O dinheiro nunca foi apenas aquilo que compra, paga ou garante sobrevivência. É também, medida de sucesso, segurança, liberdade, reconhecimento e, para muitos, uma espécie de prova do próprio valor. Faz parte da fantasia de um ideal de si mesmo em qualquer campo.
Ele pode ocupar o lugar de diferentes objetos no campo do desejo. Sua falta pode ser vivida como impotência, fracasso ou exclusão. Seu excesso, por outro lado, nem sempre produz satisfação. Ter pode tranquilizar, mas também pode despertar medo de perder; acumular pode oferecer segurança, mas igualmente alimentar a ideia de que nunca será suficiente.
É nesse ponto que a angústia cotidiana encontra o dinheiro.
Compramos para aliviar uma frustração, parcelamos para antecipar uma satisfação, trabalhamos além do limite para sustentar uma imagem de sucesso. Perdemos tudo e passamos anos sem entender como, para não pensar no porquê.
Muitas vezes, acreditamos que estamos tomando decisões racionais quando, silenciosamente, estamos respondendo a demandas inconscientes.
A cultura da instantaneidade escancarou esse cenário. Basta uma promessa de ganho em apostas online para provar que a maioria de nós, pelo menos na fantasia, se excita com a possibilidade de ser “O Sortudo”. Não à toa, o número de apostadores online no Brasil beira os 40 milhões.
Vivemos em um tempo que promete todos os ganhos, sem alertar seus custos.
A promessa de dinheiro rápido inunda tudo e inverte as prioridades. Deixando mais nítido um lado sombrio, impulsivo e vulnerável do ser humano.
O problema é que o desejo humano não obedece à lógica racional e nem moral.
Talvez por isso uma importante pergunta seja:
“o que o dinheiro representa para mim?”
Dinheiro é e, na minha opinião, continuará sendo, um meio claro que denuncia tudo aquilo que inconscientemente mora em nós e tentamos negar. Nossa relação com o dinheiro é tão complexa e cheia de segredos quanto nossa sexualidade. Adoramos um guru, um mentor, um mestre das finanças, uma roleta que nos prometa fortunas. Assim como temos um fascínio pelos personagens que exibem seu erotismo aos quatro ventos, pelo viagra, pelos rituais que prometem prazer interminável.
Somos assim sujeitos da falta, nunca completos.
