A vez do queijista – Estadão

GastronomiaA vez do queijista - Estadão

Há uma diferença sutil que separa o queijeiro do queijista. O primeiro faz o queijo. O segundo vende, carrega mundo afora, corta com precisão, defende com convicção. Sabe de que leite nasceu, em que terra curou e com qual vinho deseja ser acompanhado. É para esses — os guardiões da experiência queijeira — que o 3º Concurso de Melhor Queijista do Brasil vai ser palco em abril de 2026.

 

Há 15 anos sou jornalista da revista especializada nos queijeiros franceses de tradição, Profissão Queijeira. Também sou professora da escola francesa de queijistas em Paris desde 2021.  A profissão me encanta. Ensinei muitos alunos e testemunhei, ano após ano, a força dos brasileiros no Mondial du Fromage de Tours, na França.

Mas há algo particularmente emocionante em ver esse reconhecimento florescer no solo de onde partem os nossos maiores tesouros lácteos. O concurso brasileiro de queijista, que chega agora à sua terceira edição, não é uma extensão do modelo francês — é um encontro de duas culturas que se reconhecem na mesma devoção – e profissão.

 

As inscrições estão abertas até 15 de fevereiro de 2026, e a seletividade começa antes mesmo de o candidato pisar no palco do Teatro B32. O dossiê exige currículo, memórias afetivas sobre um queijo preferido — sim, porque é preciso saber escolher o que se ama — e as medidas  para a confecção da doma profissional que a organização fornecerá.

 

Os selecionados enfrentarão dois dias de provas concebidas por Annick Polèse, presidente da Fédération des Fromagers de France e autoridade máxima da queijaria mundial, junto com Marina Cavechia, vencedora da primeira edição em 2022 e Comissária Geral. O júri, que tem 13 experts internacionais vai reconhecer o talento bruto lapidado por anos de balcão, mercado, feira e experimentação silenciosa.

Na quinta-feira, 16 de abril, os candidatos serão testados em três frentes: um exame de cultura queijeira geral, outro em inglês ou francês sobre Denominações de Origem e Indicações Geográficas, e uma degustação às cegas onde cinco minutos decidirão se o profissional sabe reconhecer, pelo aroma e textura, a tecnologia de fabricação, o estado de origem, o leite, a maturação e o nome de dois queijos brasileiros. Precisa memória sensorial e treino.

 

Ainda no primeiro dia, cada candidato receberá R$500 e sairá, acompanhado pela organização, para comprar ingredientes frescos. Frutas, flores, charcutaria, temperos — tudo o que tornará sua tábua única. Para ser justo, o dinheiro é o mesmo para todos. O que difere é o olhar.

 

No sábado, 18 de abril, o palco do Teatro B32 se transforma em ateliê. Os celulares são recolhidos, os queijos distribuídos igualmente para todos. A prova de corte começa dando cinco minutos para cortar e embalar quatro pedaços de 250 g.

Há ainda a defesa oral do queijo favorito: três minutos para harmonizá-lo com um alimento ou bebida, argumentar sobre sua qualidade e fabricação, convencer o júri de que aquela peça de queijo merece o centro do mundo. E há a tábua temática, cujo tema desta edição é “Origens”. Vinte minutos para montar, num suporte de até meio metro, uma apresentação para quatro pessoas com cinco queijos — quatro fornecidos, um trazido de casa — e uma entrega que simula o delivery. Estabilidade, praticidade, beleza. Nenhum adereço extra além dos comprados na quinta-feira.

 

Mas é na prova final que o concurso atinge sua dimensão mais próxima da arte. “Sinfonia de cores, perfumes e sabores: a música embala o queijo” é o tema da obra queijeira. Cada candidato terá uma hora e quinze minutos para ocupar um metro quadrado com, no mínimo, vinte queijos de todas as famílias, sessenta por cento inteiros, quarenta por cento cortados, todos etiquetados com nome, leite e origem. A criatividade, aqui, não é adereço: é critério. Suportes em diferentes níveis, cortes originais, esculturas efêmeras — tudo vale para sublimar a matéria-prima.

 

O prêmio para o primeiro colocado é uma passagem São Paulo-Paris e uma vaga direta no Meilleur Fromager du Monde, em Tours, em 2027. Sem eliminatórias francesas, sem intermediários. Do balcão brasileiro para o pódio mundial.

Em 2026, a praça da Baleia aguarda o próximo. Que venha preparado, sim, com a certeza de que o queijo brasileiro tem voz, corte e destino. As inscrições estão no ar. O regulamento, disponível. A França nos espera.



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