Ler Resumo
A estreia de Maria Grazia Chiuri no comando da Fendi foi um exercício de expectativa – boas e ruins. É fato que o desfile apresentado em Milão revelou uma narrativa clara: reconstruir identidade sem romper com a história. O mantra projetado na passarela, “Less I, More Us” (menos eu, mais nós) sintetizava a intenção de coletividade, pluralismo e colaboração que permeou a coleção. Ainda assim, o resultado carregava uma assinatura autoral inconfundível.
Chiuri falou antes do show sobre silhueta — e cumpriu a promessa. O foco estava na construção das formas: ombros estruturados, cinturas desenhadas, volumes controlados e uma elegância que transitava entre o utilitário e o couture. Havia trench coats com presença arquitetônica, vestidos de linhas depuradas e conjuntos que equilibravam rigor e suavidade, como se a diretora criativa buscasse redefinir o vocabulário da casa a partir do contorno do corpo.
O ponto mais ruidoso — e problemático — no entanto, veio no território mais sensível da marca: a pele. Patrimônio histórico da Fendi, o material vinha sendo tratado com discrição nos últimos anos diante das pressões culturais e das mudanças de comportamento do consumidor. Na nova fase, ele voltou ao centro da narrativa — sem pudor e em maior escala. Apareceu em golas, franjas, gilets com aplicações animal print, trench coats e até em um longo casaco de couro preto composto por recortes florais de pele costurados como renda.
É justamente aí que a coleção perde força simbólica. Resgatar herança é legítimo; ampliar um passado controverso, não. A moda evoluiu — e com ela a consciência coletiva. Definitivamente não cabe mais, em 2026, a defesa estética de materiais associados à crueldade animal quando existem alternativas tecnológicas sofisticadas e soluções sustentáveis disponíveis. O argumento do savoir-faire já não sustenta sozinho uma escolha criativa. Luxo hoje também é ética, inovação e responsabilidade cultural.
Não se trata de negar a história da maison, mas de reconhecer que algumas tradições deveriam permanecer no arquivo e não retornar à passarela. Ao trazer a pele de volta com protagonismo, a direção criativa assume uma postura que parece menos coerente e um tanto anacrônica.
Curiosamente, foram os looks masculinos que receberam as versões mais exuberantes: casacos felpudos, blazers tingidos em verde vibrante e patchworks volumosos que evocavam um glamour quase setentista. No feminino, a pele surgia de forma mais integrada ao design, como em jaquetas com recortes camuflados feitos de pequenos fragmentos costurados.
Como exercício de silhueta e construção, a estreia tem méritos claros. Como posicionamento cultural, levanta questionamentos inevitáveis em tempos que maus-tratos e crueldade animal ganham mais e mais repercussão – como o chocante e absurdo caso do cão Orelha no Brasil. Fica a sensação de que a Fendi inicia um novo capítulo tentando reafirmar identidade, mas escolhendo um símbolo que definitivamente já não representa o futuro da moda.





Fonte: veja.abril
