‘Sonho em ser padeira porque na minha comunidade é o pão que mata a fome’, diz cozinheira solidária

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Marisa Mateus selecionada pela chef Cintia Sanchez para participar do projeto que transforma gastronomia em ferramenta de impacto social Foto: Tiago Queiroz/Estadão

Era pandemia. Todos os estabelecimentos estavam fechados e a fome entrava mais forte nas vielas da Brasilândia, na Zona Norte de São Paulo. Marisa Mateus, que já havia participado de algumas ações de distribuição de sopas para pessoas em situação de rua, achou que poderia vencer o que chama de sua “falta de talento culinário” e cozinhar em casa quentinhas para serem distribuídas aos vizinhos famintos, desempregados e sem renda.

Quando foi até a praça do bairro para fazer uma reunião ao ar livre e combinar a distribuição com o grupo que havia aceitado participar da mobilização social, reconheceu, por cima da máscara, os olhos de uma voluntária que também aparecera disposta a cozinhar.

“Desde que eu tinha saído da escola, nunca mais tinha encontrado a Gorete. Reconheci de imediato aqueles olhinhos que parecem sempre estar sorrindo. Era a minha amiga de infância. Perguntei se ela topava a missão comigo”, lembra Marisa.

Gorete topou.

“Claro que aceito cozinhar. Quando a gente tem fome, é tudo para ontem”, respondeu à amiga recém-reencontrada. A frase seria quase um anúncio do nome do projeto que, algum tempo depois, ampliaria o trabalho das duas como cozinheiras comunitárias na região onde vivem.

Seis anos depois, Marisa e Gorete continuam cozinhando juntas. Com o apoio de doações, entregam cerca de 200 marmitas por semana. O que começou como uma tentativa de ajudar os vizinhos durante a pandemia virou trabalho permanente de alimentação e cuidado com a comunidade.

Marisa ficou fera no fogão, especialmente nos salgados. Gorete é tida como a autora do melhor feijão, frango ensopado e cuscuz paulista.

Na laje de sua casa, Marisa montou uma cozinha onde recebe Gorete e outras seis cozinheiras voluntárias para fazer as quentinhas. A sede recebeu o nome de Espaço Gastronômico Tia Diva, em homenagem à irmã de Marisa, que também participou da entrega de marmitas até o fim da vida.

Marisa Mateus e Gorete Salvador fazem marmitas no Espaço Gastronômico Tia Diva: distribuem 200 quentinhas por semana Foto: Tiago Queiroz

Agora, Marisa se prepara para um novo passo. Ela é uma das dez mulheres selecionadas pelo Instituto É Tudo Pra Ontem, uma rede de solidariedade que atua para combater a insegurança alimentar e usar a gastronomia como ferramenta de impacto social. A proposta é oferecer às selecionadas bolsas de estudo, equipamentos e apoio para que essas mulheres possam estruturar negócios a partir das cozinhas que já mantêm em suas comunidades.

“O objetivo é acompanhar essas mulheres por um ano, oferecendo capacitação, profissionalização, suporte para o empreendedorismo, inclusive jurídico, administrativo e também de formação”, diz a chef Cintia Sanchez, coordenadora e ativista do Instituto É Tudo Para Ontem.

A fome está na quebrada

Antes de chegar ao modelo que agora pretende capacitar dez cozinheiras sociais, Cintia Sanchez também sentiu a dimensão da fome nas panelas vazias e nas doações que não eram suficientes.

Durante a pandemia, circulava pelas ruas conhecidas como Cracolândia, no Centro de São Paulo, com o porta-malas do carro 1.0 cheio de doações de comida. A chef, que havia participado da primeira edição do MasterChef Brasil e estagiado em restaurantes como D.O.M. e Arturito, tinha acabado de abrir uma empresa de catering quando as atividades foram paralisadas pela crise sanitária.

“Eu sabia que a fome ganharia proporções gigantescas, pois percebia que até quem queria ajudar não estava encontrando uma forma de. Eu resolvi começar por um lugar sempre marginalizado. Quando estava distribuindo comida no Centro, um homem muito fragilizado e magro pela dependência de crack me olhou nos olhos e disse: ‘Eu agradeço demais esse prato de comida. Mas nossas mulheres ficaram lá na quebrada, estão tomando conta de tudo, elas estão sozinhas e precisam de vocês’”, lembra a chef.

Foi o estalo que Cintia precisava para expandir o olhar e a atuação. Em vez de concentrar a ação no Centro, passou a buscar uma rede que pudesse chegar também às periferias de São Paulo. Participou da formalização do Instituto É Tudo Para Ontem, articulou ações com organizações sociais, empresas e poder público, com foco no combate à vulnerabilidade alimentar e na criação de cozinhas solidárias por vários bairros paulistanos.

“O que fizemos foi implementar e manter cozinhas solidárias para que a própria comunidade conduzisse e tomasse conta. No ano passado, eu assimilei que os espaços mais prósperos eram conduzidos por mulheres, em sedes na casa delas. Muitas sonhavam em se profissionalizar na área da gastronomia. E, para muitas delas, empreender era a chance de prosperar pessoalmente e fomentar as ações sociais que já tinham”, diz Cintia.

A chef Cintia Sanchez comanda o Instituto é Trudo Para Ontem Foto: Tiago Queiroz/Estadão

A percepção deu origem ao novo passo do Instituto: investir nas mulheres que já usam a cozinha como ferramenta social em suas comunidades, dando a elas a chance de gerar renda e conquistar inserção profissional.

Além de Marisa, a reportagem do Paladar conheceu Camila Santos. Ao lado da amiga Graziela Santana, ela mantém, em uma casa em frente à sua residência, em uma comunidade de Ferraz de Vasconcelos, um espaço que atende cerca de 80 crianças com atividades de leitura, artesanato e aulas de teatro.

“Além disso, todo domingo fazemos um grande café da manhã para as pessoas que moram aqui. Com comida boa, gratuita e uma forma de vínculo e evento social”, conta Camila, de 27 anos, mãe de quatro filhos.

Ela também chegou à cozinha pela necessidade.

“A minha vida foi muito dura até aqui. Após uma separação muito dolorosa durante a pandemia, vim para essa comunidade com meus quatro filhos, sozinha. Fui acolhida aqui totalmente. Uma vizinha minha me deu um prato de comida para mim e para as minhas crianças, e nunca esqueci o sabor”, lembra.

Camila aprendeu a sonhar em ser confeiteira. Faz e vende bolos com Graziela para sustentar a família e manter a ação social na comunidade. As duas também trabalham como garçonetes freelancer, já fizeram curso de coquetelaria e são aprendizes em empresas de eventos gastronômicos. Pensam até em abrir um restaurante juntas.

Graziela Santana e Camila Santos (cabelos curtos) foram selecionadas para o projeto Foto: Tiago Queiroz/Estadao

“Agora, com essa chance de profissionalizar a atuação, abrir meu negócio de confeitaria, ser conhecida… Eu até me emociono. É poder devolver o que a comunidade me deu e ainda ter uma profissão para chamar de minha”, diz.

O endereço da insegurança alimentar

Marisa, Gorete, Cintia e Camila — em alguma medida — tiveram suas histórias conectadas pela importância ainda maior que a comida ganhou em tempos de pandemia. Todas reconhecem que o saber gastronômico é uma ferramenta de transformação social, ainda mais porque a fome permanece residindo em São Paulo.

O I Inquérito sobre a Situação Alimentar do Município de São Paulo, realizado entre maio e julho de 2024 pelo Vox Populi, ouviu 3.300 pessoas em nove regiões da cidade, utilizando a versão curta da Escala Brasileira de Insegurança Alimentar (EBIA). O levantamento apontou que 12,5% da população paulistana — cerca de 1,4 milhão de pessoas — vivia em domicílios em situação de insegurança alimentar grave, classificação que corresponde à experiência da fome.

A fome também tem endereço. Segundo o levantamento, 72% das pessoas que vivenciam insegurança alimentar grave estão nas áreas mais periféricas do município.

Quebrada alimentada e restaurantes que restauram

É nesse cenário que a cozinha ganha outra dimensão. São alguns projetos de destaque que usam a gastronomia como base de impacto. A própria área é a que mais concentra mulheres periféricas e empreendedoras, com 20% das escolhas, conforme mapeou o Instituto Locomotiva.

E quando um restaurante é aberto em um local, “o papel dele é restaurar”, como definiu a historiadora Adriana Salay, durante o São Paulo Innovation Week, em um dos painéis promovidos pelo Paladar. Ela que pesquisa a fome e as políticas de alimentação no Brasil e é vice-presidente do projeto Quebrada Alimentada, iniciativa de assistência alimentar criada durante a pandemia em parceria com o restaurante Mocotó.

A experiência do Mocotó, inclusive, mostra também que o impacto de um restaurante pode ultrapassar a comida que chega ao prato. Em uma análise feita pelo próprio restaurante, Adriana e Rodrigo identificaram que os indicadores de desenvolvimento humano da equipe do Mocotó, na Vila Medeiros, eram semelhantes aos dos melhores índices de desenvolvimento humano do município.

Novas profissões e novos sonhos

O que o Instituto É Tudo Pra Ontem quer agora, com a capacitação das mulheres, é que elas consigam, com seus negócios gastronômicos, alimentar outros sonhos.

“É muito forte você saber que a sua receita, que aquele bolo delicioso de morango com chocolate que você aprendeu na infância pode ser a base do seu sustento e ainda ajudar todo o seu entorno”, diz Camila, que começa as aulas no próximo mês.

“A gente sabe que só cozinhar bem não garante um negócio. Então vamos transformar esse dom delas em algo estruturado”, completa Cintia.

TQ São Paulo 31.07.2026 PALADAR Na foto Marisa Mateus e Cintia Sanchez. Gastronomia de impacto. A chef Cinthia Sanchez tem uma rede de solidariedade “É tudo para ontem” para mulheres em situação de vulnerabilidade social que utiliza a gastronomia como ferramenta de transformação social e impacto positivo na vida dessas mulheres e da comunidade que habitam. Foto Tiago Queiroz/Estadão Foto: Tiago Queiroz/Estadão

Marisa, que aprendeu a cozinhar em grande quantidade por causa das marmitas, escolheu a panificação como o próximo capítulo profissional. “Eu já me sinto cozinheira e agora eu sonho em ser padeira, abrir minha padaria aqui em casa”, diz.

A escolha tem uma razão que vai além da profissão. “Eu acho lindo, mas também conheço a fome de perto. E aqui na minha comunidade o que mata a fome é o pão”, conta para emendar qual é seu sonho de verdade.

“Eu sonho muito em ter minha padaria. Mas, se for para sonhar mesmo, bem fundo, desejo um dia chegar para distribuir minhas quentinhas e não ter ninguém na fila. Pois ninguém tem fome e ninguém precisa mais da minha marmita.”



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