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A Shein se prepara para dar um dos passos mais importantes de sua trajetória no mercado financeiro. A gigante chinesa de moda online fará sua estreia na Bolsa de Hong Kong em 1º de setembro, com uma oferta de 280 milhões de ações e a expectativa de levantar até US$ 1,7 bilhão (cerca de R$ 8,7 bilhões). Com a operação, a companhia poderá atingir um valor de mercado de aproximadamente US$ 26,8 bilhões (R$ 137 bilhões).
O dinheiro captado deverá ser direcionado principalmente ao desenvolvimento tecnológico da empresa e à expansão de sua operação internacional. A abertura de capital em Hong Kong acontece depois de anos de obstáculos regulatórios que dificultaram os planos da Shein de chegar às Bolsas de Nova York e Londres.
O movimento ocorre em um momento particularmente sensível para a empresa. A Shein se transformou em um dos maiores fenômenos do varejo de moda digital ao combinar produção de baixo custo, velocidade e uma estratégia agressiva nas redes sociais. Com grande parte de sua cadeia produtiva concentrada na China, a companhia consegue colocar novos produtos no mercado em ritmo acelerado, acompanhando tendências e oferecendo peças a preços muito baixos.
A fórmula ajudou a conquistar principalmente consumidores jovens e impulsionou uma plataforma de comércio eletrônico que hoje alcança mais de 150 países. Em 2025, a empresa registrou faturamento de US$ 41,8 bilhões (R$ 214 bilhões), realizou mais de 1 bilhão de pedidos no mundo e obteve lucro líquido de US$ 2,1 bilhões (R$ 10,7 bilhões).
O desempenho, porém, começou a mostrar sinais de pressão. No primeiro trimestre do mesmo ano, a Shein registrou prejuízo líquido de US$ 99 milhões (R$ 508 milhões), resultado que a companhia atribuiu a fatores contábeis. Para os futuros investidores, há ainda outro ponto de atenção: a própria empresa admite que não há garantia de que conseguirá repetir as taxas de crescimento vertiginosas dos primeiros anos.
Pressão dos Estados Unidos e Europa
Parte do desafio está nos mercados que a Shein tentou conquistar com mais força. Nos Estados Unidos, uma mudança nas regras de importação afetou diretamente o modelo de negócios da companhia. Em 2025, o governo americano encerrou a isenção de tarifas para encomendas de baixo valor, mecanismo que favorecia o envio de pequenos pacotes internacionais, uma característica importante da operação da Shein.
Segundo a empresa, a alteração provocou um aumento significativo da carga tributária, agravado pelas tarifas adicionais aplicadas pelo governo de Donald Trump a produtos chineses. Para enfrentar a nova realidade, a companhia já considera alternativas que incluem repassar parte dos custos ao consumidor por meio de aumentos de preços.
Do outro lado do Atlântico, a situação não é muito diferente. A Shein vem sendo alvo de críticas e de medidas regulatórias na Europa, especialmente por questões ambientais, sociais e relacionadas ao modelo de consumo estimulado pela moda ultrarrápida.
A indústria têxtil é responsável por quase 10% das emissões globais de gases de efeito estufa, e a Shein é frequentemente apontada como símbolo de uma lógica baseada em lançamentos constantes, preços baixos e alto volume de descarte. A companhia também já enfrentou acusações relacionadas a violações trabalhistas. No ano passado, seu CEO afirmou à AFP que a empresa mantém uma política de “tolerância zero” em relação ao trabalho forçado. Na França, a Shein já recebeu multas e, no fim de junho, o Parlamento aprovou um projeto de lei destinado a conter a expansão das plataformas de moda rápida.
A estreia em Hong Kong, portanto, acontece em um momento de transição. A empresa chega ao mercado acionário depois de construir uma das operações digitais mais poderosas da moda global, mas terá agora de provar aos investidores que consegue sustentar seu crescimento diante de impostos maiores, regulações mais rígidas e uma crescente cobrança sobre os impactos ambientais e sociais de seu modelo. Ou seja, mais do que levantar bilhões, a abertura de capital representa um teste para a própria fórmula que transformou a Shein em gigante: produzir muito, lançar rápido e vender barato. O mercado agora vai acompanhar quanto essa equação ainda consegue render.
Fonte: veja.abril
