A chamada prova vertical, quando a degustação inclui o mesmo vinho, mas de safras diferentes, é uma das melhores oportunidades para se conhecer a história de bebida que está na taça, incluindo o seu passado, e inferir sobre o seu futuro. É daquelas experiências que aguçam os cinco sentidos e raramente saem da lembrança de quem teve a oportunidade de fazer essa degustação comparativa.
Foram cinco provas verticais recentes que me chamaram a atenção para a safra de 2022 dos vinhos chilenos. O ano anterior, 2021, já tinha se revelado espetacular para os tintos do país, principalmente aqueles que têm a uva cabernet sauvignon como base. É a variedade que o Chile parece ter a sua maior vocação entre as tintas, principalmente nas regiões do vale central do país andino. E, no mundo do vinho, nunca é fácil ser também um bom ano depois de uma safra de muita qualidade.
E, aqui, vale um parêntese. O produtor espanhol Benjamin Romeo conta da apreensão que viveu com a safra 2005 do seu tinto Contador. Ele havia conquistado 100 pontos do crítico Robert Parker com a anterior, a de 2004, mas ao elaborar o vinho do ano seguinte, percebeu que tinha uma bebida melhor. E ficou intrigado com a nota que o 2005 poderia receber. No final, Parker lhe concedeu 100 pontos novamente, o que foi um feito inédito para um vinho espanhol.

Prova dos tintos ícones da El Principal, com oito safras entre 2019 e 2022 Foto: Suzana Barelli
Assim pode ser vista a safra chilena de 2022 em cinco provas verticais, dos ícones Manso de Velasco, um cabernet sauvignon de vinhas de mais de 100 anos da Torres; o Casa Real, o primeiro grande cabernet chileno, da Santa Rita, e os Don Melchor, El Principal e Vik, vinhos ícones que têm o mesmo nome de sua vinícola.
Em todos eles, seus enólogos já estavam felizes com as altas pontuações recebidas com o 2021, quando começaram a se surpreender com a qualidade das primeiras uvas da safra seguinte que começavam a chegar na vinícola.
Há outra característica: as verticais revelam muito sobre o clima de cada ano por ser a única variável que sempre muda. Tem os anos frios, os chuvosos, os quentes, enquanto o solo e, salvo exceção, as uvas são as mesmas. Enrique Tirado, hoje o gerente geral da Viña Don Melchor, talvez o enólogo chileno que tenha mais estatísticas sobre seus vinhedos, mostra em gráficos o perfil da safra de 2022, com maior quantidade de horas produtivas, que ele define a partir das temperaturas entre 10 e 30 graus, por exemplo. São dados que explicam, tecnicamente, a qualidade daquele ano em particular.
Taça a taça, as verticais, ainda, permitem entender as mudanças na interpretação do vinho em sua história. No El Principal, por exemplo, na prova de oito safras entre 1999 e 2022, a cabernet sauvignon é a única uva na maioria das safras, mas em 2015 a equipe de enologia decidiu colocar 5% de cabernet franc e 3% de petit verdot ao 92% de cabernet sauvignons. O blend mudou pelas características do ano, de clima mais quente, e muita maturação das uvas.
Outro ponto que as verticais revelam é a utilização de barricas de carvalho. Na tendência de reduzir a influência da madeira no vinho, as vinícolas reduziram o tempo de estágio das bebidas nas barricas e o tamanho destes recipientes – várias, aliás, optam por trabalhar com os tanques grandes, com capacidade para mil litros ou mais, do que com as tradicionais, de 225 litros. Estão mudando também a tosta das barricas, que eram intensas no passado e agora são mais leves. A Vik, por exemplo, desenvolveu a sua própria tonelaria, para garantir uma tosta bem mais suave nas barricas e, consequentemente, menos impacto nos seus tintos.
E, assim, na comparação de várias safras lado a lado vai se revelando a história de cada vinho. É a taça escrevendo a sua narrativa.
