Ao apostar no surfe, grifes renomadas nos lembram que o maior luxo atual é a simplicidade

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Com seu logotipo reconhecido em qualquer canto do planeta como atestado inquestionável de luxo, a francesa Louis Vuitton acaba de carimbar sua marca em um item inesperado: as pranchas de surfe. Recentemente, durante o desfile na Semana de Moda de Paris, a grife montou numa área ao ar livre da capital francesa um expressivo cenário com dunas e imenso painel que remetia a uma onda de 8 metros de altura por 37 de largura — do alto do qual jorrava água de verdade. Nessa praia estilizada, modelos de cabelos longos surgiam de camisas estampadas com coqueiros e carregando pranchas debaixo dos braços — devidamente ornadas com o famoso logo.

A Louis Vuitton não é a única no mercado do luxo a apostar na estética do surfe. Da italiana Miu Miu à americana Willy Chavarria, o visual desconstruído e confortável marcou, de inúmeras formas, os desfiles da temporada. A tendência, já batizada de boardshort summer (bermudões de surfista para o verão), é a evolução de uma vertente que a indústria da moda vem explorando nos últimos anos. Desde a pandemia, quando o conforto passou a ser prioridade no modo de se vestir, estilistas buscam referências no mundo do esporte. “A inspiração já veio do golfe, da vela e do tênis”, diz a consultora de moda Gloria Kalil. Chegou a vez do surfe — uma prática menos elitista e que transmite a ideia de comunhão libertária com a natureza.

ESTILO - Jordan Clarkson (à esq.) e Pedro Scooby: um refinamento descontraído
ESTILO – Jordan Clarkson (à esq.) e Pedro Scooby: um refinamento descontraído (Willy Chavarria; Bulgari/.)

No caso específico do surfe, o flerte com a alta-costura não chega a ser novidade. Pelo contrário: ao longo das décadas, as grandes maisons volta e meia buscaram no estilo de vida praiano uma forma de renovar a força de suas criações junto às novas gerações. Ele foi símbolo de juventude nos anos 1990, quando Karl Lagerfeld incorporou pranchas, neoprene e estampas tropicais em coleções da Chanel. Nos anos 2000, o surfe voltou à tona num contexto de valorização dos esportes radicais e do streetwear.

A onda atual aposta assumidamente na nostalgia daqueles anos do início do século XXI, quando essa estética jovem viveu seu auge, no embalo do sucesso de marcas típicas do nicho surfista, como Rip Curl, Billabong e Quiksilver. O resgate do momento inclui as calças cargo e bermudas largas, além das camisas e camisetas descontraídas e, claro, com estampas praianas.

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IDÍLICO - O clássico A Onda dos Sonhos: anseios que transcendem gerações
IDÍLICO - O clássico A Onda dos Sonhos: anseios que transcendem gerações (./Universal Pictures)

Nas vitrines, esse novo surfwear pode temperar looks despojados com refinamento. Basta olhar para o novo visual do brasileiro Pedro Scooby, surfista conhecido por encarar as ondas gigantes de Nazaré. Escolhido pela marca italiana Bulgari para participar de campanhas e eventos sociais, ele costuma aparecer de terno claro, confeccionado com tecidos maleáveis — uma despretensão chique. Já as roupas da Miu Miu combinam o boardshort summer com blazer de alfaiataria e camisa social. Nos pés, sandálias sofisticadas e sapatos formais. O estilista americano Willy Chavarria apresentou proposta semelhante ao vestir o astro da NBA Jordan Clarkson com bermudão, meia branca social, sapato e pasta de trabalho.

Mas o apelo idílico do surfe dialoga com anseios que ganharam força no mundo da profusão de telas e da existência fragmentada e veloz. Traduz a busca da geração Z por um estilo de vida simples, que traga reconexão com a natureza e uma providencial redução no ritmo. Um ideal celebrado em filmes como Alegria de Verão (1966) — que virou tema da campanha da Miu Miu para o verão —, em que dois surfistas viajam atrás da onda perfeita, ou A Onda dos Sonhos (2002), sobre praticantes femininas do esporte no Havaí. Ao abraçar o surfe, grifes como Louis Vuitton nos lembram que o maior de todos os luxos contemporâneos não pode ser ostentado em vitrines ou passarelas: é a possibilidade de viver uma vida livre e descomplicada.

Publicado em VEJA de 31 de julho de 2026, edição nº 3006

Fonte: veja.abril

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