Azul é a cor mais quente: por que a tonalidade domina a temporada de desfiles

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Há cores que nem mesmo a natureza seria capaz de criar. Em 1960, o artista francês Yves Klein fez imenso barulho ao patentear o tom International Klein Blue (IKB), um pigmento sintetizado que provocaria espanto duradouro. Não demorou para invadir museus, por meio de telas, e desembarcar também nos ateliês de moda, que o adotaram pela força estranha que fazia emanar. Disse Klein, de modo a alimentar sua invenção: “O azul é a cor da distância perfeita entre o sonho e o real”. Havia, é claro, um quê de filosofia meio sem sentido na defesa do IKB, mas que pegou, pegou. Foi de carona no permanente sucesso do tom índigo, que tem pelo menos 111 variações e, de acordo com pesquisas respeitadas, é aprovado por 45% da população global, comumente associado a aspectos positivos.

MANIFESTO - As atrizes Kate Hudson (à esq.) e Deborah Secco: e quem disse que era coisa de meninos?
MANIFESTO - As atrizes Kate Hudson (à esq.) e Deborah Secco: e quem disse que era coisa de meninos? (Andreas Rentz/Getty Images; @dedesecco @raulbittencourtt/Instagram)

E então, na temporada fashion deste ano, lá despontou o azul como rei sol. Giorgio Armani (1934-2025) encerrou seu último desfile com um look embebido da aparência de céu ao cair da tarde, reafirmando que “é a cor da elegância absoluta”. No Brasil, Alexandre Herchcovitch seguiu a toada. O conforto emocional combinado com a paleta rica em possibilidades virou sinônimo de aposta certa. “O azul é a cor que você escolhe, até sem querer, quando está em momentos difíceis, porque ele tem esse poder de nos fazer sentir mais confortáveis”, diz o estilista Lino Villaventura.

Entre celebridades, especialmente, despontou com elegância, por meio de nomes como as atrizes Kate Hudson e Deborah Secco. A princesa Kate Middleton, conhecida por preferir verde e vermelho, surpreendeu ao exibir vestidos tingidos de anil em momentos simbólicos — o casaco-escultura de Alexander McQueen e um vestido de Jenny Packham em gala no Castelo de Windsor. A cor, é unânime, transmite força, presença e modernidade no cotidiano, sem que soe mera ostentação, é o que indicam sondagens de quem lida com estilo. E não custa lembrar que houve maciça adoção, sobretudo entre mulheres, como resposta à conservadora onda global. Nada de dizer, portanto, que rosa é coisa de meninas e o azul, de meninos. Vale tudo, é evidente, porque atribuir rótulos a um gênero ou outro é bobagem, de uma vez por todas. Usa azul quem quiser — e elas querem, de uma vez por todas, sem nenhum preconceito, como forma de manifesto.

INVENÇÃO - Yves Klein, em 1960: criador de um tom inexistente
INVENÇÃO - Yves Klein, em 1960: criador de um tom inexistente (Charles Wilp/BPK-Berlin/.)
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Aplausos, portanto, para a cor de todas as cores. O encantamento com o azul atravessa séculos. Van Gogh dizia não se cansar dele. Mestres como Matisse, Picasso e Vermeer andavam no firmamento. E cabe lembrar também de uma linda frase de Clarice Lispector: “O inalcançável é sempre azul”. Ela ajuda a entender o fenômeno de gosto pela tinta que anda nos corpos, nos tecidos, corações e mentes.

Publicado em VEJA de 12 de dezembro de 2025, edição nº 2974

Fonte: veja.abril

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