Na contramão do mundo, Londres devolve as curvas à moda

ModaNa contramão do mundo, Londres devolve as curvas à moda

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Há algo de quase insurgente em ver corpos diversos atravessando uma passarela hoje. Como se, de repente, a moda lembrasse que foi feita para pessoas e não para cabides humanos. A mais recente edição da London Fashion Week, porém, trouxe de volta uma palavra que parecia ameaçada de desaparecer do vocabulário fashion: diversidade. Nos desfiles de nomes emergentes como Karoline Vitto, Phoebe English e Sinead Gorey, modelos de diferentes proporções — do mid-size ao plus — e idades, ocuparam a passarela com naturalidade. Não como manifesto isolado, mas como coerência estética: roupas pensadas para corpos que realmente existem.

O gesto ganha peso porque acontece justamente após um período de retrocesso. Em 2025, relatórios da indústria mostraram queda drástica na presença de modelos curvilíneas nas principais semanas de moda. O pêndulo voltou para a magreza extrema — clavículas marcadas, quadris inexistentes, a silhueta quase adolescente que dominou os anos 1990. Um retorno alimentado por vários fatores: o avanço cultural do conservadorismo, a pressão comercial das grandes maisons e, sobretudo, a popularização dos medicamentos de emagrecimento como Ozempic e Mounjaro, que redefiniram rapidamente os padrões corporais em Hollywood e na moda.

O paradoxo é que esse recuo veio logo depois de um momento simbólico de esperança. Em 2024, o retorno do desfile da Victoria’s Secret — após anos de crise de imagem — foi celebrado justamente por abraçar a diversidade: mulheres maduras, trans, negras e a presença marcante da top plus size Ashley Graham. Parecia o sinal definitivo de que a indústria havia entendido o recado. Só que não entendeu. Ou entendeu, mas escolheu ignorar.

A estética “tradwife”, o culto ao corpo disciplinado e o imaginário fitness quase moralizante que ganhou força em 2025 ajudaram a pavimentar o retorno da magreza como símbolo de status e controle. A moda, sempre sensível aos ventos culturais, absorveu rapidamente essa atmosfera. Grandes grifes passaram a usar truques de modelagem — ombros estruturados, quadris acolchoados — para simular curvas em corpos magros, em vez de simplesmente escalar mulheres com curvas reais. Um truque de ilusionismo constrangedor.

Por isso Londres importa tanto neste momento: vai na contramão. Historicamente mais experimental e politizada que outras capitais, a cidade mantém viva a ideia de que moda também é posicionamento cultural. Nos desfiles recentes, houve street casting, mulheres acima dos 40, corpos com bustos volumosos, quadris largos, proporções distintas — aquilo que deveria ser banal, mas virou exceção.

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Há também um dado revelador: muitas das marcas que sustentam a diversidade são lideradas por mulheres. Não por coincidência, mas por experiência. Quem vive a pressão do corpo entende o peso simbólico de representá-lo. A pergunta que fica, no entanto, não é se a diversidade voltou, mas sim por quanto tempo ela conseguirá resistir.

Porque a moda sempre foi um espelho — às vezes distorcido — do mundo. E o mundo vive uma onda de contenção, de nostalgia conservadora, de idealização de controle. Corpos magros demais contam uma história sobre poder. Corpos diversos contam uma história sobre liberdade. Só que a passarela é linguagem e, quando diferentes silhuetas caminham juntas, o que se vê não é só roupa, mas a possibilidade de existir sem pedir desculpa pelo próprio corpo. Que Londres tenha lembrado disso e inspirado o resto do mundo a lembrar também — antes que a moda, mais uma vez, confunda disciplina com beleza e exclusão com luxo.

Karoline Vitto
Karoline Vitto (Ian West/PA Images/Getty Images)
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Karoline Vitto
Karoline Vitto (Ian West/PA Images/Getty Images)

 

Phoebe English
Phoebe English (Jeff Moore/PA Images/Getty Images)

 

Sinead Gorey
Sinead Gorey (ictor VIRGILE/Gamma-Rapho/Getty Images)

Fonte: veja.abril

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