Vinho biodinâmico na Bairrada: Filipa Pato e William Wouters

GastronomiaVinho biodinâmico na Bairrada: Filipa Pato e William Wouters

Os conceitos da biodinâmica nasceram em palestras de Rudolf Steiner no início dos anos 1920. Mas estes 100 anos não foram suficientes para popularizar o conceito e suas práticas na agricultura e, no caso desta coluna, na viticultura. A enóloga Filipa Pato, com vinhedos na Bairrada, em Portugal, é um bom exemplo disso.

Filipa só chegou à biodinâmica por, digamos, razões do coração. Filha de Luís Pato, hoje uma personalidade do vinho português e conhecido por ter domado a rústica uva baga, Filipa foi atraída pelos vinhos de menor intervenção enológica ao se apaixonar pelo sommelier belga William Wouters, hoje seu marido e sócio.

No início do namoro, quando morava na Antuérpia, Wouters começou a apresentar vinhos elaborados com a filosofia biodinâmica e os considerados naturais, que passaram a atrair a atenção da jovem enóloga.

“Até hoje, William abre garrafas às cegas para me desafiar a elaborar vinhos melhores”, conta Filipa. Na época, ela vinha de uma formação como engenheira química, e estágios em vinícolas tradicionais em Bordeaux, na Austrália e na Argentina.

UVAS TRADICIONAIS

Nem sonhava que menos de duas décadas depois, se tornaria uma referência nos vinhos biodinâmicos em Portugal e que só elaboraria vinhos com uvas tradicionais da Bairrada: como baga, bical, arinto, cercial e maria gomes.

Depois de casados, a dupla se estabeleceu na Bairrada, próximo aos vinhedos de Luís Pato, mas dispostos a aprender e aperfeiçoar a filosofia de Steiner, que não são ensinados nas escolas de enologia.

A biodinâmica trata a fazenda como um organismo vivo, integrado aos ciclos cósmicos. As vinhas são tratadas com compostos naturais, muitos a base de plantas, e nada de herbicidas ou pesticidas.

Na própria vinícola do casal, há sacos de papel com muitas das plantas que Filipa seca para preparar os compostos e pulverizar os vinhedos. Ela calcula trabalhar com mais de 15 plantas diferentes, da aloe vera, camomila, entre outras.

Atualmente, Filipa cuida de 14 hectares de vinhas, divididas em 37 pequenas parcelas. Muitas são de vinhas velhas, que Filipa vem recuperando. São plantas retorcidas pelo tempo, muitas plantadas ainda em pé franco (sem o porta-enxerto que protege do ataque da filoxera). Não raro, ela é sondada por vizinhos, pedindo para ela cuidar de suas pequenas vinhas.

PORCOS E OVELHAS

No vinhedo, também moram alguns animais. Todas as tardes, quando não está correndo o mundo para divulgar seus vinhos, Filipa leva laranjas aos porcos. Pequenos e sem o hábito de olhar para cima, eles fuçam a terra, comendo as plantas que poderiam danificar as videiras, e até pequenos micro-organismos. “Eles adoram a laranja, comem até as cascas”, diz Filipa.

A propriedade tem também ovelhas, que fazem um importante trabalho de arar a terra, mas que precisam ser levadas para uma outra área quando as vinhas começam a florescer, já que as uvas são irresistíveis para estes animais. E a mais nova a chegar é uma burra, que ajuda no manejo dos vinhedos.

NA VINÍCOLA

A adega segue a mesma filosofia: a menor intervenção possível na vinificação o que inclui, claro, o trabalho apenas com as leveduras próprias das vinhas. Os tanques de inox são utilizados para a elaboração dos espumantes, com a linha 3B, e dividem espaço com pequenas ânforas e tanques de concreto. “Queremos que cada vinho expresse o nosso terroir e as característica de nossas vinhas”, conta Filipa.

Por aqui, os vinhos são importados pela Casa Flora e a Porto a Porto, mas no início do ano o casal deve abrir um bar de vinhos, em uma casa recuperada ao lado da vinícola, que fica na vila de Óis do Bairro, na Bairrada. Será a experiência completa da biodinâmica.



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