Qual o apogeu de um vinho?

GastronomiaQual o apogeu de um vinho?

Há um exercício interessante liderado pela vinícola argentina Catena Zapata: entender qual o potencial de envelhecimento de um branco ou um tinto de seu país. Hoje sabe-se que entre os vinhos tranquilos – o que excluí aqueles com borbulhas ou com açúcar residual, como os fortificados – os grandes Bordeaux são os mais longevos no mundo de Baco. A estrutura de seus taninos e sua acidez natural são os principais fatores que explicam a vida longa dos tintos bordaleses, comprovada por décadas e mais décadas de envelhecimento em garrafas.

Mas como ficam os brancos e tintos de países do chamado Novo Mundo, que não têm ainda o necessário tempo na garrafa para entender – e atestar – a sua evolução? Enquanto o tempo não traz a resposta, é possível inferir caminhos.

Esta é a principal conclusão de uma degustação liderada pelo enólogo Ernesto Nesti Bajda, em São Paulo, com nove vinhos da Catena, uma das vinícola que liderou, a partir dos anos 1990, a revolução dos brancos e tintos do país do tango em direção a uma bebida de maior qualidade.

Na prova, os mais antigos foram dois vinhos da década de 1990, o Malbec 1994 e o Chardonnay 1999, os dois da linha Catena – na época, a vinícola ainda não tinha uma grande diversificação da sua linha de brancos e tintos e suas uvas viam todas do vinhedo cultivado em Agrelo, Mendoza, a cerca de 900 metros de altitude do nível do mar.

Mas os dois não foram os melhores do painel: na taça, o tinto mostrava que seu apogeu tinha passado e o branco encantava pelas notas de evolução, mas já sem brilho. Os dois melhores foram o branco White Bones 2017, um chardonnay com uvas do vinhedo Adrianna, em Gualtallary, ao sul de Mendoza, e o tinto Nicolas Catena 2021, que tem o cabernet sauvignon de Agrelo como variedade principal.

Ainda jovens, os dois vinhos mais bem avaliados evidenciavam na taça o maior aprendizado na sua elaboração, além de um maior conhecimento de seu terroir, indicando que daqui a 30 anos, estes vinhos estarão melhores na garrafa do que estavam agora os da década de 1990, com suas quase três décadas de vida.

Em nove taças, degustação avalia à longevos dos vinhos argentinos Foto: Suzana Barelli/ Arquivo Pessoal

Hoje, com a experiência destas três décadas, a Catena conhece a importância da altitude e do solo calcáreo para elaborar os grandes chardonnays e malbecs do país, duas das características principais do vinhedo Adrianna, cultivado entre 1.400 e 1.500 metros de altitude em relação ao nível do mar, na Cordilheira dos Andes. E sabe também que o cabernet sauvignon não gosta de toda essa altitude para desenvolver a sua complexidade, mas que se expressa melhor em Agrelo. É o maior foco em entender o vinhedo, que ganhou preponderância a partir dos anos 2000, do que na sua elaboração na vinícola, como acontecia no século passado.

A vinícola entende, ainda, que as safras mais frias tendem a resultar em vinhos com maior capacidade de envelhecimento – uma tabela com um quadrante entre anos frios, quentes, úmidos e secos acompanhava a degustação. E os mais bem avaliados vieram de safras frias, aquelas que permitem o mais lento amadurecimento das uvas.

Os diversos terroirs da Catena na Argentina Foto: Suzana Barelli/ Arquivo pessoal

Mas a surpresa do painel estava nos vinhos da primeira década dos anos 2000, com o Malbec Argentino 2024, elaborado apenas com a variedade que lhe nomeia, e o Nicolas Catena Zapata 2005, novamente um blend com a cabernet sauvignon como variedade principal. Os dois traziam bons aromas terciários, aquelas notas mais complexas que surgem do envelhecimento do vinho em garrafa, mas também uma estrutura de taninos que permite afirmar que vão continuar evoluindo com o tempo. “O Malbec tende a evoluir como o cabernet sauvignon”, afirma Bajda. E, acrescenta: “hoje os vinhos também são pensados para evoluir na garrafa.” E isso ajuda muito nesta busca pela longevidade dos vinhos.



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