Quarta geração de uma família de confeiteiros, Andrea Tortora (AT Pâtissier) sabia que passaria a vida com a mão na massa, mas talvez não tenha imaginado que alcançaria diversas premiações até os 30 anos de idade e nem que, num domingo à noite, serviria cinco sobremesas de uma tacada só no restaurante italiano mais exclusivo de São Paulo, o estrelado e discreto Fame.
Claro, a dificuldade não consistiu em fazer os doces. Mas como servi-los depois de nove passos assinados pelo anfitrião, Marco Renzetti, e pela premiada chef paranaense, Manu Buffara? Até o momento em que Andrea empratou mini “monoporções” de tarte tatin acompanhadas por um gelato intensamente abaunilhado, mas não muito gelado, por mais irônico que isso possa soar, quinze comensais já haviam comido ostra, risoto, massa e carne de porco.
A bem dizer, elas haviam vivenciado com todos os sentidos uma espécie de duelo de cavaleiros, ou melhor, de cozinheiros. Não, se uma coisa não existiu na noite do último domingo, 09 de março, foi climão: a cozinha lotada se divertia com as receitas que iam sendo finalizadas, seja provando, seja ajudando o colega a cargo do serviço.

Risoto de cherne e guanciale do chef Marco Renzetti no Fame Osteria Foto: Fernanda Meneguetti
Ainda assim, a cada incursão de prato à mesa, sublimada pela sommelière e chef de sala, Erika Renzetti, que soube tirar proveito do savoir-faire francês, parecia se tratar da candidatura ao melhor prato da noite – ou pelo menos, uma tentativa de vencer o anterior. Embate de elegância e equilíbrio para esgrimista nenhum botar defeito!
Um exemplo? A alcachofra de Manu, com linguiça blumenau, remetia ao clássico da culinária judaica romana, a carciofi alla giudia, e soava como sofisticada provocação ao anfitrião, romano até dizer chega. Marco, por sua vez, não perdoava: se a paranaense levava o salão ao delírio com um creme de feijão-fradinho que escondia ovas de salmão e exibia um buquezinho de rúcula abraçada por uma pétala de pera, lá vinha ele com um risoto impecável, desses em que cada grãozinho de arroz conta, como os bons sushis, e em que caldo, temperatura e cremosidade separam chefs de maestros.
A tristeza é que jantares assim não se repetem a torto e a direto e sabe-se Deus quando o público paulistano terá outra chance de provar o Gianduia Takoyaki e a Torta Bella de Andrea. O primeiro, um moelleux au chocolat com um coração de chocolate e pasta de avelã assado como os famosos bolinhos de polvo japoneses; a segunda, uma homenagem do premiado confeiteiro às mulheres italianas em forma de uma massa fermentada muito fina e amanteigada, que lembra um panetone, inclusive pelo perfume de raspas de laranja.

Torta Bella, homenagem do chef Andrea Tortora às mulheres italianas, foi servido no estrelado Fame. Foto: Fernanda Meneguetti
O banquete ao valor de R$ 2000 foi o quinto de uma série iniciada no ano passado, onde Erika e Marco recepcionam grandes convidados de fora. Além da dupla de ontem, já passaram pelo Fame Osteria Antonio Galapito (Prado, Lisboa), Alessandro Miocchi (Retrobottega, Roma), Quique Dacosta (Quique Dacosta, Dénia) e Ciro Scamardella (Pipero, Roma).
“O Fame é um restaurante nascido como experiencia absolutamente livre e criativa. A verdade é que nada foi planejado. Amigos foram manifestando interesse e os convidamos para cozinhar junto. Tudo de forma muito orgânica e espontânea”, conta o chef.
Quem lembra que a primeira osteria da dupla, o saudoso Pettirosso, era na casa deles, nem estranha a vocação ao acolhimento. Se vão ter outros encontros desse naipe? “Que vem mais gente este ano é certeza”, confirma Erika, sem entregar nomes. Porém, por parte da reportagem, arrisca-se um palpite: Matias Perdomo, chef do Constrate, restaurante uma estrela michelin de Milão, é bem capaz de desembarcar por aqui.
Fame Osteria
R. Oscar Freire, 216, Jardins. Qua. a sáb., das 20h às 00h. Tel.: (11) 99364-4442
