Talvez você nem tenha provado. Talvez nem tenha tido vontade. Ainda assim, é bem provável que tenha visto — e revisto muitas vezes — o morango do amor passar pelo seu feed. A sobremesa dominou vídeos, vitrines e conversas no último verão, mas, como tantas tendências da internet, já parece ter ficado para trás. É ou não é?

Morango do amor partido ao meio com brigadeiro branco Foto: Adobe Stock
O episódio ilustra bem um fenômeno cada vez mais comum: receitas que surgem quase do nada, tomam conta das redes sociais e desaparecem com a mesma rapidez. Mas, no meio desse ciclo acelerado de modas culinárias, fica uma pergunta inevitável: quem decide o que vira tendência à mesa?
A lógica não é exatamente nova. Durante décadas, livros de receitas, programas de televisão e colunas gastronômicas ajudaram a pautar modismos culinários. Hoje, esse papel passa cada vez mais pelos algoritmos das redes sociais, que selecionam e amplificam conteúdos capazes de gerar engajamento rápido.
Segundo levantamento do aplicativo de vídeos curtos Kwai, quatro receitas virais de 2026 — entre elas o chamado “sushi de preguiçoso”, o cheesecake japonês simplificado e a salada crocante de macarrão feita na airfryer — já somam quase 500 milhões de visualizações na plataforma. A popularidade dessas receitas mostra como a cozinha doméstica passou a dialogar diretamente com aquilo que viraliza nos feeds.
Provamos o famoso ‘cheesecake japonês’
Mais do que a rede social em si, o que parece definir o sucesso de uma receita hoje é o formato do conteúdo: preparos rápidos, ingredientes acessíveis e, principalmente, imagens capazes de prender a atenção em poucos segundos.
A cozinha como espetáculo

O sociólogo Carlos Alberto Dória lança “Remates Culinários” Foto: editora tapioca
Para o sociólogo Carlos Dória, pesquisador da cultura alimentar brasileira e autor de diversos estudos sobre gastronomia e sociedade, o fenômeno precisa ser entendido dentro de um contexto cultural mais amplo.
Segundo ele, a própria gastronomia funciona como uma linguagem cultural. Nesse ambiente simbólico ampliado pelas redes, a comida passa a circular também como espetáculo visual. “Uma pizza na mesa já é uma imagem. O que acontece agora é que essa imagem se torna relativamente autônoma”, explica. Ou seja, a comida existe para além de quem a consome. Ela, sozinha, é o show.
Isso ajuda a entender por que tantas receitas virais parecem existir mais como conteúdo do que como prática culinária cotidiana.
“Essas coisas muitas vezes não são feitas necessariamente para serem reproduzidas. Elas existem porque são um espetáculo em si”, diz.
Dória afirma que a lógica da viralização também está ligada ao imediatismo da comunicação digital. “Diante dessa liberdade de improvisação, não existe exatamente o elaborado e o sofisticado. Existe o imediato e o rápido.”
Para ele, esse novo território dominado pela circulação de imagens representa uma transformação importante na cultura alimentar contemporânea. “Esse território da imagem no domínio da internet é uma dimensão nova da gastronomia.”
Isso não significa, necessariamente, o desaparecimento da diversidade culinária. “Não sei se isso acaba com a diversidade. Acho que, na verdade, aumenta o ruído”, afirma.
Entre inspiração e repetição
Na cozinha doméstica, o impacto desse fluxo constante de receitas também aparece no comportamento de quem cozinha no dia a dia. A chef e pesquisadora Helô Bacellar observa que o volume de conteúdos culinários nas redes influencia diretamente o que as pessoas decidem preparar em casa.
“Esse excesso de informação padroniza muita coisa; as pessoas acabam realmente fazendo coisas iguais”, afirma.

Helô Bacelar na cozinha (fantástica) cozinha da sua casa Foto: Lucas Terribili|Divulgação
Ao mesmo tempo, ela aponta que a internet também ampliou o interesse pela cozinha doméstica.
“Quando começou a pandemia, o interesse das pessoas pelo ato de cozinhar aumentou muito. Tenho leitores que disseram que tinham panelas guardadas e decidiram abrir e experimentar fazer algo.”
Para Helô, a popularização de receitas simples pode ter um efeito positivo no cotidiano alimentar.
“A divulgação de técnicas básicas ajuda pessoas comuns a cozinhar um pouco melhor em casa.”
Na prática, esse movimento também pode ampliar o repertório de quem cozinha no dia a dia. Segundo Helô, muitas pessoas passaram a experimentar receitas que antes não faziam parte da rotina doméstica. Preparos como pães artesanais, massas caseiras ou pratos de outras culturas começaram a aparecer com mais frequência nas cozinhas de casa, impulsionados pela circulação constante de vídeos e tutoriais nas redes.
Para ela, quando o público busca referências confiáveis e conteúdos bem produzidos, essa popularização pode ter um efeito educativo. Ao aprender técnicas simples ou testar novos ingredientes, o cozinheiro doméstico ganha mais segurança e autonomia na cozinha — algo que pode tornar a alimentação cotidiana mais variada e menos limitada ao repertório tradicional do dia a dia.
Para quem trabalha diretamente com gastronomia nas redes, o fenômeno também tem ambivalências. O chef e criador de conteúdo Mohamad Hindi afirma que a internet se tornou uma ferramenta importante de pesquisa e inspiração.
“Eu mesmo pego muita referência de receitas e pratos na internet, desde empratamento até preparo”, diz. “Isso populariza receitas que não são tão conhecidas e até gastronomias que muitas pessoas talvez nunca teriam contato.”

Debatesobre a Amazônia e o projeto Vai Tapajós, naSoul Kitchen, nos Jardins Foto: Christina Rufatto
Segundo ele, esse processo pode ter impactos positivos inclusive fora da cozinha. “Não é só para comida. Para viagem também. Acaba estimulando turismo, cultura. Então tem um lado muito positivo, desde que você acompanhe pessoas que fazem o trabalho certo.”
Ao mesmo tempo, o chef observa que a lógica da viralização tende a repetir certos formatos.
“Existe um outro lado: você acaba vendo sempre a mesma coisa”, afirma.
Mohamad aponta que muitas receitas virais apostam no exagero visual — grandes quantidades de ingredientes, texturas chamativas ou combinações pouco convencionais.
“Fica tudo meio pasteurizado. São comidas com muito queijo, muito chocolate, muita Nutella. Não necessariamente focando na qualidade do alimento, mas nessa coisa viral da abundância e do exagero.”
Segundo ele, isso pode gerar uma distância entre o vídeo e a experiência real do prato. “Às vezes aquilo viraliza, mas o lugar ou a receita não entrega a mesma qualidade que aparece no vídeo.”
Ainda assim, as redes sociais se tornaram uma ferramenta central para o setor gastronômico. “Hoje o Instagram de um restaurante é mais importante que o site. É ali que as pessoas veem horário, localização, cardápio, perguntam coisas pelo direct. E também é onde muitos criadores vão filmar e postar. Isso pode viralizar muito rápido.”
Entre tendência e técnica
Se nas redes a lógica da viralização privilegia impacto imediato, no jornalismo gastronômico o processo costuma seguir outro caminho.
No Paladar, todas as receitas publicadas passam por um processo de teste e validação por especialistas antes de chegar ao leitor. Mais do que replicar tendências passageiras, o trabalho editorial busca apresentar possibilidades culinárias que ampliem o repertório do público — pratos que tragam técnica, cultura e combinações de sabor bem construídas.
A diferença não está apenas na escolha da receita, mas na intenção. Enquanto a internet muitas vezes privilegia aquilo que chama atenção rapidamente, o objetivo aqui é mostrar caminhos possíveis para cozinhar melhor, compreender ingredientes e explorar diferentes tradições culinárias.
O algoritmo à mesa
A popularidade de receitas simplificadas — como o “sushi de preguiçoso”, uma travessa de arroz japonês com salmão picado e cream cheese — ilustra bem essa dinâmica. O prato acumula milhões de visualizações e milhares de vídeos replicando a ideia.
Para Carlos Dória, fenômenos como esse ajudam a mostrar como a comida circula culturalmente hoje. “A gastronomia é um discurso sobre a culinária”, afirma. Ou seja, além de alimentar, a comida também comunica hábitos, repertórios e posições sociais.

Woman lying down on the couch at home and watching social media videos on her smartphone Foto: Adobe Stock
Nesse ambiente marcado pela circulação intensa de imagens e vídeos, receitas passam a ganhar visibilidade muito rapidamente e a se espalhar para públicos diversos. O processo não determina necessariamente o que as pessoas comem no dia a dia, mas amplia o alcance de certos pratos, formatos e combinações.
Para Dória, o impacto dessa dinâmica sobre a diversidade alimentar ainda é difícil de medir. Segundo ele, as redes ampliam o volume de referências culinárias que circulam ao mesmo tempo — algumas duram poucos dias, outras acabam se incorporando ao repertório cotidiano.
Nesse fluxo acelerado, o algoritmo não cria sozinho as tendências gastronômicas, mas influencia quais imagens de comida aparecem primeiro no cardápio visual que milhões de pessoas percorrem diariamente: o feed.
Estagiário sob supervisão de Fernanda Aranda.
