Por que o século 18 ainda desperta fascínio

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A estética do século 18, marcada pela opulência e refinamento, ressurge em Paris com duas exposições que exploram a vida das elites e a evolução da moda feminina.
A primeira, “Um dia no século 18 — Crônica de um palacete”, no Museu das Artes Decorativas, recria a rotina de uma residência aristocrática da época, destacando a “arte de viver” à francesa com mais de 550 objetos decorativos.
A segunda, “A moda no século 18 — Um legado reinventado”, no Palais Galliera, analisa a transformação do vestuário feminino, desde corpete de barbatanas até silhuetas mais naturais, e a influência de Maria Antonieta como ícone de moda.
Ambas as exposições revelam como o luxo e a moda do século 18 continuam a inspirar estilistas contemporâneos, com referências que perduram até hoje.
A popularidade de Maria Antonieta se mantém, com futuras exposições programadas em Fontainebleau e Versalhes.

* Resumo gerado por inteligência artificial e revisado pelos jornalistas do NeoFeed

Paris — A época da rainha Maria Antonieta está em voga em Paris. Entre a ostentação das residências aristocráticas e o refinamento das vestimentas que definiam status e poder, o século 18 deixou como herança uma estética tão marcante quanto as transformações desse período provocadas pelas ideias iluministas e pela Revolução Francesa.
Essa efervescência criativa ressurge em duas exposições que apresentam o modo de vida das elites daquele tempo e as mudanças na moda feminina que acabaram inspirando estilistas contemporâneos.
Um dia no século 18 — Crônica de um palacete, no Museu das Artes Decorativas (MAD) de Paris, garante uma imersão na intimidade de uma residência aristocrática da capital francesa — o “hôtel particulier”, em francês, como são chamadas essas construções que existem até hoje — nos anos de 1780, pré-Revolução Francesa.
A exposição, em cartaz até 5 de julho, mostra um dia típico da família e sua rotina na mansão, do despertar ao dormir, incluindo atividades de lazer como jogos de tabuleiro e tocar harpa ou piano ou ainda momentos para rezar. O visitante percorre os diferentes espaços da casa, reconstruídos com riqueza de detalhes e objetos, como se fosse alguém próximo dos moradores.
Cada local do palacete, onde trabalham 15 empregados em média, é decorado com requinte, ilustrando a luxuosa “arte de viver” à francesa, expressão cultural que associa o cotidiano à estética e ao prazer refinado.
Com mais de 550 objetos — a grande maioria do acervo do museu e muitos raramente exibidos — a exposição reúne todas as áreas das artes decorativas — mobiliário, porcelanas, pratarias, papeis de parede, painéis de madeira esculpidos, joias e acessórios de moda.
Até hoje, na França, o século 18 é a grande referência de luxo na área de decoração de interiores e de objetos para mesa, como louças e pratarias, por causa não só do estilo, mas também da utilização de materiais nobres e raros. A cadeira “medalhão” de Louis XVI, com encosto oval, inspirou a cadeira da Dior e o emblema da marca e também o modelo Ghost de Philippe Starck.
Paliteiro cravejado de pedras preciosas, lamparinas em bronze, pote de mostarda em prata e taças de champagne em jade são alguns exemplos desse refinamento. “O que distinguia essa camada rica era a extrema abundância de objetos e móveis. Os mercadores criavam o desejo incessante de compras”, diz ao NeoFeed Sophie Mostsch, uma das curadoras da exposição.
Ela cita entre os objetos mais emblemáticos a “mesa de carruagem”, dobrável e totalmente esculpida. Só existem duas no mundo. A peça podia ser utilizada durante o transporte para uma refeição ou jogo de cartas e servir ainda para um piquenique na estrada. “Naquela época, ter uma carruagem era um símbolo de grande riqueza, o equivalente a ter um avião privado hoje”, conta Motsch.

Apresentado na coleção da Chanel de 1992/1993, o vestido de noiva criado por Karl Lagerfeld para a Chanel foi inspirado no figurino de Maria Antonieta (Foto: Palais Galliera/Paris Musées/Nicolas Borel)

Comprado pelo Pallais Galliera em um leilão, o corpete de Maria Antonieta abre a exposição “A moda no século 18 — Um legado reinventado” (Foto: Palais Galliera/Paris Musées/Nicolas Borel)

A exposição no Museu de Artes Descorativas traz cerca de 550 objetos entre mobiliário, pratarias, papeis de parede, painéis de madeira esculpidos, joias e porcelanas, como esse enfeite de mesa (Foto: Les Arts Décoratifs/Jean Tholance)

A cadeira medalhão Louis XVI influenciou por exemplo o arquiteto e designer francês Philippe Starck na criação da peça Louis Ghost (Foto: kartell.com)

Outra peça destacada por ela é uma nécessaire de bolso com frasco de perfume, caderninho, pinça e um pequeno lápis que servia de um lado para escrever e do outro para se maquiar.
O ambiente de luxo, calmo, limpo e confortável dessas mansões da elite parisiense, com sua entrada majestosa, contrastava totalmente com o exterior. Em uma época em que não existiam calçadas, as ruas eram cobertas de lama, sujas, mal iluminadas, com cheiros horríveis pela falta de saneamento, barulhentas em razão dos gritos incessantes dos mercadores e também perigosas, com gangues de assaltantes — cenário ilustrado pelo escritor Victor Hugo.
“A mansão era uma barreira simbólica e também física. A residência, ao fundo de um imponente pátio de entrada e com jardim na parte de trás, fazia com que os moradores ficassem isolados do mundo”, explica Motsch. Um espaço de intimidade e conforto e ao mesmo tempo um símbolo de poder.
Quando a silhueta feminina mudou
O refinamento das artes decorativas no Século das Luzes se estendeu também à moda, com ornamentos de passamanaria, rendas e fitas nos tecidos e acessórios diversos, como perucas exuberantes que levaram à profissionalização de cabeleireiros.
Em um tempo em que se arrumar podia levar até quatro horas e que a banheira era privilégio dos mais ricos (além da necessidade de ir buscar água era preciso um equipamento em cobre para esquentá-la), os detalhes da roupa eram uma maneira de mostrar sua posição social, diz ao NeoFeed Pascale Gorguet Ballesteros, curadora da exposição A moda no século 18 — Um legado reinventado no Pallais Galliera, até 12 de julho.
Os corpetes com barbatanas — que comprimiam fortemente os seios, mas permitiam a respiração pelo ventre — exigiam que houvesse alguém para vestir a pessoa e também limitavam os movimentos. Era sempre preciso ter empregados por perto, acrescenta Ballesteros.
O vestuário evoluiu radicalmente no século 18 nos anos que antecederam a Revolução Francesa de 1789. O corpo feminino passou de uma forma que lembra dois triângulos invertidos reunidos pelas pontas — com o corpete de barbatanas que afunilava até o ventre e quadris extremamente largos ou falsos bumbuns realizados com armações que ampliavam a parte inferior —  a uma silhueta natural com vestidos retos e longilíneos.
Tecidos com estampas carregadas e cores fortes da primeira parte do século 18 foram substituídos por peças monocromáticas e tons pastéis nos 1770 e 1780, época em que as mercadoras de moda, cada vez mais numerosas, oficializaram a profissão em uma importante corporação e passaram a ditar estilos. É um século que muda tanto a silhueta feminina como a maneira de vender roupas, diz a curadora.
“Maria Antonieta é vista hoje como um ícone de moda, mas ela seguia as orientações das costureiras parisienses e das mercadoras”, destaca Ballesteros. A exposição começa justamente com uma peça raríssima da rainha, um corpete adquirido pelo museu em um leilão.
A moda do século 18, mesmo tendo desaparecido totalmente em alguns períodos, serviu de inspiração nos anos 1950, quando após a Segunda Guerra Mundial a moda francesa buscava recuperar seu prestígio internacional.
O refinamento da época e o know-how na arte de tecidos, bordados e rendas, além de silhuetas com busto estreito, cintura marcada e saias volumosas, inspiraram costureiros como Christian Dior.
Até hoje essa moda é reinterpretada, como mostra a última parte da exposição, com inúmeros vestidos contemporâneos de marcas como Chanel e Dior.
O interesse acentuado por Maria Antonieta deve continuar. A rainha será tema de uma exposição no castelo de Fontainebleau, nos arredores de Paris, a partir de junho, e de uma mostra no Palácio de Versalhes em setembro para celebrar os 20 anos do filme de Sofia Coppola.

Fonte: Neofeed

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