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Cada vez mais a moda se transforma em narrativa, algumas vezes quase um rito. Foi assim no recente Rio Fashion Week, quando os figurinos da novela “A Nobreza do Amor” da TV Globo, cruzaram a passarela. Em cena, a ancestralidade em tecidos, volumes e texturas que vestiam história, identidade e poder simbólico.
Concebido pelo diretor e roteirista Igor Verde, o desfile transformou acervo em discurso contemporâneo. “Construir símbolos de nobreza, luxo, beleza estética, honra e outras virtudes a partir de um referencial afro do passado muda o referencial do presente”, disse ele a VEJA. E foi exatamente isso que se viu: uma inversão potente de imaginário. Ao deslocar o olhar, a moda reescreve o agora — e, mais importante, redesenha o que vem depois. “Mudar o ponto de vista de uma história é construir futuros possíveis”, completou.
A passarela ganhou densidade dramática com atores da novela transpondo a fronteira entre personagem e modelo, figurino e manifesto. Não por acaso, trata-se do primeiro desfile temático de uma novela da TV Globo em uma semana de moda — um gesto que reconhece a força da teledramaturgia como difusora de estética e valores no Brasil. “Ao levar para a passarela os figurinos, estamos construindo o imaginário e a vanguarda da nossa proposta de valores”, reforça Verde.
Mas essa onda vai além do resgate. Ela aponta para frente — e é aí que o trabalho de Eloyá Amorim entra com precisão cirúrgica. A designer, que opera sob a lente do afrofuturismo, desloca a moda afro do campo da memória para o da projeção. “O futuro da moda afro é sair do lugar de resgate e ocupar o protagonismo”, afirma. Em suas criações, a ancestralidade não é ponto final, mas ponto de partida. “Não estamos nos inserindo no futuro, estamos criando.”
Esse diálogo entre passado, presente e futuro talvez seja a espinha dorsal da tendência que vem dominando passarelas nacionais: uma moda afro que dispensa tradução. Ela comunica pertencimento, autonomia e resistência. E, inevitavelmente, tensiona estruturas. Como diz Eloyá, trata-se de uma linguagem que “rompe com padrões eurocêntricos e propõe novos imaginários”. Quando a estética muda, o olhar também muda — e isso já é transformação.
Na vida real
A boa notícia é que essa estética não precisa ficar restrita à passarela. Nem deve. Pense em incorporar elementos-chave de forma cotidiana: tecidos naturais com textura (linho, algodão cru), estampas geométricas inspiradas em grafismos africanos, acessórios de impacto (brincos esculturais, colares de contas) e, principalmente, silhuetas que valorizem o corpo com fluidez e presença. Cores terrosas, dourados e tons vibrantes também ajudam a construir esse repertório. É uma forma de vestir com intenção e de ocupar espaço com significado. Afinal de contas, é fato que a moda, quando conectada à sua raiz, não só reflete o mundo, mas o reinventa.


Fonte: veja.abril
