O frozen yogurt já foi moda em São Paulo. Há cerca de 15 anos, as lojas de iogurte congelado se espalharam pela cidade com a promessa de uma sobremesa mais leve, servida em copos e finalizada pelo próprio cliente com frutas, caldas e confeitos. A febre passou, mas a categoria não desapareceu completamente.

Sorvetes gregos voltam a ganhar espaço na cena gastronômica de São Paulo Foto: Tiago Queiroz/Estadão
Agora, ela volta com outra cara — e uma geografia bem definida. Em vez de se vender apenas como uma sobremesa de baixa culpa, o produto aparece associado à Grécia, ao Mediterrâneo e a uma ideia mais ampla de gastronomia. Iogurte, pistache, mel, azeite, baklava e frutas entram em gelatos e toppings, enquanto novas casas começam a ocupar diferentes bairros da cidade.
No Itaim, a Grecco abriu as portas no início de 2026 pelas mãos das irmãs Gabriella, Camilla e Giovanna, descendentes de gregos por parte de mãe. Nos Jardins, a espanhola Myka chegou com uma proposta mais ligada ao universo de bem-estar e fitness. Em Pinheiros, a Nostos completa esse novo trio de endereços dedicados ao frozen yogurt grego.
A coincidência chama atenção: três negócios diferentes encontraram, praticamente ao mesmo tempo, espaço para uma categoria que já havia passado por São Paulo. Mas o movimento diz menos sobre o retorno do frozen yogurt do que sobre como o consumidor está enxergando a sobremesa hoje.

Até mesmo o ambiente das novas sorveterias remete à Grécia Foto: Tiago Queiroz/Estadão
Da dieta à experiência
A primeira onda do frozen yogurt estava muito ligada à ideia de substituição: uma sobremesa que parecia mais leve, com menos açúcar e gordura, e que podia ser montada de acordo com a dieta de cada consumidor. A nova geração preserva parte dessa conversa, mas acrescenta outra camada: origem, repertório e experiência.
A Myka, criada em Madri em 2023 pela chef franco-mexicana Natalia Morales e por Javier Ezquerro, chegou ao Brasil justamente explorando essa combinação. Segundo a marca, a rede já soma mais de 240 franquias em 19 países. Por aqui, o diretor Marcelo Gasparotto Teixeira vê no público brasileiro uma oportunidade particular.
“Vimos no Brasil uma combinação muito interessante: uma cultura forte de bem-estar, esporte e alimentação equilibrada, com muita atenção à proteína, mas também um consumidor que adora se permitir algo gostoso”, diz. “A Myka vive exatamente entre esses dois mundos: é um produto premium e indulgente, que também pode fazer parte de uma rotina saudável”.
A base da Myka leva iogurte natural e kefir sem açúcar, além de uma base premium importada da Europa. A partir daí, o cliente escolhe os acompanhamentos. Frutas e opções ricas em proteína levam o produto para o território do lanche pós-treino; chocolates e cremes transformam o mesmo copo em sobremesa.
É uma flexibilidade que ajuda a explicar a nova fase da categoria. O frozen yogurt pode continuar associado à alimentação equilibrada, mas não precisa mais se limitar a ela.
A Grécia além do iogurte
Na Grecco, a história é outra. As três irmãs começaram a pesquisa antes de o movimento atual aparecer em São Paulo e viajaram pela Grécia para conhecer ingredientes, doces, cafés e hábitos alimentares. Passaram por Atenas, Náxos, Santorini e Mykonos e voltaram com a intenção de fazer do gelato uma espécie de porta de entrada para a gastronomia grega. “Costumo brincar que, no imaginário brasileiro, a Grécia fica em algum lugar entre Mamma Mia! e a A Odisseia. Mas existe um país inteiro para além dessas duas referências”, diz Gabriella.

As três irmãs da Grecco: Giovanna, Gabriella e Camilla Di Grecco Foto: Tiago Queiroz/Estadão
A frase resume a estratégia da marca. Em vez de colocar iogurte em uma máquina e construir em torno dele uma identidade grega, a Grecco tenta ampliar o repertório. Há sabores inspirados em diferentes regiões do país, como o Iogurte Grego de Creta e a Crema dos Deuses, que dialoga com a tradição de laticínios de Náxos e com o kaimaki, um dos sorvetes tradicionais gregos.
O pistache usado pela casa também é apresentado como referência ao Mediterrâneo, enquanto o Tiramisù leva Metaxa vaporizada, bebida grega feita a partir de destilados vínicos, vinho Moscatel e botânicos. Nos acompanhamentos, aparecem ainda baklava, pistache kataifi, mel, azeite e preparos inspirados em doces como kourabie e melomakarona.
A cafeteria segue a mesma lógica. Espresso, cappuccino, chocolate quente grego, bebidas com laranja e pistache e uma criação inspirada no rakomelo dividem espaço com os gelatos. “Não nasceu como uma marca de frozen yogurt grego. Nasceu como uma gelateria grega”, afirma Gabriella. “O iogurte faz parte do nosso repertório, mas é apenas uma das portas de entrada”.

A baklava também aparece como coadjuvante de luxo nas sorveterias gregas Foto: Tiago Queiroz/Estadão
É uma diferença importante em relação à Myka. Enquanto uma trabalha principalmente a possibilidade de transformar o produto em parte de uma rotina de bem-estar, a outra tenta vender uma experiência cultural mais abrangente. As duas, porém, se beneficiam do mesmo ingrediente: a familiaridade que o brasileiro já tem com o iogurte grego.
Por que agora?
A explicação para o novo interesse não está em um único fator. O iogurte grego já deixou de ser novidade no Brasil; o mercado de cafés ganhou sofisticação; ingredientes como pistache e azeite se tornaram mais presentes nas sobremesas; e a estética mediterrânea ganhou força nas redes sociais e no turismo.
A própria Grécia também vive um período de enorme exposição internacional, com crescimento do turismo e uma presença cada vez maior de sua gastronomia fora do país. “Essa não é a primeira onda de frozen yogurt que vemos no Brasil”, diz Gabriella. Para ela, a diferença é que a categoria retorna agora “muito mais associada ao imaginário, aos sabores e à estética mediterrânea e grega”.
Há também uma mudança na maneira de pensar a sobremesa. Em vez de esconder o açúcar ou vender o doce quase como um produto de dieta, a nova onda tenta conciliar prazer e ingredientes percebidos como mais naturais. Na Myka, isso aparece na escolha entre frutas e chocolate. Na Grecco, na acidez do iogurte, no sabor do pistache e no uso de mel e azeite ao lado de ingredientes mais indulgentes.

A fachada da Grecco Foto: Tiago Queiroz/Estadão
É um movimento semelhante ao que ocorre em outras áreas da gastronomia: o consumidor parece menos interessado em escolher entre “saudável” e “gostoso” e mais disposto a aceitar que as duas coisas podem ocupar o mesmo prato.
No fim, resta saber se a nova onda terá fôlego maior que a primeira. Para Gabriella, a ambição da Grecco é justamente escapar da imagem mais óbvia do país. “Queremos honrar a Grécia e não fazer uma caricatura dela”, diz. Por enquanto, o frozen yogurt volta a São Paulo não apenas como sobremesa, mas como uma forma de consumir uma Grécia filtrada pelos novos desejos do paulistano — entre o iogurte, o pistache, a baklava e a busca por uma indulgência que também pareça caber na rotina.
Serviço
Grecco
Onde: R. João Cachoeira, 1405, Vila Nova Conceição. Todos os dias, das 12h às 20h. Telefone: (11) 98191-4435.
Myka Greek Frozen Yogurt
Onde: Al. Lorena, 1906, Jardim Paulista. Domingo e segunda, das 11h30 às 22h; terça a sábado, das 10h às 22h.
Nostos Greek Frozen Yogurt
Onde: R. Mourato Coelho, 37, Pinheiros. Todos os dias, das 12h às 19h. Telefone: (11) 91956-1700.
