“Moda circular não encarece a produção”, diz diretor de Sustentabilidade da Renner

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A varejista de moda Renner não tem fábrica própria — compra peças prontas de fornecedores de confecção que, por sua vez, se apoiam em fiações, tecelagens e oficinas de costura. É nessa cadeia, e não no balcão das lojas, que se concentra o maior desafio ambiental da companhia. À frente dessa agenda há mais de uma década está Eduardo Ferlauto, diretor de Sustentabilidade da Renner e diretor executivo do Instituto Lojas Renner, entidade mantida pela empresa com a missão de transformar a vida de comunidades do ecossistema têxtil. “Cada vez mais o tema ESG e o tema de responsabilidade social vêm sendo integrados à gestão corporativa”, afirma o executivo, em entrevista ao programa VEJA+Verde.

A virada, segundo Ferlauto, começou em 2013, quando a sustentabilidade passou a ser um valor corporativo formal da companhia. Antes disso, o esforço se concentrava em conformidade legal e na articulação setorial. A partir de 2013, os temas ambientais entraram nas operações e ganharam estratégia própria, organizada em ciclos.

O compromisso mais duro é climático. As metas da empresa são validadas por iniciativas baseadas na ciência e preveem reduzir em 55% as emissões por peça produzida até 2030. Para chegar lá, a estratégia é substituir matéria-prima. Hoje, oito de cada dez peças vendidas pela Renner têm algum atributo de sustentabilidade, seja de processo, seja de origem. No fim do ano passado, a companhia lançou a primeira coleção de moda feita com algodão cultivado em sistema agroflorestal, fruto de um projeto iniciado em 2018 — desdobramento de um trabalho social com pequenos produtores que começou no norte de Minas Gerais e hoje se estende ao Ceará e à Paraíba.

O engajamento dos fornecedores é o eixo dessa transição. A empresa mantém o programa Rede Responsável, que oferece conhecimento para melhorar o desempenho ambiental da cadeia, e monitora a evolução por auditorias e por um índice de desenvolvimento que ranqueia os fornecedores. “A partir do momento em que a sustentabilidade não é só uma questão de desenvolvimento socioambiental, ela se torna um proxy de qualidade de gestão. O fornecedor se torna um fornecedor melhor para a Renner em todos os quesitos”, diz Ferlauto. A lógica econômica é explícita: ao deixar de mandar resíduo têxtil para o aterro — que tem custo por quilo — e destiná-lo à indústria automotiva, à fiação de fios de artesanato ou de volta à cadeia têxtil, o fornecedor passa a ter receita. “Isso é sustentabilidade com a premissa de não aumentar os custos”, resume o executivo, ao ser questionado se a moda circular encarece a produção.

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Pioneirismo

O clima também já entrou na contabilidade e no planejamento operacional. A Renner foi uma das primeiras empresas brasileiras a divulgar, de forma voluntária e antes do prazo exigido pela Comissão de Valores Mobiliários, o relatório de informações financeiras relacionadas à sustentabilidade e ao clima nos padrões IFRS S1 e S2. “Ali mostramos que temos mais oportunidades do que perdas”, diz Ferlauto.

Em 2024, a venda de produtos sustentáveis gerou um valor superior às perdas potenciais estimadas com riscos físicos, mapeados sobretudo em ondas de calor e inundações. Nenhum desses riscos, segundo ele, é materialmente relevante para as finanças da companhia — em parte porque o maior centro de distribuição de moda da América Latina, operado pela empresa, permite entregas por peça, remanejamento de estoque entre lojas e rotas alternativas em caso de interrupção de vias. Na expansão, a régua é a mesma: “Nenhuma loja é aberta hoje sem estudo de deslocamento de massa e sem estudo da possibilidade de inundação daquela região.”

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Essa disposição de antecipar exigências, diz o executivo, é deliberada. A empresa está há mais de dez anos no Índice de Sustentabilidade Empresarial da B3 e no índice Dow Jones de sustentabilidade, no qual hoje lidera o setor de varejo, e é bem avaliada no CDP, principal plataforma global de reporte de mudanças climáticas. “Queremos ser um agente de transformação, estar na vanguarda e nos manter vocais não só em termos de narrativa, mas também de prática”, afirma Ferlauto.

Ele reconhece que a mensuração financeira segue sendo o ponto mais difícil da agenda: economia de água e de insumos rende conta matemática, mas efeitos reputacionais são dúbios. Mesmo assim, avalia, o exercício obrigou a sustentabilidade a se sentar à mesa com a controladoria, a gestão de riscos e a estratégia — o que, no fim, é o que dá a ela poder de decisão.

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O VEJA+Verde, conduzido pelo editor Diogo Schelp, traz empresários, personalidades, gestores públicos e especialistas para apresentar suas visões e soluções sobre um dos maiores desafios para a sobrevivência da humanidade: conciliar desenvolvimento econômico e social com preservação do meio ambiente. O programa pode ser assistido toda quinta-feira, às 17h, na VEJA+ TV, transmitida nos canais Samsung TV Plus canal 2059, LG Channels canal 126, TCL Channel 10031 e Roku 221, além de estar disponível no YouTube de VEJA.

Fonte: veja.abril

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