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A moda e a beleza adoram olhar para frente, mas quase sempre buscam inspiração no passado. Ela reaparece nas passarelas em forma de drapeados gregos, coroas douradas, bordados renascentistas, cabelos adornados por flores, joias monumentais, maquiagens vindas de séculos e séculos atrás ou silhuetas que parecem saídas de retratos antigos. Por isso faz tanto sentido encontrar moda e beleza (muito além da arte) em um lugar onde poucos esperam vê-las desta forma: no Louvre.
Muita gente não sabe, mas o maior museu do mundo tem um belíssimo roteiro permanente, criado em parceria com o Grupo L’Oréal, que convida os visitantes a percorrer mais de 100 mil anos de história da beleza. Batizado de “De Toutes Beautés! ” (“De Todas as Belezas”), o percurso reúne 108 obras para mostrar como maquiagem, penteados, cosméticos, adornos, roupas e padrões estéticos sempre foram muito mais do que vaidade. São códigos sociais, símbolos de poder, identidade e pertencimento — exatamente como a moda e a beleza continuam sendo até hoje.
O roteiro foi organizado em três grandes temas: os rituais de beleza, os ideais estéticos e representações do belo de cada época e a maneira como a aparência traduz as transformações das sociedades (da Mesopotâmia e Egito até a Europa clássica). Em vez de apenas observar pinturas e esculturas, no entanto, o visitante passa a enxergar detalhes que dialogam diretamente com as coleções atuais. As joias exuberantes lembram o maximalismo que voltou às passarelas; os tecidos drapeados seguem inspirando casas como Dior e Alaïa; cabelos ornamentados e flores aplicadas remetem às propostas românticas vistas recentemente em desfiles de alta-costura. A história da moda e da beleza, afinal, nunca começa do zero — ela revisita continuamente o que a arte preservou.
Curiosamente, a protagonista mais famosa do museu ficou de fora. A “Mona Lisa” não integra o percurso. Mas a escolha é deliberada. Embora seja provavelmente a maior influenciadora da história da arte — uma imagem reproduzida milhões de vezes, cercada por filas de visitantes e permanentemente reinterpretada pela cultura pop — a intenção do projeto é deslocar o olhar para obras menos óbvias, mas igualmente fundamentais para compreender como diferentes povos enxergaram a moda e a beleza ao longo do tempo.

Entre as obras do roteiro estão objetos funerários do Egito, como o “Sarcófago dos Esposos” (século II) e “O espelho e os objetos funerários de Nefatiabet”, que revelam a importância dos cosméticos na vida — e também na morte —, esculturas gregas que estabeleceram referências de harmonia e proporção como “Mercure Richelieu” (Mercúrio), além do célebre “Hermafrodito Adormecido”, escultura em mármore do período helenístico (século II a. C. ) que retrata o filho de Hermes e Afrodite, e cuja representação do corpo e da identidade mostra que discussões sobre gênero e beleza atravessam séculos e continuam absolutamente contemporâneas; a pintura “Vênus e as Três Graças Oferecendo Presentes a uma Jovem”, do italiano Sandro Botticelli, datado de cerca de 1483–1486, em que supostamente se apresenta o primeiro mega-hair da história.

A experiência ganha uma camada tecnológica por meio de um aplicativo acessado por QR Code. Algumas obras literalmente “contam” suas histórias em primeira pessoa, aproximando o público de narrativas que ajudam a entender como os padrões de beleza foram construídos, questionados e transformados ao longo das civilizações.
O mais interessante, porém, é que não é só uma visita temática, mas uma iniciativa que reforça uma ideia que a moda conhece bem: tendências passam, mas referências permanecem. Nenhum estilista cria isoladamente. Todo desfile conversa com a pintura, a escultura, a arquitetura e a história. Quando uma passarela resgata um drapeado clássico, uma coroa dourada ou um penteado escultural, ela também presta homenagem a um patrimônio visual construído ao longo de milhares de anos.
No Louvre, a moda ou a beleza não estão expostas em manequins. Estão escondidas nas pinceladas, no mármore, no ouro, nas tranças, nos véus, nos rostos e nas joias. Basta mudar o olhar para perceber que, antes de vestir ou ornamentar as passarelas, já existiam e fizeram a própria história.
Fonte: veja.abril
