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“Depois das mulheres, as flores são as criações mais divinas.” A frase é de Christian Dior e, de alguma forma, ecoava silenciosamente nos Jardins das Tulherias, em Paris, enquanto o sol — inesperado, quase insolente para o início de março — banhava o cenário armado ao redor de um espelho d’água octogonal. Assim, foi apresentado o outono/inverno 2026 da Dior, que nasceu sob o calor de primavera, como se a estação já não obedecesse somente ao calendário, mas ao que o mundo precisa.
Desde 2020, a maison desfila nas Tulherias, numa parceria com o Museu do Louvre, para restaurar um dos jardins públicos mais antigos da capital francesa e berço da moda. Ali, onde Catarina de Médici plantou poder e Luís XIV — o Rei Sol — consolidou espetáculo, Jonathan Anderson encontrou o palco ideal para afirmar e consolidar sua própria narrativa na Dior.
Anderson mergulha de vez nos códigos do século XVIII, transformando-os em assinatura. Casacos desconstruídos, jaquetas peplum, saias com anquinhas suavizadas, rendas Chantilly e jacquards metálicos compõem um guarda-roupa aristocrático que, paradoxalmente, quer a luz do dia. “Queria roupas que funcionassem sob o sol”, disse ele, consciente de que as coleções chegam às lojas em junho e, assim, dissolvendo de vez a lógica rígida das estações.
A silhueta Dior também ganhou mais nitidez, surgindo mais leve e solta. A jaqueta Bar reaparece em tweed Donegal, alongado e menos rígido. Blazers menores dialogam com saias em formato abajur, enquanto vestidos-gaiola em espiral — vistos na alta-costura — retornam como nuvens de pregas suaves. O pied-de-poule surge em trompe-l’oeil sobre casacos plissados à mão, e tecidos da alfaiataria masculina encontram inesperada delicadeza, muito bem-vinda, por sinal.
Há também pragmatismo. Calças de seda marfim com botões forrados, jeans com bordados de fita, robe coats usados como vestido. Peças de entrada, mais diretas, que aproximam a passarela da boutique, um claro movimento estratégico em que o luxo revê excessos após a euforia pós-pandemia. Anderson admite tentativa e erro, e uma construção paciente, sobretudo no universo das bolsas. Nada de fórmulas fixas ou uniformes únicos. Sua Dior quer ser reconhecível pela mão, não pelo molde.
O resultado é um classicismo em mutação. Aristocrático, mas menos hermético. Histórico, mas respirável. Em tempos de incerteza econômica e climática, talvez a resposta esteja nessa luz democrática que invadiu o desfile: o sol não escolhe público. Ele apenas ilumina. E, sob ele, a Dior de Jonathan Anderson parece finalmente encontrar seu próprio brilho.





Fonte: veja.abril
