Governador Celso Ramos – O portão preto e discreto do antigo Hotel Ponta dos Ganchos não dá sinal de nenhuma mudança. Inaugurado em 2002, na cidade catarinense de Governador Celso Ramos, a 45 quilômetros de Florianópolis, ao longo de mais de duas décadas se firmou como um dos mais badalados do Brasil. Ao cruzar a entrada da propriedade, os hóspedes mais assíduos podem imaginar que tudo parece igual.
As subidas e descidas, que acompanham o relevo da região, continuam lá. As 25 vilas privativas, de 80 a 300 metros quadrados de área, com piscina e vista para o mar, parecem as mesmas. O conceito, porém, mudou com a aquisição do hotel pelo grupo de lodges de luxo uruguaio Awasi, no fim de 2024.
O foco dos antigos donos era manter os hóspedes dentro da propriedade. Os novos querem fazer do hotel uma base de altíssimo luxo para aqueles que, além de relaxar, buscam conhecer a natureza do lugar e vivenciar a cultura e o modo de vida daquele trecho do litoral de Santa Catarina – uma tendência cada vez mais forte da indústria global de turismo.
“Após a aquisição, nós precisávamos entender como faríamos para transformar aquele local, que já era maravilhoso, em uma experiência Awasi”, diz Nicolas Peluffo, CEO do grupo, em entrevista ao NeoFeed.
“Apesar do hotel ser referência em diversos sentidos, a parte de wellness e experiências ainda era pouco explorada. Era preciso mudar isso para acompanhar a filosofia do grupo”, complementa.
Para fazer essa virada de chave, o Awasi investiu cerca de R$ 20 milhões. Com esse valor, as portas para o mar foram abertas, com a aquisição de três barcos responsáveis pela exploração na região. Com eles, o grupo contratou e treinou, em sua própria escola, guias especializados na fauna e na flora, para acompanhar os hóspedes em suas descobertas.
São eles os responsáveis também por passeios em terra firme, que incluem diversas trilhas para praias escondidas da região, além de rotas utilizadas pelos portugueses durante o período de colonização e até passeios à cavalo.
Foi construído ainda um novo spa da propriedade. Com produtos da marca francesa Sisley, o hotel oferece de banhos de ofurô até aulas de ioga, além de tratamentos faciais, corporais e para o cabelo.
Lá, um serviço de alquimia permite que hóspedes desenvolvam fragrâncias e cremes que podem ser utilizadas nos tratamentos, ou mesmo em seu dia a dia, para auxiliar em questões como ansiedade, problemas de sono e por aí vai…
Com o foco em wellness, a academia triplicou de tamanho e ganhou uma piscina externa, com vista para a baía Gancho de Fora.
“Antes, nós éramos um hotel virado para dentro, focado em serviços, infraestrutura, gastronomia, o que era incrível. Porém, as pessoas ficavam três dias e já estavam satisfeitas com tudo o que tinham visto e feito”, diz Peluffo.
“Agora, os hóspedes ficam uma semana e saem falando que não conseguiram aproveitar nem metade do que gostariam e que precisam voltar o mais rápido possível”, prosegue.
Na visão do executivo, “aproveitar” é uma questão muito pessoal. Para alguns, isso significa sentar na praia privada do hotel, ou mesmo atravessar a ponte e ir passar um tempinho na ilha, que também pertence à propriedade. Talvez, para outros, seja passar o dia fazendo tratamentos no spa ou mesmo sair de barco e visitar a Ilha do Arvoredo, o principal ponto de mergulho do sul do Brasil.
Foi pensando nisso que o grupo desenvolveu um serviço totalmente tailor made. O hóspede decide o que fazer. Se o foco é em uma viagem de bem-estar, o concierge de excursões colocará programas desse tipo durante a estadia. Além disso, o visitante terá um menu de refeições focado para a saúde e desenvolvido dentro de casa, pela chef Daniela Damasceno.
Essa decisão é feita durante a reserva, para que, dentro da propriedade, não seja preciso pensar em nada, nem em dinheiro.
O hotel está localizado em Governador Celso Ramos, a 40 minutos de distância de Florianópolis, e tem sua própria ilha (Foto: Divulgação)
As 24 vilas do Awasi Santa Catarina contam com piscina aquecida privativa, além de vista para o mar (Foto: Divulgação)
Os quartos tem entre 80 e 300 metros quadrados (Foto: Divulgação)
Em alguns deles, os hóspedes tem sauna seca e banheira de hidromassagem e, no maior, que já hospedou celebridades como Beyoncé
A academia passou por reformulação com o investimento do Awasi, após muitos pedidos dos hóspedes (Foto: Divulgação)
A propriedade conta com dois spas, um com vista para o mar e outro imerso na mata atlântica
O atelier de alquimia, que produz os aromas e cremes personalizados, está localizado dentro do spa mata
“O nosso público já fez todas as viagens internacionais que quis, já tem todos os confortos possíveis em sua própria casa, então ele sabe que vai receber isso no nosso hotel, mas o que mais faremos por ele, que foge de suas expectativas?”, diz Álvaro Valeriani, CCO do grupo. “Aqui, ele controla o tempo, o espaço, tem tudo de forma privativa, desde passeios até tratamentos. Enfim, a decisão é dele”.
Com esse intuito, o grupo implementou a filosofia “fully hosted”, que nada mais é do que um all-inclusive de luxo, já praticado nas outras quatro propriedades Awasi.
Com uma tarifa no mínimo três vezes mais cara que a oferecida para quem escolhe um quarto e café da manhã, os hóspedes dessa modalidade podem desfrutar de tudo que a propriedade oferece, quantas vezes quiserem.
“Você pode fazer quantos tratamentos de spa quiser, passear 200 vezes de lancha, sair de carro, comer e beber tudo o que sentir vontade, enfim, está tudo incluído”, diz o executivo. Isso, por uma simples bagatela de US$ 920 a diária por pessoa, na vila mais “simples” da propriedade.
Com essa repaginada, o público do local mudou de forma significativa. Para os hóspedes rotineiros, tudo se mantém igual, com a possibilidade de apenas reservar o quarto. Porém, com o fully hosted, os estrangeiros começaram a aparecer de forma consistente.
Hoje, o Awasi Santa Catarina tem cerca de 50% do público formado por brasileiros, enquanto os outros 50% se dividem entre americanos, sul-americanos e europeus. Em menos de um ano do novo formato, cerca de 40% dos hóspedes escolhem o sistema fully hosted, o que, na visão dos executivos, é um ótimo número.
“Acredito que nós nos encaixamos muito bem na nova fase do luxo, que passa por ausência, por silêncio e pela conectividade com o que é real”, afirma Valeriani. “Os hóspedes podem comprar tudo o que tem à disposição, mas estão em busca das coisas intangíveis e é isso que queremos entregar a eles”.
Planos do Awasi
Criado em 2007, o grupo Awasi conta com cinco propriedades imersas na natureza. Três delas foram desenvolvidas do zero, sendo uma na Patagônia chilena, uma no Deserto do Atacama e a última em Iguazú, próximo às cataratas, na Argentina.
Nos dois últimos anos, o grupo passou a procurar por propriedades que poderiam ser convertidas no modelo Awasi, como foi o caso do Ponta dos Ganchos. Além do hotel no Brasil, foi adquirida uma propriedade em Mendoza, na Argentina, voltada para o mundo dos vinhos.
Segundo os executivos, para o próximo ano, mais um hotel deve entrar no portfólio e, desta vez, será construído do zero. O destino ainda se mantém uma incógnita. O plano é ter dez propriedades na América do Sul nos próximos cinco a seis anos. “É um objetivo bem alcançável”, diz Valeriani.
Também existem planos de expandir para além da região, apesar de não ser a prioridade.
“Os hotéis do Awasi foram, por muito tempo, um segredo muito bem escondido, o que funcionou”, diz o executivo. “Mas, agora, nós queremos expandir essa história, para que mais pessoas possam viver a experiência que oferecemos.”
A jornalista viajou a convite do grupo Awasi.
Fonte: Neofeed
