Feira Naturebas: o sinônimo, a essência e a importância para o vinho no Brasil

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Peço licença para abrir esta coluna com um depoimento pessoal. Eu já fui barrada na porta da Naturebas, hoje a maior e mais importante feira de vinhos naturais do hemisfério Sul. Foi em sua primeira edição, em 2013, quando o evento ainda acontecia nos salões da Enoteca Saint VinSaint, restaurante que funcionou até o ano passado, em São Paulo.

Sem imaginar o potencial da feira, deixei para comprar meu ingresso na hora, um sábado a tarde, e a Lis Cereja, a organizadora, recebeu-me na porta com um sorriso e, simpática, informou que os ingressos tinham acabado. E que não abriria uma exceção para uma jornalista que estava ali para divulgar o evento. Aprendi a lição e, a partir do ano seguinte, estava sempre entre as primeiras a comprar meu ingresso.

A cena ilustra o perfil da Lis, uma pioneira em levantar a bandeira do vinho natural no Brasil. Na primeira edição, os 20 produtores espremiam-se entre os 100 visitantes nas duas salas do restaurante, sem imaginar que os chamados naturais, orgânicos e biodinâmicos iriam se destacar no mundo do vinho.

Lis tomando vinho Foto: katiuska salles

Lis ousou por investir em suas próprias crenças (ela é adepta de uma gastronomia sem agrotóxicos e da relação mais próxima entre produtores e consumidores) e se transformou em uma referência no tema. O melhor exemplo é que nos próximos dias 27 e 28 de junho a Naturebas acontece no Tendal da Lapa, em São Paulo, com 180 produtores de 14 países e a previsão de receber mais de 3 mil visitantes.

E, em breve, Lis pretende levar a feira também para o Rio de Janeiro e o Chile, como ela conta a seguir. Sobre a Naturebas 2026, ainda restam alguns (poucos) ingressos, que podem ser adquiridos por R$ 239, no www.feiranaturebas.com.br

Paladar: Nestas 14 edições, quais foram os principais destaques da Naturebas?

Lis Cereja: Pergunta difícil, mas acho que foram alguns dos emblemáticos figurões do mundo natural, como Stefano Bellotti (defensor da agricultura biodinâmica na Cascina Degli Ulivi, no Piemonte, falecido em 2018); Mateja Gravner (filha de Josko Gravner, referência nos vinhos em ânfora, no norte da Itália); Jean-Pierre Robinot (mítico produtor do Loire) e John Wunderman (da Pheasant’s Tears, de vinhos na Georgia).

⁠Tem algum produtor de vinho que você gostaria que viesse para a Naturebas e ainda não veio?

Lis: ⁠São centenas. Mais um que estou tentando convencer há muito tempo é Louis Antoine Luyt. Ele é pioneiro na elaboração de vinhos naturais e grande pai do conceito de pipeño (vinhos elaborados por métodos artesanais) no Chile. Louis foi pupilo e amigo de Marcel Lapierre, um dos fundadores do movimento do vinho natural na França. Mas as nossas agendas ainda não se encontraram.

Quais os destaques desta edição?

Lis: São muitos. Entre eles, tem o Luís Henrique Zanini, da Era dos Ventos, um dos projetos mais influentes e pioneiros da história recente do vinho brasileiro natural. Tem o Zulmir e Neusa de Lucca, pioneiros da viticultura orgânica brasileira, em Caçapava do Sul. Tem a Krontiras, que é uma das referências da biodinâmica argentina, fundada pelo casal grego Konstantinos e Claudia Krontiras em Mendoza. Tem Daniela Lorenzo e José Luis González Bastías, que preservam uma das mais antigas propriedades vitivinícolas familiares no Maule, no Chile.

⁠Quando você começou, pouco se falava dos vinhos naturais. O que mudou neste tempo?

Lis: ⁠Mudou muita coisa. Hoje muita gente fala do assunto, mas infelizmente o que ainda me frustra é que se fala muito superficialmente. Não tenho orgulho de ser a única escritora no Brasil a ter um livro sobre vinhos naturais. Pelo contrário. Precisamos demais de profissionais realmente interessados, que dediquem sua vida a estudar de maneira profunda e formar outros profissionais. Vivemos uma época que vinho natural se tornou moda.

Equipe de realização do evento Foto: katiuska salles / divulgação

Quais os seus planos de expansão?

Lis: Nossa ideia é manter a feira com este mesmo tamanho em São Paulo, e aos poucos crescer para o Rio de Janeiro e outros países da América Latina. No futuro, a Naturebas se tornará uma plataforma de vendas direta dos produtores para os consumidores. Mais de 30% dos expositores que vêm para o Brasil sem um representante, acabam com contratos com alguma importadora. O meu novo projeto, a Caravana, uma nova agência de curadoria de viagens, tem um papel fundamental no desenho de viagens que usam sustentabilidade, gastronomia, cultura, vinhos e história.

Qual o futuro do vinho natural?

Lis: Vinho natural não tem volta. Seja por consciência agrícola, seja por querer um vinho que expresse realmente o terroir, seja porque ninguém aguenta mais os vinhos pasteurizados, seja por moda, o mundo do vinho natural só cresce e a consciência das pessoas também.

Feira Naturebas ocorre entre 27 e 28 de Junho

Precisa de ingressos antecipados

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