Há uma diferença sutil que separa o queijeiro do queijista. O primeiro faz o queijo. O segundo vende, carrega mundo afora, corta com precisão, defende com convicção. Sabe de que leite nasceu, em que terra curou e com qual vinho deseja ser acompanhado. É para esses — os guardiões da experiência queijeira — que o 3º Concurso de Melhor Queijista do Brasil vai ser palco em abril de 2026.

Candidatos do concurso de Melhor Queijista do Brasil em 2024, no Teatro B32 Foto: Arnaud Sperat Czar/Profession Fromager
Há 15 anos sou jornalista da revista especializada nos queijeiros franceses de tradição, Profissão Queijeira. Também sou professora da escola francesa de queijistas em Paris desde 2021. A profissão me encanta. Ensinei muitos alunos e testemunhei, ano após ano, a força dos brasileiros no Mondial du Fromage de Tours, na França.

Anderson Aguiar, vencedor em 2024 Foto: Arnaud Sperat Czar/Profession Fromager
Mas há algo particularmente emocionante em ver esse reconhecimento florescer no solo de onde partem os nossos maiores tesouros lácteos. O concurso brasileiro de queijista, que chega agora à sua terceira edição, não é uma extensão do modelo francês — é um encontro de duas culturas que se reconhecem na mesma devoção – e profissão.

Cristiane Caroline Abade, queijista à frente do Empório Montanara, em Londrina e 2° lugar Foto: Arnaud Sperat Czar/Profession Fromager
As inscrições estão abertas até 15 de fevereiro de 2026, e a seletividade começa antes mesmo de o candidato pisar no palco do Teatro B32. O dossiê exige currículo, memórias afetivas sobre um queijo preferido — sim, porque é preciso saber escolher o que se ama — e as medidas para a confecção da doma profissional que a organização fornecerá.

Juliana Pereira, queijista da La do Interior Foto: Arnaud Sperat Czar/Profession Fromager
Os selecionados enfrentarão dois dias de provas concebidas por Annick Polèse, presidente da Fédération des Fromagers de France e autoridade máxima da queijaria mundial, junto com Marina Cavechia, vencedora da primeira edição em 2022 e Comissária Geral. O júri, que tem 13 experts internacionais vai reconhecer o talento bruto lapidado por anos de balcão, mercado, feira e experimentação silenciosa.
Na quinta-feira, 16 de abril, os candidatos serão testados em três frentes: um exame de cultura queijeira geral, outro em inglês ou francês sobre Denominações de Origem e Indicações Geográficas, e uma degustação às cegas onde cinco minutos decidirão se o profissional sabe reconhecer, pelo aroma e textura, a tecnologia de fabricação, o estado de origem, o leite, a maturação e o nome de dois queijos brasileiros. Precisa memória sensorial e treino.

Lais Cristine Moreira Novoa Foto: Arnaud Sperat Czar/Profession Fromager
Ainda no primeiro dia, cada candidato receberá R$500 e sairá, acompanhado pela organização, para comprar ingredientes frescos. Frutas, flores, charcutaria, temperos — tudo o que tornará sua tábua única. Para ser justo, o dinheiro é o mesmo para todos. O que difere é o olhar.

e a jurada inglesa Emma Young, que retorna ao Brasil em abril Foto: Arnaud Sperat Czar/Profession Fromager
No sábado, 18 de abril, o palco do Teatro B32 se transforma em ateliê. Os celulares são recolhidos, os queijos distribuídos igualmente para todos. A prova de corte começa dando cinco minutos para cortar e embalar quatro pedaços de 250 g.

Ana Carolina Pereira Siqueira, queijista do Teta Cheese Bar Foto: Arnaud Sperat Czar/Profession Fromager
Há ainda a defesa oral do queijo favorito: três minutos para harmonizá-lo com um alimento ou bebida, argumentar sobre sua qualidade e fabricação, convencer o júri de que aquela peça de queijo merece o centro do mundo. E há a tábua temática, cujo tema desta edição é “Origens”. Vinte minutos para montar, num suporte de até meio metro, uma apresentação para quatro pessoas com cinco queijos — quatro fornecidos, um trazido de casa — e uma entrega que simula o delivery. Estabilidade, praticidade, beleza. Nenhum adereço extra além dos comprados na quinta-feira.

Carolina Nalin, da loja Queijos e Amigos de Campinas Foto: Arnaud Sperat Czar/Profession Fromager
Mas é na prova final que o concurso atinge sua dimensão mais próxima da arte. “Sinfonia de cores, perfumes e sabores: a música embala o queijo” é o tema da obra queijeira. Cada candidato terá uma hora e quinze minutos para ocupar um metro quadrado com, no mínimo, vinte queijos de todas as famílias, sessenta por cento inteiros, quarenta por cento cortados, todos etiquetados com nome, leite e origem. A criatividade, aqui, não é adereço: é critério. Suportes em diferentes níveis, cortes originais, esculturas efêmeras — tudo vale para sublimar a matéria-prima.

José Fernando Borges Bertolazi, queijista da Savoyard Fromagerie Foto: Arnaud Sperat Czar/Profession Fromager
O prêmio para o primeiro colocado é uma passagem São Paulo-Paris e uma vaga direta no Meilleur Fromager du Monde, em Tours, em 2027. Sem eliminatórias francesas, sem intermediários. Do balcão brasileiro para o pódio mundial.
Em 2026, a praça da Baleia aguarda o próximo. Que venha preparado, sim, com a certeza de que o queijo brasileiro tem voz, corte e destino. As inscrições estão no ar. O regulamento, disponível. A França nos espera.
