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Há roupas que, de tão marcantes e poderosas, não só entram para a história, mas ajudam a mudá-la. Uma calça comprida pode ser apenas uma calça — ou pode representar liberdade. Um smoking pode ser apenas alfaiataria — ou o símbolo de uma mulher que passou a ocupar espaços antes reservados apenas aos homens. Uma minissaia pode ser uma tendência — ou o retrato de uma juventude que decidiu, literalmente, encurtar as distâncias entre o corpo e a liberdade.
É por esse caminho que Glória Kalil conduz sua nova série no YouTube, “Os estilistas que mudaram a maneira de as pessoas viverem”. A proposta é olhar para a moda além da roupa: para os criadores que perceberam mudanças sociais antes que elas se consolidassem ou que souberam traduzir, em tecido e silhueta, aquilo que uma sociedade já estava — ou não — pronta para experimentar.
“Não é só se vestirem, não. Mudaram os hábitos das pessoas, mudaram a vida das pessoas”, contou Glória à coluna Vitrine, de VEJA. Para construir a seleção, ela estabeleceu um critério: concentrar-se principalmente em estilistas nascidos no século XX. “Cometi três grandes injustiças, com três nomes fundamentais que, embora anteriores, não há como ignorar — Charles Frederick Worth, considerado o pai da alta-costura, Paul Poiret e Coco Chanel — mas que pontuo na introdução”, explicou.
Mais que moda, impacto e comportamento
A partir daí, a série percorre algumas das grandes viradas da moda moderna. Christian Dior é o protagonista do primeiro capítulo que entra no ar nesta quarta-feira, 19, aparecendo pelo impacto do “New Look” no pós-Segunda Guerra Mundial, quando suas saias volumosas, cinturas marcadas e feminilidade exuberante responderam ao desejo de abandonar os anos de contenção. Para Glória, Dior “sacou que ia ter uma grande virada” e conseguiu antecipar um espírito que tomaria conta daquele momento.

Yves Saint Laurent surge em seguida não apenas pelo talento precoce — assumiu a direção criativa da Dior aos 21 anos, após a morte de Christian Dior —, mas sobretudo pelo smoking feminino. A peça ajudou a romper uma fronteira que parecia banal hoje, mas era bastante concreta na época: a ideia de que mulheres poderiam usar calças à noite, em restaurantes, hotéis e ocasiões formais. Chanel já havia levado a calça ao universo feminino durante o dia, mas Saint Laurent a transformou em instrumento de emancipação.

Nos anos 1960, a minissaia marca outra revolução. A disputa histórica pela autoria entre André Courrèges e Mary Quant aparece como pano de fundo para uma mudança maior: a juventude se consolidava como força cultural e consumidora, exigindo roupas que correspondessem a uma nova ideia de liberdade. “Essa foi a grande virada da minissaia”, resume Glória.

A série também atravessa o Japão dos anos 1980 para encontrar Rei Kawakubo e Yohji Yamamoto, responsáveis por desafiar a sensualidade tradicional da moda ocidental. Em vez de valorizar curvas, pele e estrutura corporal, suas roupas desconstruídas deslocaram o foco para a inteligência, a atitude e a própria roupa como objeto. É quase como se a sensualidade tivesse migrado do corpo para a cabeça.

Jean-Paul Gaultier entra por outra porta: a do questionamento de gênero. Ao levar um homem de saia à passarela, o estilista antecipou discussões que décadas depois ocupariam o centro do debate sobre identidade e expressão. Giorgio Armani, por sua vez, aparece como um personagem aparentemente improvável nessa lista. Foi justamente sua alfaiataria que, ao estruturar o corpo feminino e suavizar a rigidez do masculino, acompanhou a entrada definitiva das mulheres no ambiente profissional e no chamado “power dressing”.

E então chega Miuccia Prada, responsável por uma das provocações mais interessantes da história recente da moda: colocar em xeque a própria ideia de bom gosto. Para Glória, sua importância está justamente em questionar quem determina o que é bonito, elegante ou aceitável — e por que determinadas combinações consideradas “feias” podem se tornar sofisticadas quando vistas por outro olhar.

Mais do que uma aula de história da moda, a série propõe uma espécie de leitura do mundo através das roupas. E a escolha do YouTube também faz sentido dentro dessa proposta. Segundo ela, a ideia é produzir um conteúdo que possa ser consultado, revisto e descoberto ao longo do tempo, em vez de simplesmente acompanhar o calendário veloz das tendências. O formato será de seriado: depois do primeiro episódio, novos capítulos entram no canal Gloria Kalil a cada 15 dias, permitindo acompanhar, um a um, os estilistas selecionados e as transformações que ajudaram a provocar.
Para quem gosta de moda, é uma oportunidade de rever alguns dos nomes mais importantes da indústria sob uma perspectiva menos óbvia. Parar de olhar apenas para a roupa e descobrir o que ela diz sobre o mundo.
Os episódios da série estarão disponíveis no canal de Glória Kalil no YouTube, que reúne seu conteúdo de moda, estilo e comportamento.
Fonte: veja.abril
