Onde comer no Copan? Um dia pelo edifício icônico de São Paulo

GastronomiaOnde comer no Copan? Um dia pelo edifício icônico de São Paulo

O Copan é um dos edifícios mais conhecidos de São Paulo, mas também vem se consolidando como um endereço de passagem obrigatória para quem circula pela gastronomia da cidade. Entre bares, restaurantes, sorveteria e cafés instalados em seus térreos e galerias, o prédio reúne hoje uma cena diversa que se estende ao longo do dia.

Nesta reportagem, Paladar fez um roteiro pelo Copan ao longo de um dia, acompanhando o movimento que vai do café da manhã ao fim da noite. A partir desse percurso, fomos conversar com chefs e cozinheiros que estão à frente desses espaços para entender não apenas o que servem, mas também como é estar dentro de um edifício que hoje faz parte da vida gastronômica do centro de São Paulo.

Copan, uma cidade dentro da cidade que favorece a boa mesa

O Copan se destaca na paisagem de São Paulo não só por ter sido projetado por Oscar Niemeyer, mas pela forma curva e serpenteante, que o tornou um dos edifícios mais reconhecíveis da arquitetura moderna brasileira. Em entrevista a Paladar, o arquiteto e urbanista Nabil Bonduki explica que essa originalidade o afasta dos modelos mais rígidos e envidraçados predominantes na cidade e o consolida como referência urbana.

Além da forma, o edifício se diferencia pela relação com o espaço público, já que as galerias no térreo permitem circulação contínua entre interior e exterior, criando uma extensão da rua. Segundo Bonduki, essa permeabilidade transforma o Copan em uma “cidade aberta”, com comércio, serviços e uma presença constante de bares, cafés e restaurantes, o que mantém o fluxo de pessoas e reforça seu caráter de espaço vivo no centro da cidade.

O início: quando uma onça decide ocupar o centro

O chef Dagoberto Torres, um dos nomes mais recentes a chegar ao Copan com o Brisa do Baru, diz que a mudança para o endereço icônico era um desejo antigo, mas aconteceu dentro de um movimento que já vinha se formando.

“A gente chegou surfando uma onda que já existia aqui no centro”, diz, em referência à pioneira Janaína Torres, chef do Bar da Dona Onça, como um dos nomes centrais dessa transformação que trouxe boa gastronomia para o centro da cidade. “Ela está aqui há muito tempo, acreditou no centro quando poucos acreditavam e preparou o terreno para que muitos de nós pudéssemos estar aqui.”

Janaína Torres, chef do Bar da Dona Onça Foto: Daniel Teixeira/Estadão

Em entrevista a Paladar, Janaína conta que a relação com o Copan começa muito antes da abertura do restaurante. Ela decidiu abrir o Bar da Dona Onça ali em 2006, no ano em que nasceu seu primeiro filho, em um lugar que sempre fez parte da sua vida. “Era um lugar que ninguém estava pronto para voltar a frequentar porque tinham medo do tráfico de drogas e da prostituição. Assim era o Copan, um lugar cheio de diversidade e vulnerabilidade”, diz.

Ela cresceu no entorno do edifício, entre a infância vendendo lanches, a convivência com a mãe — que produzia roupas de couro para mulheres da noite, travestis e cantores — e a circulação por espaços ligados ao movimento cultural e underground da cidade. “Era esse o lugar que eu queria, porque tinha a ver com a minha identidade, com a minha formação das ruas, dos bares, da boate, do hip hop, do Vai-Vai e de tantos outros movimentos que faziam parte da minha vida.”

“Ouvi que ninguém iria estar no Copan, ouvi que eu era louca”, lembra.

A abertura do Bar da Dona Onça nasce desse encontro entre risco e pertencimento, em um lugar que, segundo ela, sempre teve vida própria. Hoje, quase duas décadas depois, Janaína vê o Copan em outra fase.

“Sinto-me feliz com a nova vizinhança. Não existe revitalização do centro, porque aqui sempre teve vida. Mas podemos nos unir e tornar esse lugar cada vez mais social”, afirma.

Um dia pelo Copan

A vizinhança citada por Janaína é mesmo digna de visita, mistura de sabores e oferta de opções variadas por entre as curvas gastronômicas do Copan. Tanto que a reportagem de Paladar montou um roteiro de ponta a ponta, para um dia inteiro, com café da manhã, beliscos, almoço, sobremesa, jantar e saideira.

Nota da redação: entre uma parada de sabor e outra, vale incluir outros passeios pelo térreo e entorno, como a livraria Megafauna, com seus encontros e debates, a galeria Pivô, com exposições temporárias, e o comércio que ocupa o edifício. O antigo Cine Copan, agora rebatizado como Nu Cine Copan, também entra no percurso. Em processo de reabertura, o espaço recebe programações como Hamlet, Sonhos que Virão, adaptação de Shakespeare com o ator Gabriel Leone e direção de Rafael Gomes.

É só conferir:

Café da manhã e brunch no restaurante Cuia

O percurso pelo Copan pode começar pelo Cuia, instalado dentro da livraria Megafauna, no térreo do edifício. O espaço nasceu a partir de um convite da livraria à chef Bel Coelho e começou como café antes de se consolidar como restaurante sob comando do chef executivo Caio Pablo, que este ano recebeu pela terceira vez o selo Bib Gourmand do Guia Michelin, com foco na culinária brasileira a partir de ingredientes nativos.

Cuia restaurante Foto: Laís Acsa

Caio explica que a ideia é trabalhar ingredientes brasileiros e aproximar o público desse repertório. “A gente tenta trazer ingredientes, muitos deles pouco conhecidos ou de difícil acesso em São Paulo”, diz.

O cardápio não segue uma lógica rígida de horários e muda conforme o dia. “Aqui você pode comer um baião de dois às dez da manhã e tomar café da manhã à noite”, diz Caio. Entre os pratos estão o tostex com queijo da Mantiqueira e da Canastra com geleia de jabuticaba R$ 35, o cuscuz de milho com creme de queijos, chips de batata doce e ovo frito R$ 37 e o baião de dois com feijão manteiguinha, pimenta de cheiro, abóbora e linguiça artesanal R$ 61.

Brunch no restaurante Cuia Foto: Laís Acsa

Ele conta que a relação com a livraria define parte da experiência. “As pessoas vêm para comprar um livro e acabam comendo, ou o contrário. Uma coisa ficou ligada à outra”, diz. “É uma troca constante entre comida e leitura.”

Serviço: Av. Ipiranga, 200 – loja 48 | | ter. a sex.: 10h–22h / sáb.: 10h–23h / dom.: 10h–17h / seg.: 10h–16h | Instagram: @cuia_restaurante

Para beliscar no Bar da Dona Onça

No almoço, o Bar da Dona Onça ocupa o térreo do Copan sob comando da chef Janaína Torres, um dos nomes mais reconhecidos da gastronomia brasileira contemporânea e responsável por impulsionar a cena gastronômica no centro de São Paulo. Em 2024, ela foi eleita a Melhor Chef Mulher do Mundo pelo ranking The World’s 50 Best Restaurants. Este ano, o restaurante também passou a integrar o Guia Michelin, reforçando sua presença entre os endereços mais disputados da cidade.

Picadinho do Bar da Dona Onça Foto: LEO MARTINS

O cardápio mistura referências de boteco e cozinha brasileira, com pratos que já fazem parte da identidade da casa. Entre os “comer com as mãos” estão a coxinha da Onça e o tartar de carne com pão preto, maionese de mostarda e rabanete, conhecido como o “xodó” da chef (R$ 74), além da coxinha de galinha caipira “trem bão” (R$ 46). Entre os clássicos aparecem o picadinho com arroz, feijão e farofa, o tartar de banana e o pastel (R$ 87). Para beber, a caipirinha “Onça Pintada” mistura tangerina e maracujá e chega com pintinhas da fruta que lembram a pele de uma onça (R$ 44).

Serviço: Av. Ipiranga, 200 – 27 e 29 | ter. a qui.: 12h–23h / sex. e sáb.: 12h–00h / dom.: 12h–18h / seg.: 12h–23h | Instagram: @bardadonaonca

Almoço no Orfeu

O Orfeu aparece como uma extensão natural do Copan. Instalado ao lado do edifício, o bar acompanha o fluxo de gente que passa pelo centro, entre moradores, trabalhadores e visitantes, em um ambiente que remete à boemia brasileira, com mesas cheias, conversas altas e movimento constante ao longo do dia.

A cozinha segue uma linha bem brasileira, com receitas tradicionais e combinações conhecidas. Durante a semana, os executivos do dia variam entre R$ 49 e R$ 79, com pratos como costelinha com xerém às segundas, galinhada às terças, bobó de camarão às quartas, cupim às quintas e espaguete com frutos do mar às sextas. No cardápio mais amplo, aparecem opções como o baião de dois vegetariano (R$ 49), o picadinho e a costela de 16 horas, um dos sucessos da casa (R$ 109).

Há poucos meses na casa, o chef Vanilçon já percebeu o perfil do entorno. “Aqui é um público bem fiel. Todo dia está cheio, com gente conversando, trocando ideia”, diz. Ele destaca também o caráter do centro. “É um lugar muito acolhedor, que atrai tanto quem mora aqui quanto quem vem de fora. Tem muito turista também.”

Serviço: Av. Ipiranga, 318 | ter. a qua.: 12h–00h / qui.: 12h–01h / sex. e sáb.: 12h–02h / dom.: 12h–01h | Instagram: @orfeu

Sobremesa na Tem Umami!

A poucos passos dali, a sorveteria Tem Umami! aparece como uma parada rápida no meio do fluxo do Copan. Criada por Juliana Primon e seus sócios, a casa começou com um café e panetones antes de ganhar a versão de sorveteria. “A gente usa só produtos naturais. O sorvete de coco, por exemplo, é feito na mão, no voal, daquele jeito que se faz em casa”, diz.

O sorvete é no estilo soft, com um cardápio enxuto que muda com frequência. Entre os sabores, aparecem o já conhecido sorvete de pudim, que acabou ficando fixo no menu (R$ 35), além do de baunilha (R$ 26) e o de quindim (R$ 32). “A gente usa uma máquina que normalmente é usada para sorvete industrializado, mas coloca ali uma base totalmente natural”, explica.

Sorvetes de pudim e de quindim da Tem Umami. Foto: Divulgação/Tem Umami Foto: Divulgação/Tem Umami

A escolha pelo Copan também veio dessa relação com o centro. “A gente se apaixonou pelo prédio, pela arquitetura, pela história. E por essa vida que já existia aqui”, diz Juliana. “Essa ideia de revitalizar não faz muito sentido pra gente, porque o centro sempre teve vida.”

Serviço: Av. Ipiranga, 200 – loja 74 | qua. a dom.: 12h–20h / seg. e ter.: fechado / sex. e sáb.: 12h–20h | Instagram: @temumami

Fim de tarde no Paloma, bar de vinhos

O Paloma ocupa a calçada do Copan e também o salão interno de piso de caquinho, em um ambiente mais despojado. À frente está a chef Gabi Guerriero, que constrói um bar de vinhos com inspiração espanhola, mas sem rigidez. “O nosso eixo é a Espanha, mas eu gosto de trazer um pouco do sul, da costa atlântica, do Mediterrâneo, de um jeito delicado, sem ser caricatural”, diz. “A pessoa está comendo aqui, mas pode lembrar desses lugares.”

Novo menu do Paloma traz sabores ibéricos aos pés do Copan Foto: Ana Weber/Divulgação

Entre as entradas, aparecem o brócolis tostado com amêndoas (R$ 42) e o escabeche de sardinha na massa folhada com ricota, tapenade e picles de cebola (R$ 59). Nos pratos maiores, o porco ibérico com feijão branco e escarola à la plancha (R$ 89).

A carta reúne cerca de cinquenta rótulos, entre tintos, brancos, rosés, laranjas e espumantes, com opções nacionais e internacionais que variam de R$ 140 a R$ 280. O vinho do dia é servido em copo por R$ 36, mantendo a proposta mais descomplicada.

O nome da casa faz referência à palavra espanhola para pomba, figura comum no centro. “A gente quis trazer essa alma, de ser só mais uma pomba no centro da cidade. E não tem lugar mais icônico no centro do que o Copan”, diz Gabi.

Serviço: Av Ipiranga, 200 – lojas 67 e 68 | Ter. a qui.: 12h–00h / sex. e sáb.: 12h–00h / dom.: 12h–18h / seg.: 12h–00h | Instagram: @paloma___sp

Jantar no Brisa do Baru

À noite, o Brisa do Baru ocupa um dos espaços mais compactos do Copan. São cerca de 40 m², com uma pequena cozinha e um balcão de 12 lugares que aproxima quem cozinha de quem come. À frente está o chef Dagoberto Torres, que há anos buscava um endereço no centro.

O balcão do novo Brisa, que deve abrir em agosto, no Copan. Foto: Rubens Kato/Divulgação

“Eu sou apaixonado pelo Copan e pelo centro. Passei muito tempo procurando um lugar aqui”, diz. Quando surgiu a oportunidade, veio junto a vontade de criar algo que dialogasse com o próprio edifício. “A gente queria trabalhar com peixe e frutos do mar, mas de um jeito mais simples, mais imediato, que fizesse parte do ecossistema do Copan.”

Entre os destaques do cardápio estão o “Chora Patacón”, com duas unidades de chicharrón de frango com atum marinado (R$ 49), e a seleção de latinhas com sardinha, que propõe revisitar o consumo de enlatados (R$ 65).

Chef Dagoberto Torres do Brisa do Baru Foto: Rubens Kato/Divulgação

Desde a abertura, o formato foi sendo entendido pelo próprio público. “As pessoas passam, comem duas ou três coisas, tomam um drinque e seguem. Às vezes dizem que depois vão para outro lugar aqui dentro mesmo”, conta. “A gente não veio para fazer só um restaurante, mas para fazer parte de algo maior.”

Serviço: Av. Ipiranga, 200 – loja 46 | Ter. a qui.: 12h–15h30 / 19h–22h30 / sex. e sáb.: 12h–22h30 / dom.: 12h–17h / seg.: fechado | Instagram: @brisadobaru

Saideira no Fel

Já no fim do dia, o Fel aparece como um dos bares mais intimistas do Copan. Com cerca de 25 lugares, balcão próximo, luz baixa e trilha sonora, o bar propõe um resgate de coquetéis clássicos pouco revisitados.

Fábio Dias – Bar – Fel Foto: LEO MARTINS

A carta reúne drinques como o St Shiro, de 1920, com perfil oloroso, o Claring, de 1921, de perfil amargo, e o Canaletto, de 1929, mais refrescante, todos a R$ 56, em um trabalho que passa por pesquisa e recuperação histórica. Sem técnicas mais contemporâneas, os drinques seguem uma lógica direta, baseada na combinação clássica dos ingredientes.

Para o bartender Fabio Dias, o Copan também tem papel importante no público que chega ao bar. “Muita gente vem conhecer o Copan e acaba descobrindo o Fel por acaso, passando na frente e entrando para ver o que é”, diz. Ele também vê a diversidade dos vizinhos como parte da dinâmica do edifício. “Cada lugar tem uma proposta diferente. Acho que o que une todo mundo é o amor pelo centro de São Paulo”, afirma.

Serviço: Av. Ipiranga, 200 – térreo, 69 | qui. a ter.: 17h–00h / sex.: 17h–01h / sáb.: 12h–01h / dom.: 14h–22h / seg.: fechado | Instagram: @fel.sp





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