PARQUES URBANOS: PARQUE DO JOCKEY, SÃO PAULO

PARQUES URBANOS: PARQUE DO JOCKEY, SÃO PAULO

Durante semanas mostramos, na prática, como parques e áreas públicas impulsionam história, cultura, turismo, negócios, valorização imobiliária, equilíbrio climático e saúde coletiva. Neste último capítulo, partimos do avesso: um terreno de mais de 600 mil metros quadrados, com tudo para beneficiar a cidade — paisagem, patrimônio, localização — mas que continua preso a disputas jurídicas, fiscais e políticas. É o caso do Jockey Club de São Paulo, no coração do Morumbi, um espaço tombado, emblemático e ao mesmo tempo travado por um labirinto de interesses e ações judiciais.

Onde a discussão está agora

O Jockey Club ocupa uma das áreas mais valiosas e simbólicas de São Paulo, às margens do Rio Pinheiros, com um conjunto arquitetônico tombado desde 2010. De lá pra cá, muito se discutiu sobre o futuro do local. Em 2019, a Prefeitura iniciou as primeiras consultas públicas do Projeto de Intervenção Urbana (PIU Jockey), abrindo espaço para sugestões sobre como requalificar o terreno sem ferir sua importância histórica.

Em 2023, a revisão do Plano Diretor incluiu o Jockey na lista de áreas passíveis de desapropriação para criação de um parque municipal. No ano seguinte, uma lei municipal tentou proibir as corridas com apostas na cidade — o que acabou sendo derrubado pelo Tribunal de Justiça de São Paulo, sob o argumento de que o tema é de competência federal.

Em maio de 2025, a discussão voltou à Câmara Municipal. Na audiência pública sobre a Declaração de Utilidade Pública (DUP), a Prefeitura defendeu a abertura do espaço à população, enquanto representantes do clube, como Marconi Perillo, sugeriram outra via: a criação de um “parque privado de interesse público”, financiado com capital privado.

A confusão se aprofunda nas contas. O clube contesta valores de IPTU e ISS, questiona critérios de atualização e afirma que há erros nos cálculos. Estimativas para desapropriação giram em torno de R$ 93 a R$ 95 milhões, enquanto o valor venal do imóvel usado para fins tributários chega a R$ 1 bilhão, dependendo da metodologia. No meio disso tudo, há também ações judiciais cruzadas e dívidas fiscais milionárias.

Em setembro de 2025, o Jockey entrou com pedido de recuperação judicial, alegando passivo de cerca de R$ 19 milhões, com suspensão temporária de cobranças pela Justiça. Pouco depois, o TJSP suspendeu o processo, reabrindo dúvidas sobre o futuro da instituição.

Enquanto o destino jurídico e financeiro é discutido nos tribunais, a rotina continua dentro do hipódromo. As corridas de cavalos seguem aos fins de semana, com apostas liberadas para maiores de 18 anos, restaurantes, áreas verdes e atividades para famílias. São cerca de 1.400 cavalos nas cocheiras e eventos tradicionais como o Grande Prêmio São Paulo, que ainda movimenta o turfe nacional.

Desde 1941, quando foi inaugurado, o Hipódromo de Cidade Jardim carrega uma história marcante. As tribunas em concreto projetadas por Henri Sajous e as esculturas de Victor Brecheret tornaram o conjunto um ícone da arquitetura modernista. O espaço, porém, envelheceu cercado por avenidas e edifícios — e hoje representa tanto um patrimônio valioso quanto uma oportunidade perdida.

Do impasse ao exercício de projeto

Enquanto a complexa questão do Jockey Club se perde em um labirinto de processos judiciais, a cidade que poderia se beneficiar com um novo parque no local assiste de longe, aguardando os desdobramentos.

Mas o portal da Antena 1 foi além da polêmica. Fomos conversar com profissionais de alto nível — especialistas em paisagismo, urbanismo e arquitetura — para imaginar o que poderia nascer desse terreno se ele, um dia, se abrisse à cidade.

Crédito da imagem: paisagista Rodrigo Oliveira / Reprodução: Rodrigo Oliveira Paisagismo.

Para Rodrigo Oliveira, engenheiro agrônomo pela Universidade Federal de Viçosa e paisagista com mais de 30 anos de experiência, o terreno do Jockey é “uma verdadeira joia urbana”. Conhecido por seus projetos que misturam mata brasileira e referências orientais e europeias, e por colaborações com escritórios como Studio MK27, Isay Weinfeld, Jacobsen, Bernardes e Felipe Hess, Rodrigo acredita que é possível conciliar interesse público e investimento privado.

“Temos um ótimo exemplo em São Paulo: o Parque Villa-Lobos. A área era um aterro, e se transformou em um espaço que valorizou o entorno e democratizou o acesso. No Jockey, poderíamos pensar em algo semelhante: áreas laterais com empreendimentos privados bem integrados e, no centro, um grande parque público, com quadras, playgrounds, pista de caminhada, restaurantes, teatro e áreas para eventos. Um projeto bem feito agregaria valor à cidade e daria à população um presente: um parque verde e acessível no coração urbano”, explica.

Crédito da imagem: arquiteto Pedro Lira / Cortesia: assessoria de imprensa Natureza Urbana.

Na mesma linha, o arquiteto e urbanista Pedro Lira — formado pela UFPE, com especialização no Politécnico de Milão e doutorado pela Universidade Politécnica da Catalunha, além de professor no Institute for Advanced Architecture of Catalonia (IAAC) — propõe uma abordagem inspirada em conceitos contemporâneos de ecologia urbana e design regenerativo.

“Sonhar com um parque no Jockey é pensar num espaço que una natureza, memória e cidade. O ideal seria manter o registro histórico da pista e de parte das edificações, mas com novos usos de interesse público. O terreno pode ser redesenhado com mais verde, áreas permeáveis e água, resgatando a relação original com o rio. Penso também em conectar o espaço ao Rio Pinheiros por passarelas, estruturas flutuantes e uma grande via elevada para pedestres e ciclistas, enquanto os carros passam por baixo — algo próximo do que foi feito em Madrid Río”, diz Lira.

Crédito da imagem: escritório Natureza Urbana / Arquitetura: Pedro Lira — Ilustração “antes e depois” do Jockey Club de São Paulo transformado em parque.

A equipe de seu escritório, Natureza Urbana, chegou a desenvolver um projeto conceitual ilustrativo — que aparece na imagem principal desta reportagem — simulando como esse parque poderia funcionar. O resultado é um desenho fluido, com lagos, pontes, jardins e áreas de convívio, imaginando o Jockey transformado em um novo pulmão verde da cidade.

Com esse vislumbre, fica evidente o tamanho do potencial do “Parque do Jockey”. Um espaço aberto ali não seria apenas mais uma área de lazer, mas um símbolo de reconexão entre São Paulo e o seu rio — um convite para respirar melhor, se reencontrar com a cidade e transformar o que hoje é disputa em bem-estar coletivo. O contraste salta aos olhos: de um lado, o processo judicial que se arrasta; do outro, a possibilidade de uma cidade que renasce, unindo memória, natureza e futuro em um mesmo território.

Reveja a série completa:

1ª parte – Especial Parques Urbanos

2ª parte – Parques Urbanos – Central Park, Nova York

3ª parte – Parques Urbanos – Hyde Park, Londres

4ª parte – Parques Urbanos – Bois de Bologne, Paris

5ª parte – Parques Urbanos – Ueno Park, Tóquio

6ª parte – Parques Urbanos – Parque Ibirapuera, São Paulo

Fonte: antena1

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