Nossa Viagem Gastronômica da vez tem gostinho de mar e é por Lisboa. Faz algum tempo que quero falar sobre a arraia – ou raia, como é chamada essa “prima” do tubarão em Portugal. Tal como no Brasil, onde esse peixe cartilaginoso faz parte da comida popular, como é o caso da moqueca de arraia, super típica do nordeste brasileiro, em terras lusas ela costumava a ser relegada às mesas mais simples por seu baixo custo, cada vez mais ela brilha nas mãos dos chefs de cozinha.

Raia com Pezinhos de Coentrada do Chef Hugo Guerra para a Bica do Sapato, em Lisboa. Foto: Gisele Rech
A do Nuno Mendes, do Santa Joana (Lisboa), merece aplausos: é servida com funcho e molho de manteiga defumada, com porco crocante e parmesão. Mas hoje, vamos falar do prato do chef Hugo Guerra, da Bica do Sapato, às margens do Tejo. E, para além dela, explorar o que vem sendo feito nessa casa icônica da restauração portuguesa, por onde já passaram muitos dos chefs que hoje fazem sucesso por aqui.
O nosso encontro com a “raia” deu-se em um almoço vínico na Bica, com o produtor Oboé, do Douro. Na versão do Guerra apresentada para harmonizar com o tinto “Igas”, que mescla touriga nacional e touriga franca nos barris de carvalho da Oboé Wines, delicadeza e potência.
No ponto certo de cozimento, a raia pode ser cortada com garfo e fica desfiada e macia. Na Bica, ela ganha a companhia de pezinhos de coentrada. Já ouviu falar? A receita, típica do Alentejo, é um exemplo do aproveitamento máximo do porco naquela região de Portugal. Trata-se dos pés de porco feitos com um saboroso molho de coentro – para quem gosta, é claro. O acompanhamento, cheio de colágeno, trouxe suculência, em combinação alinhada com um sedoso purê de aipo.
Mas o almoço teve mais, é claro. De entrada, carpaccio de gambas do Algarve, uma das regiões mais profícuas na produção deste crustáceo, com espinafre e molho de yuzu. O prato foi harmonizado com um branco feito exclusivamente de rabigato.

Carpaccio de gambas do Algarve com espinafre, madioca frita e molho de yuzu. Foto: Gisele Rech
Depois, pombo, um personagem constante na cena gastronômica da França e que cada vez mais vejo por aqui. Guerra preparou uma versão com arroz de cogumelos e miúdos – ou miudezas – do animal, com um tinto da mais alta gama da vinícola, feita com tintas das vinhas velhas.

Pombo com Arroz de Miúdos e Cogumelos do chef Hugo Guerra para a Bica do Sapato. Foto: Gisele Rech
Para a sobremesa, Pavlova com manga e maracujá, desta vez sem vinho de sobremesa. Fomos do branco feito de vinhas velhas, o Som das Barricas, também da linha premium da vinícola, que gira em torno dos 40 euros no site da Quinta dos Cabaços.

Pavlova de manga e maracujá. Foto: Gisele Rech
Sobre a Bica
O restaurante, à beira do Tejo e em frente à estação de Santa Apolônia, em Lisboa, surgiu como um projeto disruptivo nos anos 2000, quando Portugal começava a dar atenção a uma gastronomia mais cuidadosa, por assim dizer.
A reabertura foi em julho do ano passado, em um espaço cuidadosamente decorado, com ar moderno e comida – e bebidas, com direito a um bar anexo – que também seguem a linha contemporânea. Fica na Avenida Infante Dom Henrique, no Armazém B no Cais da Pedra. Fecha apenas às segundas e fica aberto das 12h30 à meia-noite até quinta – na sexta, o horário é estendido até as 2h. No sábado vai das 10h às 2h e no domingo das 10h às 18h.
