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“Moda é a armadura para sobreviver à realidade.” A frase do lendário fotógrafo de street style Bill Cunningham nunca pareceu tão apropriada quanto agora, com a estreia nesta quinta-feira 12, de “O Morro dos Ventos Uivantes”. Antes mesmo de o público julgar o filme, nova adaptação do clássico de Emily Brontë dirigida por Emerald Fennell, quem já domina a conversa — e a curiosidade — são os figurinos de Margot Robbie, dentro e fora da tela.
No longa, a atriz vive Cathy Earnshaw cercada por uma estética que mistura rigor histórico, licenças criativas e muita provocação visual. Já no início das filmagens, virou foco de debate pelo vestido de noiva branco, ombro a ombro, com corpete estruturado, mangas bufantes, saia volumosa e brilho de baile. O problema? Para historiadores da moda, o visual remete muito mais aos anos 1980 do que ao início do século 19. Além disso, vestidos brancos só se popularizaram após o casamento da Rainha Vitória, em 1840 — cerca de 40 anos depois do período em que se passa a obra de Brontë. Resultado: as redes sociais entraram em combustão, acusando o figurino de anacrônico.
Não bastassem as polêmicas dentro do filme – com o figurino de Cathy também visto como aristocrático demais – fora é a própria Margot Robbie e seu stylist, Andrew Mukamal que andam causando ao elevar o chamado method dressing ao mais alto patamar. Assim como fizeram em “Barbie”, a dupla vem traduzindo o universo do filme para o tapete vermelho — ainda que em versões mais fashion, sensuais e não literais.
Um dos momentos mais comentados foi o look vintage de John Galliano, coleção primavera 1992, usado em Londres, com casaco longo em toile com shearling rosa pálido, combinado a micro saia preta e — eis a polêmica fashion — cinto de ligas com meias vermelhas até a coxa. Cathy de ligas vermelhas? Talvez não no romance de 1847, mas totalmente possível no imaginário de Margot Robbie em 2026.
Mas é fato que a sensualidade é parte do figurino-narrativa do filme: há, por exemplo, a cena do espartilho sendo apertado em Cathy, com respiração ofegante e faces ruborizadas. Ideia hoje em dia muito criticada até em longas de época como “E o Vento Levou…” por sugerir o sacrifício feminino em nome da beleza, mas que Margot não hesitou em levar para o tapete vermelho ao apostar nesse look Valentino com liga aparente, que eco a tensão entre repressão, desejo e fetiche que a nova versão de “O Morro dos Ventos Uivantes” sugere.
Em outra pré-estreia, a estrela reforçou o discurso com um corset estruturado da Schiaparelli, de inspiração histórica, mas com acabamento e recortes contemporâneos. Chanel, Thom Browne e Ashi Studio também ajudaram Margot a mostrar essa Cathy aristocrática e reinterpretada sob o olhar da moda atual: menos museu, mais passarela; menos fidelidade literal, mais impacto visual. Some-se a isso as discussões sobre seu cabelo loiro (no livro de Emily Brontë, ela teria cabelo castanho e cacheado), casting e releituras contemporâneas dos personagens, e pronto: está armado o combo perfeito para polêmica.
Talvez Emerald Fennell e Margot Robbie saibam exatamente o que estão fazendo. Mesmo com críticas de historiadores, puristas e fãs da obra original, os figurinos estão cumprindo seu papel principal: gerar conversa, provocar, dividir opiniões — e, assim, colocar “O Morro dos Ventos Uivantes” no centro do debate cultural. Porque, no cinema e na moda, vale a máxima: falem bem, falem mal — mas falem. E é fato que todo mundo está falando.
Veja looks de Margot Robbie:






Fonte: veja.abril
