Dolly Parton: ela fez do excesso um estilo e do cabelo alto uma assinatura

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Dolly Parton tinha uma silhueta de contos de fadas. O cabelo subia como se desafiasse a gravidade, os saltos alongavam a pequena estatura, os cristais capturavam a luz e o corpo, desenhado por decotes, cintura marcada e roupas justas. Dolly entrava e simplesmente acontecia no palco. E assim, deixou uma das imagens mais reconhecíveis da cultura pop.

Morreu nesta terça-feira, 25, aos 80 anos, mas, para além das canções e dos milhões de discos vendidos, eterniza uma personagem estética que ajudou a mudar a relação entre o glamour e o excesso. Algo que veio muito cedo, quando ela entendeu que aparência também podia ser linguagem. E que, para uma mulher que queria ser ouvida, talvez o caminho não fosse diminuir o volume, mas sim aumentá-lo e muito, não só na música, mas também na moda.

A inspiração veio da “mulher da cidade”

A gênese da Dolly visual é quase cinematográfica. Quando menina, criada em meio à pobreza nas montanhas do Tennessee, nos Estados Unidos, ela observava uma mulher da região conhecida pejorativamente como a “town tramp”, algo como a “vadia da cidade”. Para ela, porém, aquela mulher era linda. Tinha cabelos grandes, maquiagem carregada, roupas justas e uma aparência que, aos olhos da garota, lembrava uma estrela de cinema.

Foi essa figura, que os outros tentavam esconder, que Dolly transformou em referência. Anos mais tarde, quando já era famosa, continuou defendendo a escolha. Conselhos para simplificar o cabelo ou abandonar as roupas consideradas “baratas” não faltaram. Mas ela simplesmente não obedeceu.

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A decisão acabou sendo muito mais sofisticada do que parecia na época. Dolly transformou aquilo que a sociedade classificava como vulgar em uma assinatura. O country glamour ganhou strass, franjas, botas, calças boca de sino, minissaias, decotes, cílios e, principalmente, volume. Nos anos 1970, ela pegou tendências já exuberantes e as levou ao limite: os penteados ficaram maiores, as roupas mais brilhantes e cada aparição no palco passou a parecer um acontecimento.

O “cabelo Dolly” antes do “MAGA hair”

Se existe hoje um vocabulário visual associado ao chamado MAGA hair — cabelos longos ou médios, muito volumosos, ondulados, brilhantes e impecavelmente produzidos — Dolly Parton é uma de suas antecessoras estéticas mais evidentes. Não necessariamente porque tenha criado o visual, mas porque já fazia, décadas antes, a versão maximalista desse cabelo que hoje se tornou um código reconhecível nos círculos conservadores americanos.

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VEJA já havia apontado Dolly como uma espécie de musa inspiradora do fenômeno ao analisar a ascensão do “MAGA hair” entre mulheres próximas ao universo de Donald Trump. O curioso é que o cabelo que hoje pode comunicar poder, conservadorismo e uma ideia nostálgica de feminilidade nasceu, em Dolly, de uma operação quase oposta: a menina que olhava para uma mulher julgada pela sociedade e pensava que queria ser como ela.

É aí que a história fica mais interessante. O mesmo cabelo pode carregar mensagens completamente diferentes dependendo de quem o usa e do contexto em que aparece. Em Dolly, o volume era personagem, humor, desejo, espetáculo e autonomia. No MAGA hair, ele passou a integrar uma gramática estética ligada a um determinado imaginário político.

Mas isso é porque Dolly sempre foi maior do que qualquer tentativa de encaixá-la em uma caixinha. Sua imagem pública atravessou divisões políticas e culturais justamente por combinar uma feminilidade ostensiva com inteligência empresarial, independência e uma postura de acolhimento.

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Dolly Parton no Grammy 2019: exagero como assinatura estética
Dolly Parton no Grammy 2019: exagero como assinatura estética (Kevin Mazur/The Recording Academy/Getty Images)

Do “brega” à passarela

Mas o que talvez seja mais revelador sobre sua influência é o caminho percorrido por seu estilo. Durante boa parte da carreira, Dolly era tratada como uma espécie de caricatura de si mesma: loira demais, maquiada demais, justa demais, brilhante demais. Ela fez do “demais” uma estratégia.

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A moda demorou, mas entendeu. Em 2019, Alessandro Michele levou a imagem de Dolly para o universo da Gucci, colocando seu rosto e seu cabelo como referência visual em peças da marca. A revista Vogue americana já havia chamado atenção para o modo como o repertório de cabelo, strass e franjas de Dolly funcionava como uma linguagem própria muito antes de o excesso voltar a ser celebrado pela moda.

A influência também atravessou a música. Lady Gaga, Kesha e Miley Cyrus aparecem entre as artistas apontadas como herdeiras de uma liberdade estética que Dolly Parton ajudou a abrir. Miley, sua afilhada, levou essa herança para o pop de maneira particularmente explícita, misturando rock, glamour e sensualidade — e já declarou ter buscado inspiração em Dolly para performances e escolhas de imagem. Mas veja bem: não se trata de dizer que toda mulher de cabelo volumoso ou roupa de strass está “vestida de Dolly”. A influência é mais profunda. Está na autorização para ser extravagante sem pedir desculpas ou ter que dar explicações.

O corpo como parte da fantasia

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Dolly também ajudou a subverter uma regra silenciosa da indústria do entretenimento: a de que mulheres precisam parecer “adequadas” para serem levadas a sério.

Ela fez o contrário. Decotes, cintura marcada, saltos altíssimos, unhas longas, maquiagem pesada e cabelos monumentais coexistiam com uma das carreiras de maior poder autoral da música americana. Em vez de suavizar a imagem para que a compositora fosse respeitada, Dolly fez questão de deixar a personagem ainda mais visível.

Em suas próprias palavras, quando diziam que aquele visual faria com que ninguém a levasse a sério como cantora ou compositora, ela decidiu permanecer exatamente como era. É uma ideia que hoje parece familiar, mas que ganhou força por personagens como ela, afinal de contas, a feminilidade não precisa ser o oposto de autoridade.

A Barbie caipira que virou arquétipo

Dolly chegou a batizar sua própria persona de Backwoods Barbie, uma espécie de “Barbie do interior”, e o apelido resume bem a operação estética que construiu. Ela juntou referências que pareciam incompatíveis: pobreza e luxo, religiosidade e sensualidade, country e pop, ingenuidade e inteligência, humor e ambição.

O resultado foi uma personagem que nunca precisou abandonar suas origens para se tornar global. E por isso, talvez, sua imagem continue tão atual. O retorno dos cabelos volumosos, da estética country, das botas, das franjas, do brilho e da feminilidade ostensiva encontra em Dolly uma espécie de ancestral. Mas sua influência vai além da tendência: ela está na cultura visual contemporânea e maximalista que, hoje em dia, é bastante autêntica.

Na real, Dolly Parton passou a vida fazendo aquilo que a moda costuma fazer depois de algumas décadas: pegar aquilo que parecia errado, vulgar ou excessivo e transformá-lo em desejo. Seu cabelo era alto. As unhas eram longas. Os saltos eram enormes. O brilho nunca parecia suficiente, mas isso é porque a estrela não queria parecer menos. E não era. Ela cabia inteira dentro da própria imagem. E agora, sem ela, a tendência será o cabelo continuar subindo.

A cantora Dolly Parton em 1976: cabelos mega volumosos
A cantora Dolly Parton em 1976: cabelos mega volumosos (David Redfern/Redferns/Getty Images)

Fonte: veja.abril

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