Seu maior patrimônio é você !

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Depois de construir uma trajetória ligada ao agronegócio, descobri que o bem mais valioso que acumulamos ao longo da vida não é o que possuímos. É quem nos tornamos e a marca que deixamos por onde passamos.

Por Telma Somenzari, empresária e modelo sênior

Durante muito tempo, associei patrimônio apenas às coisas materiais que construídas ao longo da vida. Hoje, às vésperas dos 62 anos, penso diferente. Nada se compara à pessoa que nos tornamos enquanto construímos nossa história e à marca que deixamos no mundo.

Nasci em Araraquara, em uma família tradicional de fazendeiros. Cresci em uma casa onde meu pai cuidava dos negócios da família e minha mãe cuidava da vida. Ela era uma mulher elegante, inteligente e de uma força impressionante. Não trabalhava fora, mas administrava a casa, os funcionários e fazia tudo acontecer. Foi observando minha mãe que aprendi que liderança não depende de cargo. Liderança é algo que se assume.

Quando eu tinha 16 anos, comecei a criar bijuterias com pedras brasileiras. Eu montava as peças e saía pelas lojas da cidade ao lado dela. Minha mãe sempre dizia: “Coloque as peças que você quer vender.”

Eu perguntava por quê.

Ela respondia: “Porque tudo o que você estiver usando elas vão querer comprar.”

Arquivo pessoal

Telma Somenzari usa Christian Dior by Inffino

Ela entendia de gente muito antes de eu entender, e sabia vender muito bem. Foi ali que ganhei meu primeiro dinheiro e descobri uma satisfação que nunca mais me deixou: a de construir alguma coisa com as próprias mãos.

Meu sonho era estudar Medicina. Queria cuidar de crianças com deficiência. Não consegui seguir esse caminho porque, naquela época, meu pai não admitia que uma filha fosse morar sozinha em outra cidade para estudar. Não guardo qualquer ressentimento. Era outro tempo. A vida me levou por outro caminho e, olhando para trás, percebo que aquele desejo nunca desapareceu. Apenas encontrou outras formas de existir.

Aos 21 anos me casei. Construí uma família e uma parceria de trabalho que durou 35 anos. Ao lado do meu marido, ajudei a desenvolver eventos equestres que marcaram uma época, participei da criação de um parque de eventos e vivi intensamente um universo que sempre fez parte da minha história.

Sempre amei o campo. Monto a cavalo desde menina. Meu pai dizia que eu montava como uma índia, por que eu não usava cela. Eu adorava ouvir isso. Herdei dele o gosto pelo esporte, em especial o tênis, além da coragem e garra para não desistir jamais. Da minha mãe ficaram a elegância, a feminilidade e a capacidade de perceber as pessoas.

Nunca senti que precisava escolher entre um lado e outro de mim.

Sempre adorei de uma roupa bonita, de um brinco grande, de um bom perfume. Ao mesmo tempo, sempre gostei de passar o dia inteiro montada a cavalo, de tomar banho de rio e de voltar para casa com poeira de estrada na roupa. Nunca entendi por que uma mulher deveria escolher entre ser delicada e ser forte. Eu sempre fui as duas coisas.

Arquivo pessoal

Em 2010 participei do Tropel 1400, uma cavalgada de São Paulo até Brasília em comemoração aos 50 anos da capital. Foram 35 dias montada a cavalo. Eu era a única mulher do grupo e fui convidada para representar a força feminina. Chegar a Brasília e ser recebida pela filha do presidente Juscelino Kubitschek foi um daqueles momentos que ficam para sempre na memória. Não pela homenagem em si, mas pela mensagem de que, com garra e determinação, uma mulher pode conquistar tudo o que quiser.

A vida também me apresentou desafios que ninguém escolhe.

Perdi meu irmão para um câncer de intestino e, pouco tempo depois, recebi o diagnóstico de câncer de mama.

Durante a quimioterapia perdi os cabelos. Não usei peruca. Assumi a falta de cabelos e continuei me maquiando, colocando meus acessórios e escolhendo uma roupa que me fizesse sentir bem. Não era uma questão de vaidade. Era uma forma de continuar reconhecendo a mulher que eu sempre fui.

Com o tempo, outras mulheres começaram a se aproximar de mim no hospital. Conversávamos sobre fé, autoestima e esperança. Muitas diziam que voltavam para casa mais animadas depois daqueles encontros. Aquilo me fez perceber que a vida tinha encontrado um jeito muito bonito de realizar um sonho antigo. Eu não me tornei médica, mas continuava cuidando de pessoas.

Minha fé sempre foi um alicerce. Nunca acreditei que os desafios chegam para nos derrotar. Acredito que eles nos fortalecem e nos tornam capazes de estender a mão a quem ainda está atravessando a mesma estrada.

Quando meu casamento terminou, uma etapa importante da minha vida chegou ao fim. Mas nunca pensei em apagar os 36 anos que vivi. Seria injusto com a minha própria história. Construí uma família linda, amizades, negócios, experiências e aprendizados que continuam comigo.

O que mudou foi que passei a decidir sozinha quais capítulos ainda queria escrever.

Quando eu era muito jovem, surgiu a oportunidade de trabalhar como modelo. Eu sabia que meu pai jamais permitiria. Décadas depois, recebi um novo convite. Dessa vez, a resposta dependia apenas de mim.

Estudei teatro, fiz cursos em São Paulo e comecei a trabalhar como modelo sênior. Não encaro isso como uma reinvenção. Encaro como uma oportunidade que voltou quando eu tinha liberdade para dizer “sim”.

Talvez seja isso que a maturidade tenha me ensinado.

A experiência não serve apenas para acumular lembranças. Ela nos dá mais clareza sobre quem somos, sobre aquilo que realmente importa e sobre quais oportunidades fazem sentido para a nossa vida.

Hoje continuo fazendo planos, trabalhando, aprendendo, conhecendo pessoas e aceitando convites que despertem a minha curiosidade. Não sinto que estou vivendo uma segunda vida, mas a continuidade da primeira, com mais serenidade, consciência e liberdade para fazer as minhas próprias escolhas.

Hoje entendo que o maior patrimônio que construí nunca esteve na empresa, nas fazendas ou nos negócios dos quais participei.

Minha maior riqueza foi a mulher que me tornei durante essa caminhada e a marca de autenticidade que deixei por onde passei. Isso, felizmente, ninguém pode tirar de mim nem de ninguém.

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