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Ao comandar suas célebres campanhas militares, o imperador francês Napoleão Bonaparte (1769-1821) logo percebeu um detalhe que fazia diferença não apenas subjetiva no moral das tropas: o modo como os soldados e oficiais se vestiam insuflava valores fundamentais em seu Exército, como o orgulho nacional e a ênfase na hierarquia. Símbolo máximo dessa preocupação era seu casaco com ombros altivos e fileiras chamativas de botões. A peça, curiosamente, atravessou a história até ganhar novo significado mais prosaico, mas não menos impactante, no século XXI: a conversão em ícone da moda. Agora, em tempos de guerra na Ucrânia e no Irã, o velho fardão napoleônico está de volta às passarelas — e, claro, ao guarda-roupa das celebridades.

A jaqueta napoleônica teve momentos de glória renovada em desfiles recentes de inúmeras maisons internacionais — de Dior a Alexander McQueen, de Balmain a Ann Demeulemeester. Para além disso, dados recentes de plataformas de consumo apontam um aumento superior a 40% nas buscas por termos como “military jacket” e “napoleonic jacket”. Mais que uma tendência estética, o novo culto ao adereço militar revela um desejo claro por vestimentas com presença e significado. Assim, a despeito da origem bélica, a peça se transforma em ferramenta de construção de imagem. Um gesto calculado, quase performático, que dialoga diretamente com o controle de narrativa. É quase uma leitura inconsciente: mesmo rejeitando o conflito, absorvemos sua linguagem visual de organização, a ideia de conquista e a noção de pertencimento traduzidas em botões dourados, martingales e cortes estruturados.

É aí que entra a cultura pop como ponte fundamental de inspiração. Muito antes dos desfiles atuais, o uniforme militar já havia sido apropriado como símbolo de espetáculo e protagonismo nos anos 80 e 90, por nomes como Madonna, Michael Jackson e Freddie Mercury. Nos palcos, a estética deixou de falar de guerra para comunicar magnetismo, liderança e presença — uma armadura cênica para quem domina a atenção. Agora, em 2026, essa herança é reinterpretada por uma nova geração que traduz o código militar à sua maneira. Dua Lipa aposta em versões cropped e vibrantes, trazendo um maximalismo pop quase irreverente. Jenna Ortega e Zendaya caminham por leituras mais experimentais e ousadas, enquanto Kate Middleton mantém a referência em um registro contido, elegante e aristocrático. Cada uma delas desloca o símbolo de seu contexto original e o reinsere em narrativas pessoais.

Nas passarelas, o movimento acompanha essa transformação. A rigidez dá lugar a tecidos mais leves, cores inesperadas e cortes que flertam com o sensual. Sai o rigor absoluto, entra um “descontrole controlado” que equilibra disciplina e atitude, estrutura e liberdade. Há ainda um componente geracional importante. No TikTok, jovens redescobrem peças vintage e recriam o uniforme com olhar autoral, desmontando a ideia de padrão e reconstruindo a estética militar a partir da individualidade. O que antes era símbolo de comando coletivo passa a representar controle sobre a própria imagem, sobre a própria história. Talvez seja isso que explique a força da tendência: num mundo de caos e violência, é preciso estar vestido para a guerra.
Publicado em VEJA de 17 de abril de 2026, edição nº 2991
Fonte: veja.abril
