O estilo Ozempic: uso de canetas emagrecedoras leva ao encolhimento de modelitos

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Entre as inúmeras máximas que criou, o estilista francês Yves Saint Laurent (1936-2008) fez um diagnóstico indisputável: “A moda é o espelho de uma época”. O momento atual oferece uma demonstração eloquente de seu pensamento. Poucas inovações mexeram tanto com o físico e a autoestima das pessoas nos últimos anos quanto o advento das canetas emagrecedoras. Após afetar do menu dos restaurantes aos procedimentos estéticos, a transformação comportamental trazida por medicamentos como Ozempic e Mounjaro ganha reflexos inevitáveis no mundo da moda. A indústria do vestuário corre para dar resposta a duas necessidades complementares geradas pelo fenômeno: a busca por tamanhos menores e pelas roupas capazes de se moldar a um corpo que muda rapidamente.

A tendência já ganhou nome: “Ozempic dressing”. A expressão descreve a nova relação com o guarda-­roupa de quem emagrece com os medicamentos, enfatizando uma estética que valoriza a silhueta mais enxuta, com modelagens ajustadas e peças que deixam evidente a transmutação. A legião de pessoas que anseiam por isso só cresce. Segundo a consultoria PwC, 73% dos usuários de canetas nos Estados Unidos afirmam ter passado por uma mudança significativa no tamanho das roupas — e 26% deles dizem estar gastando mais com vestuário. O jeans feminino lidera o movimento, com alta de 66,1% nas compras. De acordo com outra consultoria, a Circana, 80% dos usuários esperam precisar de roupas novas por causa da mudança corporal. O instituto até deu um nome à nova realidade: “Body Transformation Economy”, ou a economia da transformação dos corpos.

TOMARA QUE CAIBA - A moda pós-canetas: marcas como Lululemon já apostam em modelagens menores
TOMARA QUE CAIBA - A moda pós-canetas: marcas como Lululemon já apostam em modelagens menores (./Divulgação)

O movimento já afeta o varejo global de roupas: a indústria têxtil agora precisa redefinir quantas peças de cada tamanho produzir e colocar nas lojas. Grifes como a canadense Lululemon farejaram essa guinada cedo. Em 2024, o CEO Calvin McDonald reconheceu que a marca havia perdido oportunidades por falta de estoque e reforçou a disponibilidade de tamanhos M e P. No Brasil, a Track&Field segue igual caminho. “Temos observado uma mudança no comportamento de consumo, com uma procura maior por grades menores em comparação ao que víamos no passado”, afirma Fernando Tracanella, CEO da rede de moda fitness.

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Além de rever proporções, o mercado acena com outra solução: a aposta em roupas ajustáveis. Zíperes, elásticos e modelagens que acompanham diferentes medidas começam a ganhar status estratégico. Grifes internacionais como Dries Van Noten, Loewe e Phoebe Philo já exploram elasticidade, amarrações e cortes expansíveis. A lógica é simples: em vez de comprar uma peça a cada mudança corporal, o que está em alta é adquirir uma que siga a metamorfose do físico. A tendência tem como atrativo, ainda, o espírito sustentável: a roupa ajustável prolonga a vida útil da peça e reduz descartes.

FITA MÉTRICA - Ajuste de antigamente: não é preciso mais correr à costureira
FITA MÉTRICA – Ajuste de antigamente: não é preciso mais correr à costureira (iStock/Getty Images)
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Apesar do impacto mercadológico, a moda pós-canetas ainda tem de lidar com uma sutil resistência. Quem emagrece não necessariamente quer uma roupa que se adapte à mudança: quer ostentar que mudou. Ou seja: comprar uma peça nova, entrar no provador e sair de lá com a satisfação quase lúdica de olhar a etiqueta e ver que agora cabe em número menor. Se a roupa ajustável é resposta racional às flutuações das medidas, a etiqueta menor traz recompensa emocional.

Por isso, a saída da indústria não está apenas em roupas que aumentam e diminuem, mas em reduções radicais nas dimensões dos manequins. Marcas como NV e Lu Monteiro já trabalham com numerações femininas como 30, 32 e 34 em alguns produtos. Há quem veja nisso um efeito colateral preocupante: o reforço ao culto à magreza extrema, que voltou a tomar as passarelas, obliterando o discurso sobre diversidade corporal que vinha ganhando espaço na era da correção política. Difícil, porém, será frear o desejo de consumo diante do progresso evidente do bem-estar proporcionado pelas canetas. Apertem os cintos, o estilo Ozempic chegou.

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Publicado em VEJA de 28 de agosto de 2026, edição nº 3010

Fonte: veja.abril

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