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A moda vive de despertares. As tendências vêm e vão, como sonhos, ao ritmo de peças que voltam para acertar as contas com o tempo. A novidade de 2026 é o baby-doll, a peça de dormir feminina, leve e curta, de camisola quase sempre sem mangas acompanhada de calcinha ou shortinho. Foi sempre modelo restrito a quatro paredes, de quartos à meia-luz ou luz nenhuma. Agora, deixou a penumbra como fenômenos pop.

O baby-doll está nas passarelas, nas ruas e, portanto, também nas redes sociais. A protagonista da tendência é a cantora americana Olivia Rodrigo. Durante a divulgação de seu novo álbum, You Seem Pretty Sad for a Girl So in Love, a cantora transformou o modelo provocador, por assim dizer, em chave de sua identidade visual. Surgiu em estampas florais, vestidos com jeitão de lingerie vintage e conjuntos acompanhados por bloomers — os shorts bufantes com babados que parecem ter saído de um filme de Sofia Coppola. Bastou uma apresentação em Barcelona para que a internet entrasse em combustão. Acusada por alguns usuários de estar se sexualizando com estética infantil, Olivia respondeu, irritada, considerando que as pessoas viram problema onde não há. Para ela, a reação do público “mostra como realmente normalizamos a pedofilia em nossa cultura”.
Há, de fato, como sempre houve, muito barulho toda vez que o baby-doll sai da cama. O preconceito não é alimentado por quem o leva no corpo, mas na mente de quem o vê, especialmente homens, simples assim. O desenho foi inspirado em fantasia, com um quê de provocação, e daí? Nasceu em 1942, quando a estilista americana Sylvia Pedlar precisou encurtar camisolas por causa do racionamento de tecidos imposto pela II Guerra Mundial. O resultado foi um estilo mais curto, solto e confortável. Anos depois, o filme Boneca de Carne (1956), de Elia Kazan, baseado em texto de Tennessee Williams, transformou a silhueta em estrondo cultural. A atriz Carroll Baker, a bordo do baby-doll, consolidou uma imagem que misturava sensualidade e vulnerabilidade. Pouco depois, a moda tratou de legitimá-la. Em 1958, Cristóbal Balenciaga apresentou os famosos vestidos trapézio, de pegada noturna.

Décadas mais tarde, a Swinging London dos anos 1960 faria o resto. A estilista Mary Quant, a modelo Twiggy e toda uma geração transformaram aquela silhueta em símbolo de juventude e ruptura. Como dizia Yves Saint Laurent, “a moda não apenas torna as mulheres bonitas, ela lhes dá confiança”. O baby-doll fazia exatamente isso: libertava o corpo das estruturas rígidas que dominaram a primeira metade do século. Sua encarnação mais interessante, porém, surgiu nos anos 1990, quando Courtney Love apareceu usando vestidos florais de aparência inocente combinados com a maquiagem borrada, meias rasgadas e botas pesadas. A delicadeza deixava de ser submissão para virar ironia.
Como tudo no mundo precisa de aval das celebridades, em carimbo que passa pelas onipresentes postagens, depois de aqui e ali a moda pegar, deu-se a expansão da onda por meio dos famosos e muito famosos. Começou com Taylor Swift, que apareceu em versões mais românticas repaginadas pela estética “bonequinha”. Sabrina Carpenter transformou o visual em marca registrada de seus shows — não tem erro. E Madonna, sempre Madonna, especialista em revisitar ícones femininos para subvertê-los, a mãe de todas as recentes revoluções de postura, levou o conceito ao festival Coachella ao surgir com um corset lilás acetinado com ares de boudoir, um salão privê.

É a história da moda desfilando diante de nossos olhos. Ao longo de mais de oito décadas, o baby-doll já foi camisola, uniforme rebelde, fantasia de estrela de cinema, manifesto punk e objeto de desejo fashion. Hoje, quando volta a desfilar entre rendas, coturnos, corsets e batons borrados, parece nos lembrar de algo que insistimos em esquecer: o modo pelo qual uma mulher se veste não pode ser sinônimo de subordinação.
Publicado em VEJA de 5 de junho de 2026, edição nº 2998
Fonte: veja.abril
