Coquetel tem carisma? A resposta está na nova carta do Caledonia

GastronomiaCoquetel tem carisma? A resposta está na nova carta do Caledonia

Olá, amigos!

Todos bem?

Ao avaliar um coquetel, costuma-se levar em consideração filigranas sensoriais, a técnica empregada, o equilíbrio de sabores, a qualidade dos insumos, o storytelling e por aí vai.

O que muita gente esquece de colocar na “balança” de um bom coquetel é uma característica única, rara e difícil de ser encontrada (e por isso valiosíssima) mesmo entre nós, seres humanos, clientes, connoisseurs ou curiosos.

Falo do CARISMA.

Coquetel bom, coquetel ótimo, do tipo que se destaca em um menu, precisa ter carisma.

Sim, carisma é uma característica de um bom coquetel.

Um coquetel tem ou não tem carisma.

Whakamã. Crédito: Maurício Porto

 

O que me trouxe essa reflexão foi a nova carta do Caledonia — que estará à disposição do público a partir do dia 2 de junho.

O novo trabalho é assinado pelo bartender Alison Oliveira e pelos sócios Maurício Porto e Guilherme Valle.

Aqui, para além de outras qualidades, vários drinques possuem a magia do carisma.

Vou te contar mais, segue o fio…

Mono no Aware. Crédito: Maurício Porto.

 

Batizada de Sinesthesys, a carta conta com 12 coquetéis (dois deles reversíveis para uma versão sem álcool) e 4 entradas criadas pelo chef Rodrigo de Rizzo.

“Essa é uma carta de sentimentos”, provoca Maurício Porto, sócio-proprietário do Caledonia. “A gente pegou sentimentos complexos, de culturas diferentes, sentimentos que não podem ser traduzidos. Como explicar o que é a saudade para um gringo? Ou explicar o que significa ‘schadenfreude’ — que é uma palavra alemã para o prazer secreto ou alegria que se sente ao observar o infortúnio ou azar de outra pessoa? Nosso desafio foi traduzir

sentimentos em coquetéis, sabores e cores”, explicou Porto.

Neste mar de sentimentos, quero destacar os coquetéis que mais me chamaram a atenção — coquetéis que, além de traduzir palavras ou expressões quase impronunciáveis, trouxeram a marca do carisma para a minha experiência etílica.

Vou começar pela nossa conhecida “Saudade” — Tio Pepe jerez fino ultrassônico com açaí roxo, lactofermentado de uvaia, vermute de jerez branco, agave, mel, açúcar demerara, solução salina e espuma de licor de jabuticaba (R$ 56). Fácil de beber. Do tipo que tem uma doçura agradável com um finalzinho seco. Tem tudo para ser um hit. Puro carisma.

O próximo coquetel/sentimento é o Mono no aware — palavra que no Japão significa uma empatia sensível em relação à transitoriedade das coisas; uma tristeza suave e agridoce ao perceber que tudo é efêmero e belo por ser passageiro. O coquetel, que representa um sentimento tão profundo, leva Suntory Hibiki, Suntory The Chita, soda banchá com nibs de cacau, umeboshi e caramelo, fake lime juice e cocoa bitters (R$ 66). Em tempo, esse é um coquetel reversível para sem álcool (R$ 39). O coquetel (nas duas versões) apresenta um defumado gentil e um toque de mate. Equilibrado, redondo, irretocável e… carismático.

Outro coquetel que se destaca na carta é o Sankofa — palavra comum em Gana e que descreve a necessidade de revisitar o passado (mesmo que doloroso) para buscar conhecimento esquecido e construir o futuro. Significa, literalmente, “voltar e apanhar”. Aqui, o coquetel faz parte da família do Negroni (Old Pal, Cardinale…). 10/10 em termos de carisma. Ele leva Buffalo Trace Bourbon, Vinho do Porto Messias branco, Tio Pepe fino, Campari em fatwash de óleo de coco e cevada, Amaro Montenegro, tintura de pimenta calabresa e cocoa bitters (R$ 61).

Já o Whakam? — palavra maori para um sentimento complexo que varia entre vergonha, timidez, embaraço e a sensação de ser “menor” diante de um grupo –, traz a referência de um Sazerac, que aqui ganha novo brilho com Jack Daniel’s Bottled-in-Bond Rye, fine calvados, Laphroaig 10, Vermute Dolin Dry, Cynar e bitter de cardamomo (R$ 64).

Coquetel ‘Saudade’. Crédito: Maurício Porto.

 

Em Eeriness — que em inglês representa uma espécie de estranheza sinistra –, a referência é um Martini (mais especificamente um Fifty-Fifty). Ele é servido em 3 versões: R$ 51 com Botanist Dry; R$ 60 com Botanist Cask Rested; R$ 78 com Botanist Cask Aged. Um dos ótimos Martinis da temporada. Se você é entusiasta, não deixe de experimentar.

Eeriness. Crédito: Maurício Porto.

 

Por fim, guardei aquele que para mim é o maior exemplo de carisma desta carta: o Ataraxia. Trata-se de um “drinkão” — desses com copo pesado, que enchem a mão e fazem você pensar “sim, estou bebendo”. Redondo, profundo e da família do Old Fashioned. Acreditem, não é fácil encontrar autorais assim no cenário brasileiro.

Ataraxia é uma palavra grega para a capacidade de diferenciar o que está sob seu controle do que não está. O drinque leva The Glenlivet 12 single malt, Tio Pepe jerez fino em fatwash de pralinê de castanhas, luxardo bitters e triple syrup (R$ 88). É o rei do carisma!

Ataraxia. Crédito: Maurício Porto

 

Entre os pratos, destaque para o Kuchisabishii (R$ 57) – palavra japonesa para o desejo de colocar algo na boca, não por fome física, mas porque a “boca está solitária” (hahaha). Trata-se de tortilla tostada, javali desfiado glaceado, creme de milho tostado, picles suave de minimilho amarelo e farofa crocante de milho. E o Tarab (R$ 39) – palavra árabe para um estado de êxtase ou encantamento induzido pela música (crocante de arroz vermelho, tartare de mignon, ketchup de goiabada e pimentão defumado, picles de beterraba e cebola roxa).

Em tempo: Einfühlung é uma belíssima  palavra alemã que deu origem ao termo “empatia”. Significa literalmente “sentir para dentro”. Na estética alemã, descreve o ato de projetar os nossos próprios sentimentos em um objeto físico (como uma pintura, uma escultura ou até um drinque) a ponto de o objeto parecer expressar aquela emoção por si só. Por isso, viva os coquetéis carismáticos!

Serviço

    • Endereço: Rua Vupabussu, 309, Pinheiros
    • Horários: Salão – terça a sábado, das 18h às 0h; Loja – terça a sábado, das 15h30 às 0h
    • Instagram: @caledoniabar

BOLETIM TIM-TIM

  • Coupe 1 – A empresária Tatiana Foresta, curadora da Vitrus, importadora e distribuidora premium de Glassware e Tableware, acaba de lançar uma plataforma de conteúdo (www.vitrus.com.br/indica) com dicas de bares, restaurantes, lugares e experiências. Com edição do jornalista Sergio Crusco, que há mais de 15 anos atua no setor de bebidas e gastronomia, o projeto envolve um site, um perfil no Instagram (@vitrusindica) e a opção de receber as matérias completas antecipadamente via newsletter.
  • Coupe 2 – O jornalista e escritor J. A. Dias Lopes lançou “Caipirinha – Origem de um Símbolo da Identidade Cultural Brasileira”, obra que investiga as raízes históricas do mais emblemático coquetel brasileiro e reconstrói sua trajetória até tornar-se um dos grandes ícones nacionais, ao lado do samba e do futebol.
  • Coupe 3 – O Brasil recebe o exclusivo Glenmorangie The Altus 25 Years Old. Engarrafado a partir de uma combinação de uísques maturados em barris clássicos de bourbon e uma parcela finalizada em barris de vinho Madeira, o Altus apresenta um perfil rico em sabores doces e frutados, com camadas de manteiga e nuances delicadas.
  • Coupe 4 – A Lamas Destilaria acaba de lançar o Spirit of Brazil, um uísque single malt de edição limitada, maturado em barris de carvalho americano ex-bourbon e finalizado em barris de pau-brasil. O lançamento está conectado com a Copa do Mundo, inspirado nas raízes escocesas do futebol brasileiro. São apenas 2.500 garrafas numeradas no mundo.
  • Coupe 5 – Nesta sexta-feira, 29 de maio, das 19h30 às 23h, o Bar Caju, localizado no lobby do JW Marriott Hotel São Paulo, recebe mais uma edição do “Caju Takeover Nights”, desta vez em celebração aos quatro anos do hotel na capital paulista. A noite reúne importantes nomes da coquetelaria nacional em uma edição especial de guest bartenders, com a participação de Emillyn Cavalcante, chefe de bar do SubAstor; Kyoko Sato, do Tarí, em São Paulo; e Suellen Martins, do Caffè AnarCord. Ao lado da equipe do Bar Caju, as convidadas apresentam coquetéis exclusivos desenvolvidos especialmente para a ocasião. Os coquetéis estarão disponíveis por R$58 cada. Endereço: JW Marriott Hotel – Av. das Nações Unidas, 14401 – Chácara Santo Antônio.



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