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Durante algum tempo, parecia que se vestir bem exigia um manual. Havia uma estética para cada personalidade e, de preferência, uma personalidade para cada estética. Clean girl, old money, quiet luxury, office siren: bastava escolher a sua, comprar algumas peças-chave e seguir as instruções. A moda, porém, parece estar cansando de tanta organização.
Nas ruas e nas passarelas, começam a aparecer looks que não obedecem tão bem às categorias. Uma saia romântica encontra uma jaqueta esportiva. O blazer de alfaiataria vai com tênis. A camisa masculina aparece com uma peça ultrafeminina. A bolsa delicada ganha um chaveiro enorme. E o visual colegial — com saia de pregas, gravata, camisa, cardigã e mocassim — volta à cena, mas sem a obrigação de parecer um uniforme. A saia pode ganhar uma camiseta, a gravata aparece frouxa e o mocassim divide espaço com tênis ou botas.
Depois de anos tentando descobrir qual era a estética certa, a moda parece interessada novamente em descobrir o que é a estética de cada um. Até porque cada um tem o “seu jeito de ser”. É uma mudança pequena, mas reveladora. A era das “estéticas” ensinou uma geração a construir uma imagem coerente. O problema é que coerência demais pode virar uniforme. Quando todo mundo sabe exatamente o que precisa vestir para parecer sofisticado, moderno, sensual ou descolado, fica cada vez mais difícil distinguir estilo de fórmula.
Dua Lipa é um bom exemplo dessa liberdade. Seus looks frequentemente transitam entre referências que, em tese, não deveriam conversar: peças vintage com elementos esportivos, sensualidade com alfaiataria, referências dos anos 1990 com outras claramente contemporâneas. O resultado não cabe necessariamente em uma única estética — e por isso, funciona.
Ela não parece estar escolhendo uma estética. Parece estar escolhendo uma roupa. A diferença é importante porque a moda sempre foi uma linguagem de mistura. Chanel colocou o masculino no guarda-roupa feminino. Vivienne Westwood cruzou punk e tradição britânica. David Bowie transformou referências incompatíveis em identidade. O que parece novo hoje é, na verdade, uma volta à ideia de que estilo não precisa ser coerente para ser reconhecível.
Talvez o que esteja envelhecendo seja justamente a obsessão pela coerência.
As redes sociais ajudaram a transformar o guarda-roupa em identidade visual. O feed precisa ter uma cara. O armário também. A pessoa começa a se vestir como se estivesse construindo uma marca: escolhe uma paleta, uma silhueta, determinados acessórios e repete os códigos até que eles sejam reconhecidos. É eficiente. Mas também pode ser chato e exaustivo. Afinal de contas, ninguém é uma estética.
Uma pessoa pode acordar querendo usar uma camisa masculina, sair à noite de vestido justo e, no dia seguinte, aparecer de jeans e camiseta. Pode gostar de minimalismo e de uma bolsa absurda. Pode ser elegante e gostar de uma coisa “cafona”. Pode vestir uma saia colegial e, em vez de tentar parecer comportada, subverter completamente a ideia de uniforme.
O guarda-roupa não precisa ter uma tese. É por isso que imperfeição está ficando tão interessante. Uma combinação ligeiramente estranha pode dizer mais sobre alguém do que um look perfeitamente coordenado. O pequeno erro é justamente o que impede a roupa de parecer saída de um catálogo — ou de um algoritmo. Uma reação à ideia de que precisamos estar sempre apresentáveis, coerentes e decifráveis. Talvez seja possível estar bem-vestido sem estar completamente explicado. E existe uma liberdade enorme nisso.
A moda não precisa decidir se somos clássicos ou modernos, femininos ou esportivos, discretos ou exagerados. Podemos ser todas essas coisas — às vezes no mesmo dia. Porque personalidade não é uma estética e sim aquilo que sobra quando a mesma acaba. E talvez o melhor sinal de que alguém encontrou seu estilo seja parar de parecer que está seguindo alguma regra para encontrá-lo.


Fonte: veja.abril
