Da confeitaria ao batom: como a comida virou desejo de beleza

GastronomiaDa confeitaria ao batom: como a comida virou desejo de beleza

‘Nenhum evento teve um impacto tão grande na gastronomia’, diz chef sobre caneta emagrecedora

Mari Sciotti, cozinheira e empresária, fala sobre os impactos das canetas e o fim do ritual em torno da comida. Crédito: JOaquim Macruz

Sombra com nome de doce, creme com textura de calda, perfume com cheiro de caramelo, batom com nome de sobremesa: a confeitaria virou uma linguagem para a beleza. O prazer da comida está na boca e agora também na pele.

Não que a relação moda/comida seja uma novidade. Essa conversa entre o que se come e o que se passa no corpo é antiga. Quem não se lembra do batonzinho de morango da feira tão febre nos anos 80? A diferença é que agora ela ficou mais intensa, mais ambiciosa e ganhou até um nome foodification, o batismo para a tendência de ter produtos de beleza e cuidados pessoais com cheiros, texturas, cores e embalagens inspirados em alimentos.

O Paladar foi atrás dos especialistas para entender por que a beleza está com tanta fome de gastronomia e as respostas trazem conexões íntimas entre os dois universos. Foram ouvidos Pedro Bello, pesquisador de tendências e food cool hunter à frente da Coolinary, consultoria criativa para marcas de food service; Bruna Tavares, empresária à frente da linha de maquiagem que leva seu nome, com a confeiteira Isabela Akkari, e com os chefs confeiteiros Rodrigo Ribeiro, do Ara, primeiro restaurante de sobremesas do Brasil, e Rafael Aoki, do Aizomê, restaurante que ficou em oitavo lugar entre os dez melhores de São Paulo segundo o Prêmio Paladar 2026.

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Huda Beauty e Isabela Akkari unem beleza e confeitaria em collab Foto: Divulgação

A comida é a maior inspiração da beleza

“O cosmético sempre usou muitos ingredientes, um creme de morango, um perfume mais adocicado com notas de laranja, o próprio cumaru”, diz Rodrigo Ribeiro. O que mudou foi a intensidade e a frequência. “Tem muitas marcas se associando a confeitarias, abrindo lojas, fazendo lançamentos com sobremesas, trazendo essa brincadeira”, observa o chef, que enxerga na raiz de tudo o desejo. “Tem tudo a ver com sedução, o afrodisíaco que tem ali também”.

O chef Rafael Aoki faz a mesma leitura. Para ele, a sobremesa funciona como recompensa e é essa a lógica que ela empresta aos produtos de beleza. “A pessoa deseja aquela fruta, aquele doce e transfe isso para os cosméticos que fazem uso desses signos”.

Uma conexão chamada desejo (proibido) e a vontade de voltar a sentir

Para a empresária Bruna Tavares, comida e beleza sempre tiveram uma conexão natural, porque as duas passam pelo sensorial, pelo desejo e pelo prazer . Só que hoje isso ficou mais visual. “Uma textura pode lembrar uma geleia, um gloss pode parecer uma calda, uma fragrância pode despertar a memória de um doce”, complementa.

Bruna descreve um atual esgotamento com a linguagem mais clean e a sensação de que ela tronou-se insuficiente para despertar desejo. “Depois de alguns anos muito dominados por uma estética extremamente minimalista, clean, quase clínica, e cada vez mais cibernética, eu percebo uma vontade enorme das pessoas de voltarem a sentir.” diz.

Pedro Bello aponta o pós-pandemia como um dos fatores para essa busca por sentir mais e levanta outra hipótese para o atual reforço do uso da gastronomia nos produtos de beleza. “Existe uma suspeita minha que vale pontuar. A gente vive um momento de privação alimentar”, diz, citando o aumento do uso de medicamentos associados ao emagrecimento, chamado de canetas. Neste cenário, o consumo de açúcar e doces está em queda – ou pelo menos em xeque.

“Trazer, portanto, a sensorialidade da confeitaria, do doce, da memória afetiva para os produtos de beleza é uma maneira de provocar ou buscar as mesmas sensações só que de uma maneira, digamos, menos indulgente, sem culpa.” O desejo reprimido pela comida ganha outra possibilidade. “Se eu não vou comer isso, eu posso passar no meu corpo”, exemplifica o pesquisador – deixando claro que não há similaridade nas experiências, mas destacando o que se busca ao associá-las.

Há também a questão do bolso. Para Pedro, o doce e o cosmético entram como pequenos prazeres num momento de aperto. “É por isso que a gente tem essa alta do consumo das confeitarias, das cafeterias de luxo, justamente para esses pequenos prazeres, que vão promover um determinado alívio em momentos de incerteza”, diz Pedro.

“Uma vez que fica cada vez mais difícil conquistar coisas financeiramente maiores, são esses pequenos prazeres que tentam preencher um pouco dessas lacunas das nossas vontades”, complementa o pesquisador.

Comida como beleza, beleza como comida

Um exemplo fresco desse encontro acontece agora, em São Paulo. A Huda Beauty, marca internacional de maquiagem fundada por Huda Kattan, se juntou à Isabela Akkari, confeiteira que há doze anos faz doce sem glúten, sem lactose e sem açúcar em suas lojas na capital.

O lançamento foi o Pink Chocolate Cake. Para traduzir a marca em bolo, a confeiteira partiu da pergunta: se a Huda Beauty virasse uma sobremesa, como ela seria?

Huda Beauty e Isabela Akkari unem beleza e confeitaria em collab Foto: Divulgação

Ela encontrou a resposta em um clássico da casa. “A gente partiu da massa do Double Chocolate Cake, que já é um dos nossos best-sellers, e trouxe o brigadeiro de frutas vermelhas e as raspas de chocolate rosa”, conta.

Mais do que combinar com aparência da marca, o prato segue uma lógica de sabor: “o chocolate é mais intenso e as frutas vermelhas trazem esse lado mais fresco, um pouco ácido, que equilibra super bem.”, explica a confeiteira.

Como fazer o bolo de chocolate perfeito

O maior desafio, diz Isabela, foi não parar na aparência. “Eu não queria que fosse só um bolo rosa ou um bolo bonito. A gente queria que essa identidade aparecesse também quando você provasse.”

Do outro lado da história, a empresária Bruna Tavares já traduziu comida em beleza mais de uma vez. Foi no gloss de cereja, na collab com a Coca-Cola, e mais recentemente na BT Banana, linha inspirada na fruta.

A escolha da fruta foi baseada na memória, na característica resiliente, e na popularidade que atravessa classes, regiões e gerações. Para transformar o ingrediente em produto, o cuidado foi não entregar a fruta de cara. “Eu não quero que você abra um produto de banana e pareça que colocaram uma banana dentro dele. O segredo do gourmand sofisticado é traduzir a sensação da comida, não copiar a comida”, explicou.

Bruna Tavares e seu BT Banana, beleza e gastronomia Foto: Divul

O próximo passo pode ser salgado

Depois de tanto doce, a próxima fronteira a ser explorada pela beleza pode ser salgada. Pedro aposta que a próxima tendência é o ‘neogourmand’, quando a beleza para de focar só na confeitaria e no doce e passa a buscar referência na cozinha inteira, “menos infantil, mais sofisticado e mais experimental”, com frutas, vegetais e até salgados.

Ele já vê o tomate despontando em perfume, em maquiagem e em vestuário. Defende ainda que o Brasil olhe para o próprio repertório em vez de importar. “Será que precisamos ficar no pistache, no matchá, importar conceitos de fora? Brigadeiro e paçoca são algumas de suas sugestões para que o mercado aposte mais na memória afetiva do brasileiro, sem tantas imprtações

Jabuticaba, Wasabi e Ervilha, sobremesa do restaurante Ara. Foto: Ricardo D’Angelo/Divulgação

Na cozinha, esse futuro já está no prato. Rodrigo Ribeiro apaga a fronteira entre o doce e o salgado nas sobremesas do Ara, como a mousse de ervilha com wasabi e jabuticaba. No Aizomê, Rafael Aoki segue a mesma direção, flertando também com ingredientes do mar nos doces, como a ostra fake, feita de nori e bacuri, uma outra tendência já abordada aqui no Paladar.

Para Pedro, o que move os dois mundos é a mesma coisa. “As pessoas não querem só se sentir bonitas; Elas querem se sentir deliciosas”, diz o pesquisador, que resume o consumidor da moda e da gastronomia com o mesmo desejo.

Serviço

Restaurante Ara. Rua Simão Álvares, 421, Pinheiros, São Paulo.

Restaurante Aizomê. Alameda Fernão Cardim, 39, Jardim Paulista, São Paulo.

Pink Chocolate Cake, collab da Huda Beauty com a Isabela Akkari. https://www.instagram.com/isabelaakkari/





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