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Em tempos de excessos visuais e tendências descartáveis, há algo reconfortante em uma roupa que ganha vida apenas pelo movimento do corpo. E assim é o plissado – técnica de acabamento que cria pequenas pregas ou dobras permanentes no tecido — e que agora voltam com força total ao radar da moda, em roupas que dançam com o vento, criam sombras, profundidade e ritmo.
Puxadas por Kate Middleton, em visuais com pregas fluidas, tons claros e caimentos leves, o plissado passou a a aparecer com frequência em compromissos oficiais da princesa, reacendendo uma estética refinada que parecia esquecida desde os anos 1970, mas que ela resgatou como uma assinatura contemporânea de elegância prática.
Cannes fez o resto. No tapete vermelho do festival de cinema, os plissados surgiram em versões radicalmente diferentes entre si. Houve vestidos quase líquidos, transparentes e suaves, que acompanhavam o corpo sem marcar. Mas também apareceram versões arquitetônicas, dramáticas, com pregas moldadas como esculturas, criando volume e imponência como os modelos Gucci em Isabelle Huppert, de Alexander McQueen em Simone Ashley, de Tamara Ralph em Eva Longoria e o Valentino usado por Lelê Saddi.
Até Tilda Swinton, conhecida pelo minimalismo intelectual e pelas escolhas quase futuristas, surgiu envolta em um modelo vermelho da Chanel, com plissados precisos, gráficos, mostrando como o tecido pode ser ao mesmo tempo clássico e experimental. Em outras aparições do festival, as pregas vieram em chiffon, seda metalizada, organza e tecidos técnicos, com o recurso atravessando estilos, mas sem perder identidade.
Não é novidade que a moda sempre retorne ao plissado em momentos de desejo por sofisticação silenciosa. Mariano Fortuny revolucionou o começo do século XX com os vestidos Delphos inspirados na Grécia Antiga, construídos em delicadíssimos microplissados. Décadas depois, Issey Miyake transformaria as pregas em linguagem futurista com o icônico “Pleats Please”, criando roupas tecnológicas, leves e quase indestrutíveis.
Miyake dizia que “o design não é para filosofia, é para a vida”. É exatamente essa a razão do fascínio atual pelo plissado: entrega beleza sem rigidez. Tem movimento, conforto, textura e presença ao mesmo tempo. O efeito visual também ajuda. As pregas alongam a silhueta, criam verticalidade, trazem sofisticação instantânea até para modelagens simples. Um vestido reto ganha dimensão. Uma saia básica passa a parecer elaborada. Um look monocromático deixa de ser óbvio apenas pelo jogo de luz e sombra criado pelo tecido.
Nas ruas, a tendência já começa a abandonar o glamour exclusivo do red carpet. Saias midi plissadas aparecem com camiseta branca e tênis. Vestidos leves surgem acompanhados de jaquetas oversized. E os modelos metalizados — herança direta de Cannes — começam a migrar para produções noturnas mais urbanas.
Mas é fato que há algo de cinematográfico no plissado, só que sem esforço. Talvez porque ele carregue uma elegância antiga que nunca desaparece completamente. A cada passo, o tecido lembra que moda também pode ser movimento e não apenas uma imagem estática.
Veja os looks:










Fonte: veja.abril
