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Belezapor que indústria precisa reagir

Apostas online já disputam recursos com alimentos, produtos de higiene, cuidados pessoais, limpeza, suplementos, manutenção do lar e formação de poupança. Diante dos sinais de endividamento e substituição do consumo, empresas e associações precisam transformar a preocupação em uma agenda institucional.

Por Murilo Marques, editor do portal Cosmetic Innovation

A indústria de bens de consumo ganhou um concorrente que não está nas gôndolas, não oferece alimentos, não cuida da higiene da família, não limpa a casa nem melhora a qualidade de vida. Ele cabe na palma da mão e, em poucos segundos, pode absorver o dinheiro que seria destinado ao supermercado, ao pagamento de contas ou à formação de uma reserva financeira.

São as plataformas de apostas online, as chamadas bets, que passaram a disputar diretamente o orçamento das famílias brasileiras.

Não seria responsável atribuir às apostas toda retração de volume ou desaceleração do varejo. Inflação, juros, crédito, endividamento e renda também interferem no consumo. Mas seria igualmente imprudente ignorar as evidências de que uma parcela crescente dos recursos destinados às bets está saindo do comércio, da poupança e até de despesas essenciais.

A sirene já está tocando. Indústria, varejo e associações precisam ouvi-la.

O dinheiro das apostas está saindo do consumo

Pesquisa realizada pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas e pelo SPC Brasil, em parceria com a Offerwise, estimou que 39,5 milhões de consumidores pagaram por algum jogo ou aposta online no período de 12 meses analisado.

Entre os apostadores entrevistados, 41% disseram ter renunciado a algum consumo para jogar. As apostas retiraram recursos de alimentação fora de casa, internet, passeios familiares e, para 12%, diretamente das compras no supermercado. O levantamento também apontou que 17% deixaram alguma conta sem pagar para apostar.

Esses números não retratam apenas uma nova modalidade de entretenimento. Eles revelam uma transferência de renda.

Cada real direcionado de maneira recorrente às apostas deixa de financiar outra decisão familiar: alimentos, produtos de higiene, cosméticos, suplementos, itens de limpeza, manutenção da casa ou uma pequena reserva para emergências.

O problema se agrava quando a aposta deixa de ser percebida como lazer e passa a ser considerada uma alternativa para complementar a renda ou resolver dificuldades financeiras.

Pesquisa da Serasa com o Instituto Opinion Box, realizada com 4.463 consumidores inadimplentes, mostrou que, entre os endividados que já haviam apostado, 44% buscavam dinheiro para quitar dívidas. O dado evidencia um ciclo perigoso: o consumidor aposta para solucionar uma dificuldade financeira, perde recursos e pode comprometer ainda mais sua capacidade de pagar contas e consumir.

Levantamento da FecomercioSP também apontou que, caso não utilizassem o dinheiro nas plataformas, muitos consumidores destinariam os recursos ao pagamento de contas, à compra de alimentos ou à poupança.

Quando o orçamento fica comprometido, o efeito chega rapidamente ao varejo. As famílias reduzem a quantidade de itens comprados, migram para marcas mais baratas, escolhem embalagens menores, adiam reposições e retiram da cesta produtos considerados menos urgentes.

O impacto pode aparecer na redução do consumo de itens de beleza, cuidados pessoais, nutrição especializada, limpeza, manutenção, decoração e pintura do lar.

As bets não precisam provocar uma queda generalizada do varejo para representar uma ameaça. Basta que reduzam o consumo potencial, pressionem o mix de produtos e agravem a vulnerabilidade financeira das famílias.

Bilhões fora da economia de consumo

O Banco Central estimou que as transferências mensais para empresas de apostas variaram entre R$ 18 bilhões e R$ 21 bilhões durante o período analisado em 2024. Cerca de 24 milhões de pessoas físicas realizaram ao menos uma transferência via Pix para essas empresas.

Esses valores representam o fluxo bruto de transferências, e não a perda integral dos consumidores, já que parte do dinheiro retorna como prêmio. Ainda assim, a dimensão financeira demonstra o espaço que as apostas conquistaram no orçamento da população.

Estudo da Strategy&, consultoria estratégica da PwC, estimou que o volume de apostas esportivas em 2023 correspondia a até 5% dos gastos das famílias brasileiras com alimentação. O levantamento também indicou que 52% dos consumidores deslocaram para as apostas recursos antes destinados à poupança.

Não é possível calcular com precisão quantas unidades de alimentos, cosméticos, suplementos, produtos de limpeza ou tintas deixaram de ser vendidas. Mas a convergência dos estudos permite uma conclusão consistente: as bets já ocupam uma parcela do orçamento que poderia financiar o consumo, o pagamento de obrigações e a formação de poupança.

Um projeto importante continua sem avançar

O Projeto de Lei nº 2.985/2023, aprovado pelo Senado, propõe restrições mais rigorosas à publicidade das bets. Entre as medidas estão limitações de horários, maior proteção aos menores de idade e restrições ao uso de atletas, artistas, comunicadores e influenciadores nas campanhas.

Apesar da importância do tema, o projeto chegou à Câmara dos Deputados em junho de 2025 e continuava aguardando despacho do presidente da Casa, sem comissão definida ou avanço efetivo em sua análise.

Enquanto a proposta aguarda encaminhamento, as bets continuam presentes nas transmissões esportivas, nas camisas dos clubes, nas redes sociais e na rotina de milhões de consumidores.

A demora legislativa não é neutra. Ela permite que a exposição e a normalização das apostas avancem mais rapidamente do que os mecanismos de proteção.

A indústria e o varejo precisam se unir

Em 2024, entidades nacionais ligadas ao comércio, consumo e varejo publicaram um manifesto alertando para o redirecionamento da renda destinada ao consumo, inclusive à alimentação. O documento defendeu maior controle da publicidade, responsabilização das plataformas e medidas mais rigorosas de proteção.

Agora, essa mobilização precisa ganhar escala.

Associações de supermercados, alimentos e bebidas, higiene e limpeza, cosméticos, suplementos, tintas, atacado, distribuição e varejo devem formar uma frente permanente sobre o tema.

ABRAS, APAS, ABIA, ABIHPEC, ABIPLA, ABRAFATI, ABIAD, ABAD, CNDL, CNC, Fecomercios e demais entidades representativas precisam pressionar o Congresso Nacional para destravar o Projeto de Lei nº 2.985/2023 e ampliar os mecanismos de controle.

Entre as medidas que merecem ser debatidas estão limites obrigatórios de depósitos e perdas, períodos de bloqueio após comportamentos de risco, restrições mais severas à publicidade e aos patrocínios, combate às plataformas ilegais, transparência sobre os valores perdidos pelos apostadores e destinação de recursos para prevenção e enfrentamento do superendividamento.

Caso os mecanismos de controle não sejam capazes de reduzir os danos, a proibição das modalidades mais agressivas e de alta frequência também deverá entrar no debate.

A proibição não precisa ser o primeiro instrumento. Mas não pode ser tratada como tabu quando as medidas de proteção ao consumidor se mostram insuficientes.

Defender o consumo é também defender as famílias

Esta não é uma cruzada moral contra quem realiza uma aposta ocasional, nem uma tentativa de responsabilizar as bets por todos os problemas econômicos do país.

É uma defesa de proporcionalidade, responsabilidade e proteção ao consumidor.

Quando a aposta deixa de disputar o dinheiro do lazer e começa a disputar o dinheiro do supermercado, das contas domésticas, da higiene da família e da poupança, o problema deixa de ser exclusivamente do apostador.

Passa a ser um problema da indústria, do varejo, das associações, dos órgãos de defesa do consumidor e do Congresso Nacional.

O mercado de bens de consumo precisa deixar de apenas acompanhar os números. É hora de se unir, ocupar o debate público e pressionar por respostas antes que a transferência de renda para as bets se torne ainda mais profunda e difícil de reverter.

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