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Durante muito tempo, a gravidez foi tratada pela moda como um intervalo. Um período em que o estilo deveria ceder lugar à praticidade, em que o corpo precisava ser disfarçado e o guarda-roupa obedecia a um único mandamento: esconder a barriga. Bastou, porém, Anne Hathaway anunciar que está grávida e iniciar a turnê de divulgação do blockbuster A Odisseia para mostrar que essa história ficou no passado. Depois de chamar atenção nas férias em Saint-Tropez com vestidos de linho, biquínis sutis e produções de um luxo silencioso, a atriz levou a elegância gestante para o circuito mais observado da indústria: a temporada de imprensa de Hollywood. Em menos de 48 horas, surgiu com um macacão vermelho-cereja da Ashlyn, usado de forma irreverente — ela mesma brincou nas redes sociais por tê-lo vestido ao contrário. No dia seguinte, apareceu com um vestido amarelo-mostarda da coleção Resort 2027 de Lela Rose, bordado com flores sobre veludo. Duas aparições, duas propostas diferentes e uma conclusão inevitável: a gravidez deixou de ser uma categoria específica da moda para se tornar mais uma oportunidade de reafirmar o estilo pessoal.

A virada agora consagrada por Anne Hathaway é a face mais recente de uma transformação notável. Nos anos 1950, a TV americana evitava até pronunciar a palavra “grávida”. Quando Lucille Ball esperava seu filho, a solução foi esconder a barriga atrás de móveis, aventais e vestidos amplos nas gravações da sitcom I Love Lucy. Nos anos 1980, os modelitos de gestante da princesa Diana respondiam mais a uma escolha estética do que às regras da realeza, que entendia a gravidez como algo a ser discretamente acomodado. A ruptura veio em 1991, quando Demi Moore apareceu nua, grávida de sete meses, na histórica capa da revista Vanity Fair. A imagem provocou escândalo, mas mudou para sempre a representação da maternidade na cultura pop. Pela primeira vez, a barriga virou protagonista. Décadas depois, Rihanna levou essa revolução ao ápice. Transparências, recortes, joias, barriga à mostra e alta-costura fizeram da gravidez uma declaração da moda.

A geração atual escreve outro capítulo da história. Se Rihanna desafiou convenções, a estrela de O Diabo Veste Prada consolida uma estética mais suave, mas igualmente poderosa. Sai o espetáculo, entra o refinamento. Linho, alfaiataria desconstruída, vestidos fluidos e peças desenhadas para acompanhar as mudanças do corpo sem perder a elegância. A barriga deixa de ser um elemento a esconder — ou a exibir deliberadamente — para apenas fazer parte da roupa. A ideia encontra eco entre mulheres que recusam interromper sua identidade estética durante a maternidade. Na gravidez, a modelo húngara Barbara Palvin tem apostado em vestidos minimalistas e silhuetas limpas. No Brasil, a influenciadora de moda Luisa Accorsi talvez seja o melhor exemplo da nova abordagem. Ao longo da gravidez, ela inspirou muitas mulheres nas redes com seus vestidos de tricô, camisas amplas e jeans, sem recorrer ao antigo figurino típico de gestante. Se ser mãe é padecer na paraíso, que seja com estilo.
Publicado em VEJA de 10 de julho de 2026, edição nº 3003
Fonte: veja.abril
