“Siiiiiiiiiiiiiiiiiim”, responderam – imediatamente -oito mães quando a reportagem de Paladar lançou a enquete no grupo de WhatsApp da escola: “seu filho trocaria hambúrguer e batata frita por sushi e sashimi?”
A unanimidade é símbolo de uma tendência já confirmada nos restaurantes, sistemas de delivery e pelos especialistas em alimentação. Há uma paixão infantil pela culinária japonesa a ponto de termos como “Geração sushi” circularem nas redes sociais.
Se antes as respostas mais comuns para a pergunta “qual é a sua comida favorita” tinham campeões como “macarrão e nuggets” e “Hambúrguer e batata frita”, agora, as versões de peixe cru e temakis fritinhos também estão no pódio. E, por isso, a reportagem foi investigar o que está por trás da febre infantil.
Então, aqui você vai saber:
- Como a nutricionista Maria Martha Lima – especialista em clínica, esporte e controle metabólico – explica a preferência das crianças e os cuidados nutricionais para o hábito
- O que o renomado chef Danilo Maciel, do Oizumi Sushi, tem visto nos restaurantes de culinária japonesa
- O que os pais e mães sentem e vivenciam com a preferência dos filhos em sempre escolher comida japonesa. Um misto entre gosto por ser saudável e pesa demais no bolso
- Dados do setor e estratégias para aprender a fazer algumas receitas em casa, visando sabor e economia

Manuela comemorou os 12 anos com aniversário temático para celebrar a paixão pela comida japonesa Foto: Arquivo Pessoal
Tema de festa de aniversário
Manuela Africani Marotti é tão fã de comida japonesa que escolheu “O Bairro Liberdade” – tradicional local em São Paulo que concentra a colônia – como tema da festa de 12 anos. “Eu admiro muito a cultura japonesa e a culinária é a minha preferida. Eu gosto muito do gosto do arroz, meio docinho, do salmão e adoro colocar tarê em tudo”, disse ela, emendando que quem apresentou o cardápio foi a mãe, Paula.
“Eu como desde pequena comida japonesa e me lembro sempre da temakeria que minha mãe me levava e vamos até hoje. Todo mundo conhece a gente lá”, disse e já pontuando em sua fala dois cuidados que a nutricionista Maria Martha apresenta sobre as escolhas, pensando do ponto de vista nutricional.
Pontos positivos e pontos negativos da comida japonesa
“Sim, há uma paixão dos pequenos pela culinária japonesa. São alimentos altamente sedutores, estimulantes de papila gustativa que têm pontos positivos e outros não tão legais”, explica Maria Martha.
“Falando dos positivos, especialmente quando a gente pensa em uma troca, optar pela culinária em vez de um fast food, um hambúrguer, uma pizza, é bem interessante. Porque a base da culinária japonesa são peixes. Então é uma proteína de altíssima qualidade, dependendo dessa procedência, ricos em ômega 3. A culinária japonesa tem o nori (algas), que é interessantíssimo porque é rico em micronutrientes. Tem muitos alimentos à base de fermentação da soja, misso, shoyu, opções saudáveis”.
Mas……
“Por outro lado, o alerta vem porque aqui tivemos uma ocidentalização que alterou um pouco o padrão de comida. Temos muita fritura para agregar crocância, temos o acréscimo de maionese, cream cheese, molhos prontos que têm bastante sódio (como tarê adorado pela Manu)“, diz a especialista para completar;
“E há o risco também de negligenciar a procedência. Crianças após os dois anos já podem seguir o padrão de alimentos da família, mas aqui temos o peixe cru. E esse público é mais vulnerável à contaminação. E no peixe cru pode ter mais risco de salmonela, parasitas. Procedência, armazenamento e cuidado são palavras de ordem”, define.
Escute aqui o áudio completo da nutricionista sobre os cuidados e benefícios da comida japonesa para as crianças

Sushi Foto: Kzenon/Adobe Stock
Sabores, texturas e curiosidades
Para Danilo Maciel, do Oizumi Sushi, os motivos para as crianças adorarem comida japonesa estão nas próprias características da culinária.
“O que sempre me chamou atenção é que a criança responde muito mais à simplicidade, à aparência e à textura do que à complexidade de sabores. Cortes limpos, apresentações claras e pratos mais diretos costumam funcionar melhor”, disse ele.
“Também percebo que o consumo dos pequenos é muito guiado pela curiosidade e, principalmente, pela confiança no ambiente e em quem está servindo. Quando a criança se sente acolhida e segura, ela tende a experimentar mais — muitas vezes até surpreendendo os próprios pais”, completou o chef.
Foi o que ocorreu com Alice Pasqualetti, de 11 anos. “A Alice sempre vivenciou uma seletividade alimentar e preferência por texturas mais macias e úmidas. E a culinária japonesa proporciona essa experiência e favorece o paladar dela”, contou a mãe, Priscila Pasqualetti.
“Mas não foi um ‘amor à primeira vista` não. Eu sempre frequentei os restaurantes, insistia para ela provar. Demorou bastante. Mas quando ela provou, virou paixão nacional. Se ela pudesse, hoje, almoçaria e jantaria só comida japonesa.”
O sabor na boca e o peso no bolso
Se por um lado é a fama de saudável dos peixes que pode apoiar a decisão dos pais em “aprovar” o consumo de sushis e sashimis pelos filhos, por outro o público infantil pode ser fisgado também por outras características da produção.
A nutricionista Maria Martha lembra que além do excesso de sódio por causa do shoyo e outros temperos, o açúcar também é um ponto que precisa ser levado em consideração, presente no arroz típico, o gohan, e nas conservas, como a do gengibre.
“É influenciar positivamente na escolha dos pratos das crianças e tentar reduzir a frequência. Porque essa ocidentalização da culinária japonesa fez com que muitos aditivos alimentares ficassem bem presentes e isso não é bom, especialmente em exagero”, orienta.
De fato, os números referentes ao consumo de comida japonesa no Brasil são astronômicos. Segundo levantamento do Ifood, feito a pedido de Paladar, no último ano foram foram registrados mais de 33.4 milhões de pedidos por sushi, sashimi e temaki, o que equivale a 122 mil pedidos por dia.
Do total, 53% dos pedidos são realizados no final de semana (sexta, sábado e domingo), sendo sexta-feira o dia mais pedido com 6 milhões de pedidos, com protagonismo durante o período do jantar – 82%.
Quem está em meio a esses números são Helena e Antônio, de 11 e 9 anos, dois apaixonados pela culinária. De acordo com a mãe, Carolina Guadagnoli de Guadio, se dependesse deles seria a refeição de todo dia.
“Eu acho bem interessante eles gostarem. Penso ser uma opção mais saudável comparada a outras que temos. Porém, eu acho caro, bem caro”, falou ela.
“Eu procuro fazer algumas coisas em casa, como os sashimis de salmão, até porque os rodízios, que eles amam, estão cada vez mais inacessíveis. E olhando só para esse ponto, quando comparamos com o hambúrguer, o segundo ficaria mais em conta.”
Receitas caseiras

Clara e Olívia adoram comida japonesa e querem aprender a fazer as receitas Foto: Arquivo pessoal
Filhas da repórter que escreve a matéria, Clara e Olívia só foram apresentadas à comida japonesa aos 10 anos e, desde então, virou o cardápio preferido dos finais de semana.
Infelizmente, chegaram ao “amor pelo sushi e sashimi” quando já não pagam meia entrada nos rodízios, tornando a experiência nos restaurantes mais restrita.
Uma das alternativas é agora aprender a fazer em casa e, assim, economizar um pouco no valor e na quantidade de aditivos e conservantes utilizados.
“Eu amo a culinária japonesa porque são muitos sabores em uma refeição só”, definiu Olívia. “Acho a comida também bem bonita. Deve ser difícil preparar os cortes. Mas, a pedido da mamãe, vamos agora tentar cozinhar também.”
Veja o caderno de receitas para fazer comida japonesa em casa
