Durante alguns anos, bastava observar homens saindo de diferentes barbearias para perceber um padrão. Laterais muito baixas, degradê marcado, topo curto ou texturizado e contornos extremamente definidos se transformaram quase em uma linguagem universal do corte masculino.
O fade ganhou força porque é versátil, visualmente preciso e pode ser adaptado de inúmeras maneiras. No entanto, sua popularização também produziu um efeito curioso: em determinado momento, clientes com rostos, cabelos, idades e estilos completamente diferentes começaram a sair das barbearias com resultados muito parecidos.
O fade não desapareceu e provavelmente continuará ocupando um espaço importante. O movimento mais interessante em 2026, porém, está em outra direção: cabelos com maior movimento, texturas naturais, laterais menos agressivas e cortes que dependem mais de construção do que simplesmente de uma transição perfeita entre comprimentos.
Mais do que anunciar a chegada de um novo estilo dominante, essa mudança aponta para uma valorização crescente da personalização.
Para quem trabalha com barbearia, isso muda bastante a conversa com o cliente. A referência continua chegando pelo celular, muitas vezes retirada do Instagram, TikTok ou Pinterest, mas o papel do profissional não deveria ser simplesmente reproduzir aquela fotografia. É preciso entender por que determinada imagem chamou a atenção da pessoa e descobrir como traduzir aquela intenção para um rosto, um cabelo e uma rotina que podem ser completamente diferentes dos apresentados na tela.
Depois de mais de 15 anos trabalhando como barbeiro e formando profissionais em mercados distintos, considero essa uma evolução importante da barbearia masculina. Quanto menos o setor depende de uma única fórmula estética, mais conhecimento exige de quem está atrás da cadeira.
A tendência mais interessante de 2026 pode não ser um corte específico
Todo ano surgem listas apontando os estilos que devem dominar as barbearias. Em 2026, diferentes publicações especializadas vêm destacando low tapers, cortes texturizados, releituras do mullet, comprimentos médios e versões mais naturais de estilos clássicos.
Essas referências são importantes porque mostram mudanças de comportamento e ajudam o profissional a acompanhar aquilo que os clientes estão vendo nas ruas e nas redes sociais. O problema começa quando tendência vira receita.
Um low taper não produz o mesmo efeito em todas as pessoas. Um corte médio pode funcionar muito bem para determinada textura de cabelo e exigir uma rotina de finalização que outro cliente não está disposto a manter. Da mesma forma, uma fotografia feita em alguém com estrutura facial, densidade capilar e direção de crescimento específicas não pode ser transferida para outra pessoa com a expectativa de produzir exatamente o mesmo resultado.
É por isso que considero a personalização um movimento mais relevante do que qualquer nome de corte que esteja em alta neste momento. A pergunta “o que está na moda?” continua válida, mas precisa dividir espaço com outras: o que favorece essa pessoa? Como o cabelo dela se comporta? Quanto tempo pretende dedicar à manutenção? Com que frequência retorna à barbearia? Que imagem deseja transmitir?
Responder a essas perguntas exige mais do que conhecer tendências. Exige repertório técnico suficiente para interpretá-las.
A fotografia no celular precisa ser o início da consulta
Hoje é comum o cliente sentar na cadeira e, antes mesmo de explicar o que deseja, abrir uma fotografia no telefone. Considero isso positivo porque a imagem oferece informações que às vezes seriam difíceis de transmitir apenas com palavras. Ela ajuda a identificar comprimento, acabamento, volume e, principalmente, aquilo que aquela pessoa considera atraente.
O erro está em transformar a referência em uma ordem de execução.
Cabelo não é um material uniforme. Antes de decidir como chegar ao resultado, precisamos observar formato da cabeça, proporções do rosto, implantação, densidade, textura e direção de crescimento.
A rotina também importa. Um corte que fica excelente depois de uma finalização profissional pode se tornar frustrante quando o cliente tenta reproduzi-lo sozinho todas as manhãs, sem possuir os mesmos produtos, ferramentas ou tempo disponível.
Uma consulta bem-feita permite separar a estética da fotografia daquilo que realmente pode ser aproveitado nela. Em alguns casos, será possível chegar muito perto da referência. Em outros, será necessário preservar a intenção e modificar a construção. Talvez seja melhor manter mais comprimento em determinada área, alterar uma transição ou utilizar a barba para equilibrar as proporções.
É justamente aí que aparece uma diferença importante entre copiar um corte e interpretar uma imagem.
O retorno da tesoura aumenta a exigência sobre o barbeiro
A valorização de cabelos com mais comprimento, movimento e textura também devolve protagonismo à tesoura. Isso não significa uma disputa entre tesoura e máquina. Ambas possuem funções importantes, e um profissional completo precisa entender quando cada ferramenta oferece a melhor solução.
Cortes com maior construção, entretanto, exigem conhecimento sobre distribuição de peso, elevação, ângulos, conexão entre seções e comportamento natural do cabelo. Pequenas decisões interferem na maneira como o conjunto se movimentará depois que o cliente sair da barbearia, lavar o cabelo e tentar arrumá-lo sozinho.
Essa última parte deveria receber muito mais atenção no nosso setor.
O corte não pode ser pensado apenas para os minutos seguintes à finalização feita pelo barbeiro. Ele precisa funcionar na terça-feira de manhã, quando o cliente está atrasado para trabalhar e possui poucos minutos diante do espelho.
A busca atual por naturalidade torna esse desafio ainda mais interessante. Um cabelo que parece menos “montado” não é necessariamente mais simples de executar. Muitas vezes acontece o contrário: chegar a um resultado com movimento, equilíbrio e aparência espontânea exige domínio técnico justamente para que o trabalho do profissional não fique excessivamente evidente.
Visagismo não é impor uma identidade ao cliente
Com a valorização da personalização, o visagismo também ganhou mais espaço nas conversas sobre cabelo e barba masculina. Quando utilizado de maneira responsável, ele oferece recursos importantes para analisar proporções e compreender como diferentes escolhas modificam visualmente um rosto.
Comprimento nas laterais, volume no topo, desenho da barba e distribuição de peso podem alongar, ampliar ou equilibrar determinadas características. Esse conhecimento ajuda o barbeiro a explicar por que duas pessoas podem apresentar resultados completamente diferentes usando aparentemente o mesmo corte.
Existe, porém, um limite que considero fundamental. Visagismo não deveria transformar o profissional em alguém autorizado a decidir quem o cliente precisa parecer ser. Técnica deve servir à identidade da pessoa, e não substituí-la.
O barbeiro pode sugerir, explicar e mostrar que determinada escolha produzirá certo efeito. Pode também recomendar uma adaptação quando percebe que a referência trazida pelo cliente dificilmente funcionará da maneira imaginada. Mas o objetivo final continua sendo fazer com que aquela pessoa olhe no espelho e se reconheça.
Um atendimento realmente personalizado nasce desse encontro entre conhecimento técnico e preferência individual. Quando um dos dois lados desaparece, alguma coisa se perde.
Saber contrariar uma referência também faz parte do atendimento
Talvez uma das habilidades mais difíceis em qualquer profissão de serviços seja administrar expectativas. Quando alguém apresenta uma fotografia e pergunta se é possível reproduzir aquele resultado, simplesmente responder “sim” costuma ser mais confortável do que explicar por que determinadas adaptações serão necessárias.
Só que prometer um resultado incompatível com as características daquele cabelo cria um problema que aparecerá no final do atendimento.
O profissional precisa desenvolver comunicação suficiente para explicar diferenças de densidade, textura, crescimento ou manutenção sem transformar a conversa em uma aula técnica incompreensível. O cliente não precisa dominar geometria de corte para tomar uma boa decisão, mas merece compreender por que determinada solução está sendo recomendada.
Essa transparência também ajuda na fidelização. Quando o cliente percebe que uma recomendação foi feita pensando no resultado que ele terá, e não apenas em concluir rapidamente o serviço solicitado, a relação muda.
O barbeiro deixa de ser apenas alguém que executa uma ordem e passa a participar da construção daquela imagem. Esse tipo de confiança demora mais para ser conquistado do que um bom resultado fotografado para as redes sociais, mas tende a durar muito mais.
Tendências atravessam fronteiras, mas não chegam iguais a todos os mercados
Trabalhar no Brasil, no Canadá e nos Estados Unidos me permitiu observar como as redes sociais internacionalizaram rapidamente as referências masculinas. Um corte apresentado em Londres pode aparecer poucas horas depois no telefone de alguém em Miami, Toronto ou São Paulo. Técnicas que antes demoravam muito tempo para atravessar mercados hoje circulam praticamente em tempo real.
Isso não significa que o comportamento do consumidor tenha se tornado igual em todos os lugares.
Frequência de visitas à barbearia, uso de produtos, referências estéticas, ambiente profissional e até a forma de explicar aquilo que se deseja podem mudar de uma cultura para outra. O barbeiro que trabalha em mercados diferentes descobre rapidamente que dominar uma técnica é apenas parte da adaptação.
Essa experiência reforçou para mim o valor dos fundamentos. Tendências viajam e mudam, enquanto conhecimentos relacionados a geometria, textura, distribuição de peso e construção do corte continuam úteis independentemente do país.
Quem aprende somente a reproduzir o estilo que está em alta pode encontrar dificuldade quando a próxima tendência chegar. Quem compreende por que determinado corte funciona possui condições melhores de interpretar aquilo que vier depois.
A velocidade com que as referências circulam tornou essa capacidade ainda mais importante.
Redes sociais criaram clientes mais informados e mais exigentes
Instagram, TikTok e outras plataformas transformaram profundamente a barbearia. Profissionais conseguem acompanhar trabalhos realizados em diferentes países, conhecer técnicas e apresentar seu portfólio para milhares de pessoas sem depender apenas da divulgação local.
Para quem começou na profissão antes dessa transformação, é impressionante observar a quantidade de conhecimento que hoje pode ser acessada em poucos minutos.
O cliente também recebeu esse acesso. Muitos homens chegam à barbearia conhecendo nomes de cortes, produtos e tendências. Alguns acompanham barbeiros de diferentes países e possuem referências bastante específicas. Isso eleva o nível da conversa, mas também aumenta a expectativa sobre o resultado.
Há ainda uma questão que precisamos considerar: a imagem vista na tela nem sempre representa apenas o corte. Iluminação, ângulo, finalização, produto e, eventualmente, edição interferem bastante na aparência.
O barbeiro precisa conseguir traduzir aquilo que é referência visual para aquilo que será sustentável na rotina real daquela pessoa. Por isso, comunicação e orientação passaram a fazer parte da própria entrega.
Explicar como finalizar, qual manutenção será necessária e quanto tempo determinado resultado tende a conservar sua forma ajuda o cliente a entender melhor aquilo que está levando para casa.
A fotografia pode despertar o desejo por um corte. O trabalho profissional precisa fazer esse corte sobreviver fora da fotografia.
Formar novos barbeiros também exige abandonar a lógica da receita
A mudança de comportamento dos clientes deveria provocar uma transformação semelhante na educação profissional. Ensinar uma sequência de movimentos é importante, principalmente para quem está começando, mas não pode ser o ponto final da formação.
O aluno precisa compreender o motivo de cada decisão.
Quando ensinamos ângulos, geometria, textura, distribuição de peso e transições, oferecemos ferramentas para que o futuro profissional consiga resolver problemas diferentes daqueles apresentados durante a aula.
O mesmo vale para o degradê: memorizar posições de máquina pode produzir um resultado específico, mas compreender formato da cabeça e construção da transição permite adaptar a técnica.
Essa diferença separa treinamento de formação.
Um barbeiro treinado apenas para reproduzir determinados cortes precisará de uma nova receita sempre que a tendência mudar. Um profissional que domina fundamentos consegue observar uma referência nova, desmontá-la mentalmente e compreender quais técnicas serão necessárias para construí-la.
Como educador, considero esse um dos desafios mais importantes para o futuro da profissão. A velocidade das tendências aumentou demais para que a formação continue baseada apenas em modelos prontos.
O barbeiro do futuro precisará ser menos copiador e mais intérprete
Durante muito tempo, a profissão pôde ser resumida de maneira relativamente simples: o cliente fazia um pedido e o barbeiro executava.
O mercado atual está tornando essa definição limitada.
Hoje, o cliente possui acesso a milhares de referências e consegue encontrar profissionais capazes de executar um bom fade em praticamente qualquer grande cidade. Quando a entrega se resume à reprodução técnica, a competição tende a acontecer por preço, localização, disponibilidade ou conveniência.
A personalização muda essa relação porque acrescenta conhecimento ao serviço.
O profissional que conhece o cabelo do cliente, compreende sua rotina, lembra das escolhas feitas no atendimento anterior e consegue ajustar o corte conforme sua imagem evolui oferece algo mais difícil de substituir.
Talvez por isso eu não acredite que o corte masculino de 2026 possa ser resumido em um único nome. Textura, naturalidade e comprimentos diferentes são tendências importantes, mas o movimento maior parece estar justamente na redução da padronização.
Depois de mais de quinze anos trabalhando com barbearia e acompanhando clientes e profissionais em culturas diferentes, vejo essa transformação como um amadurecimento do setor. Quanto mais individual se torna o resultado esperado, maior precisa ser o repertório de quem o executa.
O fade continuará ocupando cadeiras e fazendo parte da barbearia contemporânea. A diferença é que ele volta a ser uma ferramenta entre muitas outras, e não uma resposta automática para qualquer pessoa.
Se essa mudança continuar, o melhor barbeiro não será necessariamente aquele que reproduz com maior perfeição o corte mais popular do momento. Será aquele que entende suficientemente bem sua técnica para saber quando usá-la, quando adaptá-la e quando escolher outro caminho.
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Uma tempestade de granizo pode durar poucos minutos. Para quem trabalha com reparação automotiva, no entanto, seus efeitos podem permanecer por semanas ou até meses.
Dependendo da intensidade do evento, centenas ou milhares de veículos podem ser atingidos em uma mesma região, criando uma demanda repentina por profissionais capazes de avaliar e reparar danos que, embora pareçam semelhantes à primeira vista, exigem bastante precisão.
Capô, teto, tampa do porta-malas, colunas e outras áreas da carroceria podem acumular dezenas de pequenas deformações. Em situações mais severas, um único veículo pode apresentar uma quantidade ainda maior de pontos afetados.
É nesse momento que surge uma questão que considero importante para proprietários, oficinas, concessionárias e para o próprio mercado de reparação: corrigir o dano não deveria significar necessariamente alterar aquilo que permanece original no automóvel.
O Paintless Dent Repair (PDR), conhecido no Brasil como Martelinho de Ouro, parte justamente da possibilidade de reparar determinados amassados sem recorrer automaticamente à repintura da área. No caso dos danos provocados por granizo, essa característica ganha uma relevância especial.
Mais do que uma discussão sobre estética, estamos falando sobre diagnóstico, preservação e escolha do procedimento adequado para cada veículo.
Granizo cria um desafio diferente para a reparação automotiva
Uma pequena colisão normalmente concentra o dano em uma região específica. O granizo apresenta outra dinâmica. Durante uma tempestade, diferentes partes expostas do automóvel podem ser atingidas repetidamente.
Isso faz com que o trabalho não esteja concentrado necessariamente em um único amassado, mas em uma sequência de deformações distribuídas pela carroceria.
Essa diferença muda bastante a lógica da execução. O profissional precisa avaliar o conjunto antes de começar. Quantidade, localização e características dos danos ajudam a determinar como o serviço será organizado e quais áreas exigirão maior atenção.
Em operações de grande volume, existe ainda outra dificuldade. Depois de eventos climáticos severos, muitos veículos podem chegar praticamente ao mesmo tempo para avaliação e reparo. Surge, então, uma pressão natural por produtividade.
É justamente nesse momento que experiência e método passam a ter ainda mais importância.
Trabalhar com volume não pode significar tratar todos os veículos como se apresentassem exatamente o mesmo problema. A produtividade precisa nascer da organização do processo e do domínio técnico, não da tentativa de acelerar indiscriminadamente cada etapa.
A primeira pergunta deveria ser: o que realmente precisa ser feito?
Existe uma tendência compreensível de procurar imediatamente uma solução quando encontramos um veículo danificado. Em reparação automotiva, porém, uma boa decisão começa pelo diagnóstico.
Antes de escolher o procedimento, é necessário entender as condições da peça e avaliar se aquele dano é compatível com determinada técnica.
No PDR, essa análise é fundamental porque a proposta é trabalhar sobre a deformação, preservando a pintura original quando as condições permitem esse tipo de intervenção.
Isso exige critério.
Nem todo amassado é igual. Profundidade, localização, acesso à área afetada e condição da pintura interferem diretamente na avaliação. Por isso, prometer uma solução antes de examinar corretamente o veículo é uma postura que deveria ser evitada.
A experiência ensina justamente a não transformar uma técnica em resposta automática para qualquer situação.
Um bom diagnóstico não serve para confirmar aquilo que o profissional já decidiu fazer. Serve para descobrir o que realmente precisa ser feito.
Preservar a pintura original também significa respeitar a história do veículo
Quando se fala em reparo, o consumidor normalmente pensa no resultado visual. É natural. O proprietário quer olhar novamente para o automóvel sem encontrar as marcas deixadas pela tempestade.
Mas existe outro aspecto importante nessa discussão: a originalidade.
A pintura aplicada durante a fabricação faz parte da condição original do veículo. Quando existe uma possibilidade tecnicamente adequada de corrigir uma deformação sem substituir essa pintura por um novo processo, preservar essa característica passa a ser uma vantagem relevante do reparo sem pintura.
Isso não significa que repintar um veículo seja sempre inadequado. Existem danos que podem exigir procedimentos diferentes, e seria irresponsável defender uma única solução para todos os casos.
A questão é outra: se determinada intervenção consegue solucionar o problema preservando aquilo que não foi comprometido, por que alterar uma característica original sem necessidade?
Esse raciocínio deveria estar presente em várias áreas da reparação automotiva. Intervir apenas onde existe necessidade é uma forma de respeitar o próprio produto.
Rapidez só é vantagem quando vem acompanhada de qualidade
Depois de uma tempestade de granizo, a demanda pode crescer rapidamente. Concessionárias, oficinas, seguradoras e proprietários querem colocar os veículos novamente em condições adequadas, criando uma operação que precisa combinar capacidade técnica com produtividade.
É nesse cenário que a palavra “rapidez” precisa ser tratada com cuidado.
Eficiência não significa simplesmente terminar um carro no menor tempo possível. Uma operação eficiente é aquela que consegue organizar diagnóstico, execução e controle de qualidade de maneira a reduzir desperdícios e retrabalho.
Em serviços de precisão, acelerar uma etapa sem critério pode produzir exatamente o efeito contrário. Se o trabalho precisar ser revisto posteriormente, o tempo aparentemente economizado deixa de existir.
A experiência em operações de alto volume mostra que a produtividade consistente nasce muito mais do processo do que da pressa. Equipes organizadas, distribuição adequada do trabalho, avaliação correta e profissionais preparados permitem atender mais veículos sem transformar quantidade em inimiga da qualidade.
Essa diferença é importante porque não podemos controlar quando os eventos climáticos acontecerão. O mercado precisa estar preparado para absorver picos de demanda sem reduzir o padrão da entrega.
Eventos climáticos também expõem a falta de especialistas
O granizo possui uma característica particular para o mercado automotivo: a demanda por reparação pode surgir de forma concentrada geograficamente.
Uma região passa por uma tempestade severa e, de repente, existe um grande número de veículos precisando de avaliação. Enquanto isso, outras localidades podem apresentar uma rotina completamente diferente.
Essa irregularidade ajuda a explicar por que profissionais especializados em danos provocados por granizo frequentemente trabalham em diferentes cidades, regiões e até países. A mão de obra precisa acompanhar a demanda.
Ao longo da minha atuação profissional, pude observar esse fenômeno em diferentes mercados. Brasil, México, Alemanha, Turquia, Itália, França, Espanha, Suíça e Áustria possuem realidades distintas, mas as operações relacionadas a danos automotivos provocados por eventos climáticos compartilham um desafio.
Quando a demanda cresce rapidamente, não basta aumentar o número de pessoas trabalhando. É necessário encontrar profissionais com experiência suficiente para manter o padrão técnico em operações de grande volume.
Esse é um ponto que muitas vezes passa despercebido quando se discute escassez de mão de obra. Não se trata apenas de quantidade. Existe uma diferença entre ter trabalhadores disponíveis e possuir especialistas preparados para determinado tipo de reparo.
A experiência internacional mostra que a qualidade precisa sobreviver às diferenças de mercado
Trabalhar em diferentes países ensina rapidamente que não existe uma única cultura de reparação automotiva.
Os processos mudam. A organização das equipes muda. A relação com concessionárias e oficinas também pode variar. Há mercados nos quais determinadas rotinas são mais rígidas e outros em que existe maior flexibilidade operacional.
Essas diferenças são importantes porque obrigam o profissional a separar hábito de fundamento técnico.
Um hábito pode precisar mudar quando se chega a uma nova operação. O compromisso com a qualidade, não.
Essa talvez seja uma das principais contribuições de uma trajetória internacional para qualquer atividade especializada. Quando alguém trabalha sempre no mesmo ambiente, corre o risco de imaginar que determinado processo é a única maneira possível de executar um serviço.
O contato com outros mercados mostra alternativas. Algumas são melhores. Outras simplesmente funcionam para uma realidade diferente. O profissional amadurece quando consegue observar essas práticas, aprender com elas e incorporar aquilo que efetivamente melhora sua execução.
Trabalhar com grandes montadoras aumenta a percepção sobre padrão
Atuar em operações ligadas a redes de marcas como Chrysler, Volkswagen, Mercedes-Benz, Honda, Toyota, Seat, Jeep, Volvo, Audi e BMW também oferece uma perspectiva importante sobre controle de qualidade.
Marcas diferentes possuem públicos, produtos e posicionamentos distintos. Existe, porém, algo em comum quando se trabalha dentro de operações profissionais: o resultado precisa atender a critérios que não dependem apenas da opinião de quem executou o serviço.
Isso aumenta a responsabilidade do técnico.
O profissional precisa desenvolver a capacidade de olhar criticamente para o próprio trabalho e não considerar um reparo satisfatório apenas porque conseguiu concluir a tarefa.
Esse tipo de exigência é saudável para o setor. Quanto mais a reparação automotiva estabelece padrões claros, menos espaço existe para a ideia de que habilidade manual é suficiente por si só.
A habilidade continua essencial, especialmente no PDR, mas precisa estar acompanhada de consistência.
Um técnico realmente experiente não deveria ser apenas aquele que consegue acertar ocasionalmente um reparo difícil. Deveria ser aquele capaz de manter a qualidade ao longo de uma sequência de trabalhos, inclusive quando existe pressão por volume.
O consumidor precisa entender que nem todo dano exige a mesma solução
Existe também uma questão de informação. Muitos proprietários conhecem pouco sobre os processos disponíveis depois que o veículo sofre algum dano. Naturalmente, acabam dependendo da recomendação apresentada pela oficina, concessionária ou profissional responsável pela avaliação.
Isso aumenta nossa responsabilidade como especialistas.
O cliente precisa receber uma explicação compreensível sobre aquilo que aconteceu com seu veículo, quais possibilidades existem e por que determinada abordagem está sendo recomendada.
Termos técnicos não deveriam servir para afastar o consumidor da decisão. Quando o proprietário entende as alternativas, consegue participar de maneira mais consciente do processo.
Isso também reduz expectativas irreais.
Existem situações nas quais o PDR pode ser adequado e outras em que as condições do dano exigirão procedimentos diferentes. Explicar limites não enfraquece uma técnica. Pelo contrário, aumenta sua credibilidade.
O mercado amadurece quando deixa de vender soluções universais e passa a oferecer diagnósticos responsáveis.
Preservar também pode ser uma forma de eficiência
Existe uma discussão cada vez maior no setor automotivo sobre eficiência no uso de recursos. Quando pensamos em reparação, essa conversa também deveria considerar quanto precisamos alterar de um veículo para solucionar determinado problema.
Se uma peça continua estruturalmente adequada e sua pintura original pode ser preservada, uma técnica capaz de trabalhar diretamente sobre o dano apresenta uma lógica interessante: corrigir aquilo que foi afetado, mantendo, sempre que tecnicamente possível, aquilo que permanece em boas condições.
Essa ideia vai além do PDR. Ela representa uma mudança de mentalidade na manutenção de bens de alto valor.
Nem toda solução precisa começar pela substituição ou por uma intervenção mais ampla. Em muitos casos, o conhecimento especializado permite atuar de maneira mais localizada.
Isso exige diagnóstico melhor, profissionais qualificados e consumidores mais informados.
A eficiência deixa, então, de ser medida apenas pelo tempo necessário para concluir o serviço. Passa a incluir também a capacidade de evitar intervenções desnecessárias.
Depois da tempestade, a qualidade do reparo continua no veículo
Eventos de granizo são passageiros. Os reparos realizados depois deles permanecem.
É por isso que a pressão criada por uma grande demanda não deveria modificar o princípio básico de qualquer serviço técnico: cada veículo precisa ser avaliado de acordo com sua condição.
O PDR oferece uma possibilidade importante dentro desse cenário porque permite, nos casos tecnicamente adequados, trabalhar sobre deformações sem recorrer automaticamente à repintura. Mas o valor da técnica depende diretamente da qualidade de quem a executa.
Ferramentas podem ser adquiridas. Procedimentos podem ser ensinados. A capacidade de avaliar um dano, escolher a abordagem adequada e manter consistência em operações de grande volume exige tempo, prática e responsabilidade.
Depois de trabalhar com reparação automotiva em diferentes países e acompanhar operações com padrões bastante distintos, considero que o setor tem uma oportunidade importante de amadurecimento.
Precisamos falar menos em soluções milagrosas e mais em diagnóstico. Menos em velocidade isoladamente e mais em eficiência. Menos em simplesmente fazer o dano desaparecer e mais em compreender o que estamos preservando durante o processo.
Uma tempestade pode modificar a carroceria de um veículo em poucos minutos. A maneira como o mercado responde a esse dano diz muito sobre o nível técnico que escolhemos construir.
Quando existe a possibilidade de reparar preservando a originalidade, essa alternativa merece ser avaliada com conhecimento, e não apenas com pressa.
