem permanecia sem fala até surgir, de repente, dizendo em alto e bom som: “Eu quero melão”.
“Além da interpretação magistral, essa cena virou um ícone da gastronomia, rende memes até hoje e, para mim, simboliza perfeitamente a força da comida como signo do desejo”, afirma.
E como é a comida em Quem Ama Cuida?
Com toda essa bagagem, Cintia aceitou o desafio proposto pelo Paladar para analisar a performance da gastronomia no novo sucesso de audiência.
Ela avaliou os 24 primeiros capítulos e contabilizou nada menos que 65 aparições do café.
“A primeira fase da novela se passa em 2019. Há pouca ambientação de locais de trabalho, já que os personagens trabalham muito pouco. O café funciona como marcador de tempo e como ferramenta de construção das relações”, observa.
Outro dado chama atenção: as bebidas alcoólicas aparecem 54 vezes.
O destaque fica para Pilar e sua inseparável taça de champanhe — um recurso que ajuda a construir sua imagem de vilã, embora o álcool esteja presente em praticamente todos os núcleos da novela.

Comida na novela: champanhe e Pilar Foto: Montagem Beatriz Tavares
“Como haverá uma passagem de tempo e a promessa de uma grande reviravolta, talvez, na nova fase, os personagens passem a beber menos. Isso também pode ser usado como ferramenta narrativa.”
Pedro e seu inseparável Toddynho também não escaparam da análise da pesquisadora.
“Vi em uma entrevista que foi o próprio ator quem escolheu levar o leitinho para a cena. Achei curioso. O que será que ele quer contar com isso? Será que vem uma revelação? Será um indício de mudança na trajetória do protagonista?”, questiona.
Os noveleiros sabem que, nos bastidores, já circulam rumores de que Pedro talvez venha a se revelar o grande vilão da trama.

Cintia Marcucci, pesquisadora de gastronomia em novelas, posa em seu apartamento onde montou um altar com ícones que aparecem nas tramas Foto: Daniel Teixeira/Estadão
Cintia promete acompanhar tudo de perto. E fará isso da sala de casa, onde montou um verdadeiro altar dedicado aos objetos cenográficos das novelas brasileiras.
Entre eles estão a famosa jarra de abacaxi, símbolo de A Grande Família, e um tradicional filtro de barro.
“Toda novela brasileira que se preze, especialmente nos núcleos populares, sempre tem um filtro de barro para chamar de seu.”
