Estilista desafia limites da moda ao apresentar a primeira roupa feita de plasma

LifestyleModaEstilista desafia limites da moda ao apresentar a primeira roupa feita de...

Ler Resumo

Tempos atrás, a estilista holandesa Iris van Herpen encantou-se com um artigo no qual cientistas da Nasa explicavam como as estrelas “cantam”: é possível estudar sua natureza por meio dos sons peculiares que elas emitem. Célebre por suas criações inovadoras, Iris extraiu daí a inspiração para sua mais recente coleção. O conjunto de dezessete modelos foi batizado de Sonic Starquakes (“Sismos Estelares Sonoros”) e acaba de ser lançado com impacto na Semana de Alta-Costura de Paris. As atenções se voltaram, sobretudo, para um item ambicioso: o vestido Helix Nebula, primeira roupa feita de plasma, o chamado quarto estado da matéria.

A peça fascinante é composta de 8 000 bolinhas de vidro fixadas a um tule transparente e tem como principal atrativo um adereço tubular que remete a enormes alças esvoaçantes. Feitas igualmente de vidro, elas carregam em seu interior o plasma em si — que se diferencia de outras formas da matéria por não ser sólido, líquido nem gasoso, mas uma substância ionizada como aquela que preenche boa parte do cosmos. Em contato com o corpo da modelo, o plasma mudava de cor durante o desfile em Paris. A arrojada criação causou espanto pelo mundo e colocou a criativa Iris, em definitivo, nos livros de história da moda.

A façanha pôs em relevo uma relação antiga, mas pouco falada: o produtivo diálogo da ciência e da tecnologia com a indústria do estilo. “Ao longo dos tempos, sempre houve essa interface”, diz João Braga, professor de história da moda na Faap, em São Paulo. Ele lembra que a evolução do vestuário dependeu da matemática, da química e da engenharia. Novos materiais transformaram as roupas e o jeito como os humanos se vestem, da revolução do náilon, nos anos 1930, à explosão das microfibras sintéticas, na década de 1980.

INOVADORES - Peça marcante de Hussein Chalayan (à esq.) e a jaqueta de Suzanne Lee (à dir.): caminho da eletrônica à microbiologia
INOVADORES - Peça marcante de Hussein Chalayan (à esq.) e a jaqueta de Suzanne Lee (à dir.): caminho da eletrônica à microbiologia (@chalayanstudio/Instagram; @biofabricate/Instagram)

Em paralelo com essa comunhão entre os avanços tecnológicos e a indústria, alguns estilistas se destacaram por seu pioneirismo. Nos anos 1960, Paco Rabanne explorou novas fronteiras ao apresentar roupas feitas de metal, em vez de tecido. “Ele usava alicate, arame e metal no lugar de linha, agulha e tecido. Um avanço indiscutível para a época”, diz Braga. Em 1999, Alexander McQueen causou espanto ao exibir uma modelo que tinha seu vestido pintado ao vivo na passarela por braços robóticos. De lá para cá, outros criadores radicalizaram esse flerte. A parceria do britânico-cipriota Hussein Chalayan com o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) resultou em modelitos que mudam de forma graças à interação com ferramentas eletrônicas. A americana Suzanne Lee fez fama com jaquetas de tecidos moldados pela ação de fungos e bactérias, fruto da colaboração com microbiologistas.

Continua após a publicidade

Mas ninguém leva a simbiose com a ciência tão longe quanto Iris van Herpen. Nos últimos anos, a estilista de 42 anos se associou a arquitetos, artistas digitais, engenheiros, físicos e designers computacionais para criar coleções que se aproximam mais da arte que da moda comercial. Iris se notabilizou como precursora na criação de peças de alta-costura produzidas em impressoras 3D. E sua mente não parou nisso. Obcecada pela água, ela apresentou em 2025 um vestido vivo composto por 125 milhões de algas bioluminescentes. O universo singular de Iris embala uma exposição de sucesso sobre sua obra, atualmente em cartaz nos Estados Unidos.

Agora, seus voos científicos atingem um patamar sideral. A nova coleção reflete uma inquietação que ela nutre desde o início da carreira: a tentativa de traduzir as coisas invisíveis em suas roupas. O que, nesse caso, significa embelezar o mundo com fagulhas da física quântica e afins. Parte de um dos vestidos foi produzida num acelerador de partículas, a uma temperatura de 100 graus negativos. Enquanto a modelo desfilava, bilhões de partículas se desprendiam do tecido, dando ao espectador a sensação de ver um rastro de eletricidade no ar. O auge, claro, foi a entrada em cena do Helix Nebula. A peça de plasma faz referência à Nebulosa Hélice (NGC 7293), localizada a 650 anos-luz da Terra. “Eu queria conceber um visual que se assemelhasse à energia pura”, declarou Iris. Depois dela, a ciência do estilo nunca mais será a mesma.

Publicado em VEJA de 24 de julho de 2026, edição nº 3005

Fonte: veja.abril

Novidades

A velocidade da inércia

Existe uma forma de lentidão que raramente é percebida.Ela chega acompanhada de agendas cheias, reuniões sucessivas, e-mails respondidos e uma sensação constante de produtividade.Tudo...

Apresentando Fashion Bomb Gold: seu acesso exclusivo à melhor experiência de moda

O Fashion Bomb Daily está subindo de nível com o lançamento do Fashion Bomb Gold, uma assinatura exclusiva projetada para especialistas em moda, superfãs...

Paulo Brenha analisa: bets redesenham o consumo e pressionam o varejo brasileiro em 2026

SÃO PAULO – O primeiro trimestre de 2026 trouxe um alerta silencioso, mas extremamente relevante para o varejo brasileiro: a queda de volume não...

A reputação virou um negócio. A vergonha é que a verdade ficou de fora.

A reputação virou um negócio lucrativo, mas nem sempre sustentado pela verdade. Entre a credibilidade construída e a imagem fabricada, empresas e executivos enfrentam o desafio de provar que são aquilo que dizem ser.