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Existe um momento em que a moda para de tentar parecer “cool” e simplesmente decide ser espetacular. Cannes mostrou isso. Tiveram sim os minimalistas comportados e vestidos previsíveis, mas também outras vertentes interessantes como, por exemplo, as plumas e paetês, que surgiram quase como personagens de um velho filme francês. Não juntos, como no clichê óbvio da showgirl ou do figurino carnavalesco, mas sim separados, independentes e muito mais sofisticados.
As plumas apareceram como gesto de styling. Surgiram em golas dramáticas, mangas, estolas e detalhes que flutuavam ao redor do corpo como os modelos de Sandra Huller, de Chanel, Demi Moore e Thaila Ayala, ambas de Gucci. Mais acessório do que fantasia. Mais atitude do que excesso. Em muitos casos, bastava um acabamento emplumado para transformar um vestido simples em algo notável.
A tendência vem amadurecendo nas passarelas há algumas temporadas. Louis Vuitton apostou em volumes etéreos e detalhes plumados de efeito escultórico. Já Valentino recuperou a dramaticidade da alta-costura com peças que pareciam suspensas no ar. E há também um eco inevitável dos anos 1920 e 1930 — da era das melindrosas aos figurinos hollywoodianos de Marlene Dietrich — quando as plumas eram símbolo máximo de sofisticação noturna.
Em Cannes, elas ganharam leitura contemporânea, na linha fashion insider. Um luxo menos rígido, com movimento, textura e certa ironia elegante.
Do outro lado do tapete vermelho, os paetês seguiram o caminho de um glamour arquitetônico. Vestidos pretos cobertos por microbrilhos, superfícies bordadas que refletiam luz de forma quase líquida e construções estruturadas que equilibravam impacto e sobriedade.
Jane Fonda surgiu em um Gucci com um brilho elegante, controlado, daqueles que iluminam sem competir com a dona do vestido. Já Isabelle Huppert, de Loewe, reforçou a força do preto cintilante em modelagem precisa, mostrando como o paetê pode abandonar qualquer caricatura festiva quando encontra uma boa construção de moda. Renate Reinsve, de Louis Vuitton, mostrou como o paetê também pode se encaixar no minimalismo.
Também existe uma herança histórica aí. O brilho carregado de glamour do cinema dos anos 1970 e 1980 — de Bianca Jagger às noites do Studio 54 — reaparece agora filtrado por uma estética mais limpa e sofisticada. O paetê deixa de ser “festa” e vira textura. Quase uma segunda pele luminosa.
Nesse contexto, Cannes aparece como algo que a moda, às vezes, esquece: glamour não precisa pedir desculpas e muito menos licença. Pode ter plumas sem exagero. Pode ter brilho sem obviedade. Pode ser teatral e elegante ao mesmo tempo. E isso torna essas duas tendências tão interessantes agora. Enquanto uma flutua, a outra reflete. Uma ocupa o ar, a outra captura a luz. Mas ambas lembram que a moda, quando quer, ainda sabe entrar em cena de forma memorável.
Veja os looks:






Fonte: veja.abril
