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Tem alguma coisa perigosamente sedutora acontecendo na Gucci. E, por conta disso, a moda entrou em polvorosa nesta semana. Como? Com Kate Moss (sempre ela). Vestida para matar, mas sem deixar muita coisa à imaginação, surge cantando em playback “Wicked Game”, o clássico de Chris Isaak cuja voz grave e melancólica já carrega uma dose quase indecente de sensualidade. Ao redor dela, estranhos se encaram, se aproximam e, lentamente, começam a dançar. Não há pressa. O desejo está justamente no intervalo entre um movimento e outro.
O filme é o cartão de visitas mais quente da nova Gucci de Demna. Dirigido por Johan Renck, o mesmo diretor por trás de clipes icônicos da música pop, o curta coloca Kate no centro de um ambiente soturno, com aparência de lugar antigo, quase decadente, onde a atmosfera parece suspensa no tempo. Ela usa o vestido preto de gola alta, mangas longas e recortes estratégicos nas costas e nas laterais que já havia chamado atenção na estreia do estilista em Milão. É um daqueles looks que não precisam de explicação: a roupa simplesmente entra em cena e eleva a temperatura do ambiente.
E então acontece o inesperado. Enquanto Kate canta, os personagens começam a se aproximar. Primeiro com olhares, depois com pequenos movimentos, até que a pista se transforma em uma espécie de ritual coletivo de sedução. Tudo é lento, íntimo, quase hipnótico. “Wicked Game”, lançada originalmente em 1989, ganha uma nova leitura justamente porque a imagem não tenta competir com a música: deixa que ela faça o trabalho. O resultado é sexy sem precisar ser explícito e muito mais interessante por isso.
Primavera quente
A campanha, batizada de Gucci Primavera, apresenta a coleção do primeiro desfile de Demna para a casa italiana. O estilista, que assumiu a direção criativa da Gucci em 2025, parece interessado em devolver à marca uma dose generosa de corpo, desejo e atitude. A sensualidade aparece nas transparências, nos recortes, no couro, nos vestidos ajustados, nas minissaias e nas combinações que aproximam o guarda-roupa de uma ideia mais instintiva de glamour. É uma Gucci muito mais interessada em provocar.
Mas há uma sutileza no projeto: o sexo não aparece sozinho. Ele vem acompanhado da ideia de conexão. A própria Gucci define Primavera como renascimento e associa esse renascer à transformação provocada pelo amor. No filme, desconhecidos despertam, formam pares e acabam se entregando à dança.

Nas fotografias de Michal Chelbin, a narrativa ganha outra camada. Alex Consani aparece em um vestido de paetês roxo, de ombros à mostra, reclinada sobre um sofá coberto por tecido floral; Shawn Mendes surge em couro; Tom Brady também encara uma versão mais fashionista do material. Jin, NINGNING, Xiao Zhan, EsDeeKid, Lee Young Ae, Rico Nasty e Tarzzan completam o elenco. São dez personalidades de universos diferentes, fotografadas individualmente em imagens que evocam a composição, a grandiosidade e as poses da pintura renascentista.
A combinação é curiosa: de um lado, a solenidade dos retratos clássicos; de outro, corpos, couro, brilhos, pele à mostra e uma sensualidade muito contemporânea. Demna parece brincar com esse choque. A roupa tem referências históricas, mas o desejo é absolutamente presente.
A nova Gucci
É também aí que a campanha começa a dizer mais sobre a nova Gucci do que simplesmente vender uma coleção. Depois de anos em que a marca transitou por diferentes códigos sob Alessandro Michele e Sabato De Sarno, Demna está construindo uma linguagem própria a partir da tensão entre herança e provocação. A coleção de estreia aposta em novas silhuetas, texturas e materiais, com uma proposta que a própria casa descreve como mais leve, espontânea e aberta a diferentes maneiras de vestir.
E Kate Moss é, convenhamos, uma escolha quase perfeita para traduzir esse momento. Ela não precisa interpretar a mulher sexy. Basta entrar em cena. Aos 52 anos, a modelo que ajudou a redefinir a sensualidade fashion nos anos 1990 aparece aqui como a personificação de uma ideia que continua funcionando: mistério, atitude e um certo perigo.
Essa é a aposta mais interessante de Demna. Em vez de tentar fazer a Gucci parecer jovem, ele parece querer fazê-la parecer desejável. E há uma diferença enorme entre as duas coisas.
No fim do filme, fica a sensação de que alguma coisa despertou naquela sala — e não é apenas o amor anunciado pela campanha. É a própria Gucci. Entre a voz grave de Chris Isaak, o olhar de Kate Moss e aquela dança quase parada, a casa parece finalmente encontrar o ritmo de sua nova fase. Resta saber se o público vai querer apenas assistir ou se, como os personagens do filme, vai se deixar levar para a pista.
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Fonte: veja.abril
