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A luz nunca se acende completamente no universo de Madonna. Ela prefere as sombras. É ali, entre o brilho dos cristais e o reflexo do vinil, que construiu uma das imagens mais influentes da cultura pop. Em “Confessions II”, o curta-metragem lançado recentemente, essa escuridão elegante volta a servir de palco para uma celebração de tudo aquilo que fez dela um ícone de moda: a provocação, o glamour e a capacidade quase sobrenatural de transformar desejo em tendência.
“Confessions II” funciona como uma espécie de autobiografia visual. Em uma sucessão de cenas cuidadosamente coreografadas, Madonna revisita personagens, silhuetas e símbolos que marcaram sua trajetória ao longo de mais de quatro décadas. O figurino, desenvolvido pela Dolce & Gabbana, é o fio condutor dessa viagem.
Estão lá os corsets estruturados que ajudaram a redefinir a sensualidade feminina nos anos 1990. As meias arrastão e as luvas sem dedos que remetem à Madonna rebelde dos anos 1980. Os vestidos repletos de cristais, os collants dramáticos e, claro, ecos do lendário sutiã cônico criado por Jean Paul Gaultier, uma das peças mais emblemáticas da história da moda pop.
Tudo surge reinterpretado sob uma estética mais madura, mas não menos provocadora. O preto domina a narrativa visual, interrompido apenas por explosões estratégicas de vermelho e turquesa. Entre elas, um pequeno vestido de vinil azul-turquesa chama atenção por condensar perfeitamente o espírito do projeto: divertido, sexual, teatral e destemido.
A presença constante do vinil, das botas underknee de acabamento brilhante, das cinturas marcadas e dos materiais que evocam o universo do bondage não é casual. Em um momento em que a moda vive uma ressaca do minimalismo, Madonna faz justamente o movimento oposto. Ela devolve à conversa elementos que durante anos foram considerados excessivos demais: fantasia, erotismo, exagero e poder visual.
É impossível ignorar também as referências a Marilyn Monroe. Em 2026, o maior símbolo de glamour do século XX completaria 100 anos. Madonna, que construiu boa parte de sua própria iconografia dialogando com Monroe, presta homenagem à estrela em momentos que misturam sensualidade clássica e teatralidade contemporânea, reforçando a ponte entre duas mulheres que transformaram a própria imagem em linguagem cultural.
O elenco que a acompanha ajuda a construir esse universo. A filha, Lourdes Leon surge como uma sacerdotisa do fetiche fashion. Já Kate Moss, Benedict Cumberbatch e Odessa A’zion aparecem em cenas que exploram diferentes interpretações do desejo, da identidade e da transgressão estética.
Enquanto isso, Sabrina Carpenter representa outro capítulo dessa narrativa. Vestida predominantemente de preto, com cintura marcada e silhueta escultural, ela surge como uma herdeira da Madonna glamourosa das pistas de dança, aquela que transformou a discoteca em passarela e a passarela em manifesto.
O mais interessante, porém, talvez seja perceber como o filme conversa com um movimento maior da moda atual já que as passarelas vêm demonstrando interesse crescente por referências fetichistas. Vinil, couro, corseteria, transparências estratégicas e códigos inspirados no universo BDSM reaparecem em coleções de grandes maisons, agora filtrados por uma visão mais sofisticada e menos literal.
Madonna apenas chega primeiro. Como tantas vezes aconteceu antes. Quando muitos apostavam na neutralidade, ela escolheu o brilho. Quando a moda pediu discrição, respondeu com cristais. Quando o momento parecia exigir contenção, apareceu envolta em vinil turquesa.
“Confessions II”, porém, não é apenas uma retrospectiva de figurinos memoráveis. É um lembrete de que algumas mulheres não seguem tendências, mas sim as criam. E, como um feixe de luz refletido numa pista de dança vazia, Madonna continua mostrando que o fetiche, quando passa por suas mãos, deixa de ser provocação para se tornar linguagem. E de linguagem, vira moda.
Fonte: veja.abril
