Crise do metanol: o que mudou no combate à falsificação de bebidas no Brasil após as mortes

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Entre os meses de setembro e dezembro de 2025, o País vivenciou uma onda de intoxicações causadas por bebidas falsificadas e adulteradas por metanol. O resultado foram 22 mortes confirmadas e quase 900 casos notificados. Neste contexto, no fim do ano passado, o setor de bares e restaurantes viu os clientes rarearem – impactando em até 90% do movimento. A partir daí, investigações, projetos de lei, grupos de estudo e campanhas de conscientização ganharam força ou foram lançadas.

Agora, em janeiro de 2026, com um cenário mais apaziguado, cabem algumas perguntas. Em que fase estão as investigações? O que mudou? O que tem sido feito para que uma nova crise aconteça? Qual o legado da crise envolvendo a falsificação de bebidas destiladas para o consumidor e o mercado?

Investigação e Lei

Em São Paulo, a investigação da Polícia Civil aponta para o fato das bebidas alcoólicas adulteradas terem partido de uma mesma fábrica clandestina administrada por uma família no ABC. Um membro da família foi preso em flagrante em outubro – e o restante da família continua sendo investigada (com quebra de sigilos bancários já autorizados).

Se as investigações parecem avançar em um ritmo normal, a aprovação de leis segue um passo mais lento. Embora o projeto de lei (PL 2307/07) que transforma a falsificação de bebidas como crime hediondo tenha sido aprovado pela Câmara dos Deputados no final de 2025, ele ainda continua em tramitação no Senado Federal.

Ações

Após os primeiros casos de intoxicação por metanol, o Governo do Estado de São Paulo criou um grupo de trabalho para discussão e implementação de iniciativas que coibissem a falsificação de bebidas alcoólicas.

O grupo, composto pela Secretaria de Direito Econômico, entidades como Associação Brasileira de Bebidas Destiladas (ABBD), Associação Brasileira de Bebidas (Abrabe), Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) e pelas principais marcas de bebidas destiladas do País, reuniu-se na tarde da última quarta-feira, dia 14, para realizar um balanço do trabalho e apontar os próximos passos. Desta reunião, o grupo destaca três iniciativas estruturantes que já estão em curso. São elas:

1 – A criação de um modelo de avaliação de conformidade de bebidas destiladas, com participação do IPEM-SP, baseado em análise documental, inspeções e testes laboratoriais

2 – Ações de capacitação por meio da plataforma Bebida Legal (bebidalegal.com.br), que oferece treinamentos gratuitos e conteúdos educativos para combater a falsificação e proteger a saúde pública.

3 – O fortalecimento da logística reversa de garrafas de vidro como forma de reduzir a adulteração de bebidas, já que o reuso irregular de embalagens é um dos principais vetores desse problema. Essa ação será realizada a partir da articulação com programas existentes e com a tomada de subsídios conduzida pela Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística do Estado de SP (SEMIL) para regulamentação estadual do tema.

Sobre “logística reversa” cabe explicar que se trata de uma ação fundamental de cuidado e fiscalização envolvendo o descarte correto das garrafas. Em caso de garrafas de uso único, as ações envolvem o descarte, transporte e reciclagem – bem como a destruição dessas garrafas ou a descaracterização dos rótulos.

Legado

Para a Presidente Executiva da Abrabe, Cristiane Foja, o grande legado da crise é “uma mudança no olhar da sociedade brasileira para a gravidade do crime de falsificação de bebidas alcoólicas e todos os riscos envolvidos nestas falsificações”.

“Os crimes de falsificação eram vistos como de menor relevância. Não existia muitas prisões ou política públicas especificas. Hoje, nós temos a população muito mais engajada e observando e selecionando melhor suas compras. E os órgãos públicos estão mais prontos para coibir a fabricação e venda de produtos falsificados”, disse Cristiane.

Para Gabriel Pinheiro, diretor da Abrasel São Paulo, a situação também está muito mais bem definida. “Agora, temos direcionamentos, caminhos e protocolos para dificultar a ação de falsificadores – o que vai dar mais segurança para os clientes e empresários do setor”, falou.

Já para o presidente da Associação Brasileira de Bebidas Destiladas (ABBD), Eduardo Cidade, garante que o objetivo de” reforçar o compromisso com a educação, a responsabilidade sanitária e a cooperação com as autoridades públicas” vai garantir que apenas “produtos autênticos e seguros cheguem ao consumidor brasileiro”.

A Indústria

Para Guilherme Martins, vice-presidente de Marketing e Inovação da Diageo Brasil, “antes de qualquer análise setorial, é fundamental reconhecer a gravidade do que aconteceu e expressar nossa solidariedade às vítimas e às famílias impactadas por essa tragédia”.

“Situações como essa reforçam o quanto a falsificação de bebidas é um problema sério com consequências reais e inaceitáveis. Esse episódio evidenciou, de forma contundente, a necessidade de separar o mercado formal e regulado das práticas ilegais. A falsificação, embora represente uma parcela menor do volume total consumido, é a face mais nociva do setor, por seus riscos diretos à saúde pública e pela quebra de confiança que gera no consumidor”, disse.

De acordo com Martins, para a Diageo, o compromisso com a segurança do consumidor sempre foi central, e a crise acelerou iniciativas que já faziam parte da agenda da empresa. “Nossa resposta passa por um conjunto de ações estruturais reunidas na nossa campanha de retomada. Isso inclui o fortalecimento do movimento “Da nossa fábrica para o seu carrinho”, a ampliação contínua da rede de parceiros homologados e o avanço do The Bar, nosso e-commerce oficial, que recentemente ganhou uma frente dedicada a eventos, como um canal seguro de compra direta, com procedência garantida e orientação ao consumidor. Como mais um passo nessa jornada, lançamos um bot no WhatsApp que, a partir do CEP do consumidor, permite identificar pontos de venda físicos, distribuidores homologados e e-commerces com compra oficial, facilitando o acesso a canais confiáveis de forma simples, rápida e segura”, falou.

Bares

Os donos de bares e restaurantes afirmam que o movimento vem sendo recuperado desde o início da crise, mas algumas mudanças vieram para ficar no setor. “O legado é um consumo mais consciente do cliente, uma preocupação em procurar um bar ou um bartender mais confiável. Cada vez mais os processos de qualidade e higiene estão ficando transparentes”, disse Steph Marinkovic, sócia do Fifty Fifty Bar.

“As casas que já faziam trabalhos exemplares continuam com o rigor de sempre. Bebidas falsas ainda existem, mas agora os consumidores e os donos de bar estão prestando ainda mais atenção na procedência dos produtos”, fala Gabriel Santana, sócio do Santana e do Cordial Bar.

Para Cairê Aoas, empresário à frente da Fábrica de Bares, grupo que gerencia bares icônicos de São Paulo, como o Bar Brahma, o Bar dos Arcos, o Riviera e outros, o consumo se regularizou completamente. “A mudança de procedimento melhorou a comunicação com a equipe sobre a procedência dos produtos, aumentando a segurança tanto para os colaboradores quanto para os clientes. A indústria também mostrou maior preocupação e fiscalização, resultando em um aspecto positivo”.

Um aspecto importante é a percepção de que o consumo de vinho avançou. Além disso, os coquetéis sem álcool ganharam mais espaço nos menus. Os bares mais relevantes da cidade possuem ao menos três opções de drinques sem álcool.

Além disso, a relação dos bares e restaurantes com os distribuidores está mais profissional. Não trabalhar com distribuidores homologados pela indústria virou uma “red flag” importante.

Do ponto de vista do consumidor, a “fulanização do consumo de bebidas alcóolicas” também parece ter ficado no passado. Donos de bares e restaurantes ouvidos pela reportagem reconhecem que hoje o consumo tem se tornado mais consciente e mais preocupando em conhecer a procedência e qualidade daquilo que é servido.

O que falta

Entre os principais agentes do setor, existe um senso comum de que a falsificação ainda existe e, provavelmente, continuará existindo. Ainda assim é possível combatê-la com a intensificação de auditorias e controles na cadeia de distribuição de bebidas alcoólicas. “É necessário que o estado coloque sua mão criando protocolos para um maior compliance na cadeia de distribuição. Bebidas alcoólicas não podem ser distribuídas e comercializadas sem a garantia da origem e legalidade das bebidas”, afirmou a Presidente Executiva da Abrabe, Cristiane Foja.



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