O advogado Pedro Testa não gosta da palavra enoturismo, um termo genérico demais que, para ele, não traduz todo o potencial do vinho para os seus consumidores. Ao mesmo tempo, o dono da Casa Tés, vinícola no vale da Grama, no lado paulista da Serra da Mantiqueira, tem uma grande demanda de clientes para conhecer a propriedade. São consumidores cativos que desde antes do lançamento da primeira safra em 2024 adquiriram os vinhos pelo sistema de alocação, o que inclui se inscrever no site da vinícola e esperar a garrafa de cada safra estar disponível para a compra.
O caminho encontrado por Testa foi criar um programa de visitas e benefícios, batizado de Jornada, e lançado no começo de outubro, inicialmente para os inscritos no seu programa de alocação – hoje, são 8 mil pessoas cadastradas neste sistema. “Como toda jornada, o projeto tem começo, meio e fim”, conta o advogado.
A primeira edição da Jornada começou em outubro e vai até junho de 2027. Com um cronograma que inclui atividades em todos os meses, traz, claro, a possibilidade de visitar a vinícola e os vinhedos, em São Sebastião da Grama (SP), entre os meses de abril e junho de 2027, e o recebimento de até três garrafas por mês, incluindo rótulos experimentais e blends não comercializados.

Os vinhedos da Casa Tés e a vinícola ao fundo Foto: Suzana Barelli
Em novembro, por exemplo, o membro pode participar de uma aula sobre terroir, na escola EnoCultura, em São Paulo. Em dezembro, recebe as amostras dos vinhos que vão compor a safra 2025 do Casa Tés e o convite para elaborar o seu próprio blend. Um desafio e tanto pensando que o blend oficial do Casa Tés é elaborado por Pierre Lurton, referência nos grandes vinhos de Bordeaux. O francês é o responsável pelo Cheval Blanc e pelo Château D’Yquem, dois dos mais cobiçados rótulos franceses, e por aqui elabora o tinto brasileiro com as variedades cabernet franc, merlot e, desde a última safra, também com pequenas porcentagens de cabernet sauvignon.
Na Jornada, há ainda o direito a provar menus exclusivos, em restaurantes como o Nelita e o Blaise, em São Paulo, ou o Oro, no Rio de Janeiro, harmonizados com os vinhos da vinícola. A lista de atividades é grande, vale apenas para esta edição e custa R$ 2.600 por mês. Uma outra jornada pode começar em 2027.
O programa da Casa Tés encontra eco em outros modelos planejados para criar uma ligação entre os consumidores e os produtores de vinho. “Pensar o enoturismo como a visita à vinícola e a compra de garrafas na lojinha é algo do passado. A experiência pode e deve ir muito além do que o vinho”, afirma o consultor Rodrigo Lanari, da Winext.
A Mantiqueira, que inclui vinhedos na divisa de Minas Gerais e São Paulo, próximos dos mercados que mais consomem vinho no Brasil, tem uma localização privilegiada para estes modelos.

Vinhos produzidos em Minas Gerais são reconhecidos internacionalmente pela qualidade e excelência Foto: Kelly Brito/ EPAMIG
Lanari destaca os hotéis personalizados, como o que a vinícola chilena Vik está construindo na Fazenda Vista Verde, em Araçoiaba da Serra, cerca de 1h30 da capital paulista, e os empreendimentos que unem lotes residenciais com vinhedos ao lado.
Aqui, o exemplo é a Fazenda Sede, projeto lançado no início desde ano pelos empreendedores Eduardo de Andrade Carvalho e José Humberto Teodoro. Eles compraram uma antiga fazenda de café, em Espírito Santo do Pinhal, também no lado paulista da Mantiqueira, e dividiram os seus 127 hectares em 45 lotes. O projeto prevê que cada gleba rural tenha uma residência e um vinhedo, que deve ser plantado com a consultoria do viticultor português Paulo Monteiro. O especialista Jorge Lucki é o consultor do projeto.
“Nossa ideia é que o projeto integre a agricultura, a arquitetura e a pesquisa histórica, para aproximar as pessoas da experiência rural”, afirma Carvalho. Segundo ele, um terço dos lotes já foram comercializados, com preço a partir de R$ 4 milhões. E a previsão é que a infraestrutura da área, incluindo a recuperação da sede da fazenda de café, esteja pronta em 2028. Mas os proprietários terão de esperar um pouco mais, para que as videiras cresçam e eles possam ter um vinho para chamar de seu.
