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“A arte de criar roupas é a arquitetura do movimento.” A frase de Pierre Balmain (1914-1982) resume sua obra. Filho de um industrial têxtil e de uma dona de loja de roupas femininas, o estilista francês nunca concluiu o curso de arquitetura iniciado em Paris. Mas levou seus princípios para o ateliê. Cada vestido, casaco e bordado parecia obedecer a um rigor estrutural raro, pensado para acompanhar o corpo, e não apenas adorná-lo. Agora, enquanto o Musée des Arts Décoratifs, em Paris, dedica uma exposição à extraordinária colaboração entre Balmain e a rainha Sirikit, da Tailândia, o nome do costureiro volta a ocupar o lugar que merece: o de um dos grandes pilares da alta-costura do século XX.
A mostra reúne mais de 100 peças e revisita uma parceria iniciada em 1960, quando a soberana tailandesa encomendou a Balmain o guarda-roupa para uma viagem diplomática por quinze países. A mostra provoca uma pergunta inevitável: por que Pierre Balmain, tão influente quanto seus contemporâneos, nunca alcançou o mesmo status de Chanel, Dior ou Yves Saint Laurent? Parte da resposta está em Christian Dior. Os dois se conheceram quando eram jovens talentos tentando achar seu lugar numa Paris devastada pela guerra. Viraram amigos e chegaram a pensar em abrir uma marca juntos. Em 1945, porém, Balmain inaugurou sua própria maison. Dois anos depois, Dior lançaria a dele.

A ironia é que Balmain chegou primeiro — mas foi Dior quem riu por último. A silhueta Jolie Madame criada por Balmain, de cintura ajustada, saia ampla e feminilidade exuberante, já apontava para a reconstrução do glamour feminino no pós-guerra. Quando Dior apresentou o New Look, em 1947, a proposta dialogava com o mesmo desejo de abandonar os anos de escassez e devolver fantasia ao vestir. Só que foi o nome de Dior que entrou para a história como o revolucionário daquela geração. Balmain, menos hábil em construir uma narrativa própria, acabou ofuscado por um amigo cuja comunicação foi poderosa.
De qualquer forma, isso não diminui sua importância. Se Dior mudou a moda, Balmain a refinou. Sua obra era marcada por perfeccionismo obsessivo: bordados monumentais, tecidos nobres, construções impecáveis e uma compreensão singular das proporções femininas. Sua influência alcançou Hollywood, a aristocracia europeia e a realeza asiática. Vestiu Audrey Hepburn, Sophia Loren e Brigitte Bardot. Entre seus assistentes esteve um jovem Karl Lagerfeld. Também foi um dos primeiros a enxergar o potencial comercial da moda moderna, investindo em perfumes e no prêt-à-porter quando parte da alta-costura ainda torcia o nariz.

A visão empresarial, contudo, ajudou a afastá-lo do pedestal reservado aos mitos da moda. Após sua morte, em 1982, a Balmain tornou-se uma marca excessivamente licenciada e seu prestígio se diluiu. Até que veio a ressurreição. Primeiro com Christophe Decarnin, que transformou a Balmain em objeto de desejo da geração rock chic dos anos 2000. Depois, com Olivier Rousteing, cujos blazers de ombros esculturais seduziram celebridades como Beyoncé, Rihanna, Naomi Campbell, Cara Delevingne e, em especial, Kim Kardashian. Nascia o “Balmain Army”, exército digital que reposicionou a maison na cultura pop. O mestre injustiçado enfim se vinga.
Publicado em VEJA de 19 de junho de 2026, edição nº 3000
Fonte: veja.abril
